A Primavera em 10 Obras Portuguesas

Assinala-se no sábado, dia 20 de Março, o Equinócio da Primavera. Sendo o panorama artístico português tão rico em paisagens e representação de flores, o proximArte não podia deixar escapar esta data, assumindo o desejo de que estes dias primaveris que se avizinham se apresentem tão coloridos e solarengos como as obras que se seguem.

Neste artigo até poderiam encontrar as típicas naturezas-mortas, género tão característico da Pintura, ou inúmeras obras de jardins e paisagens de perder de vista. No entanto, existe uma quantidade considerável de obras portuguesas intituladas Primavera e esse acabou por ser o caminho escolhido. Nada melhor do que representar esta estação com obras que se referem directamente a ela. Sejam elas paisagens com ou sem a presença humana, alegorias ou a Primavera assumida na figura feminina, há de tudo um pouco. Desse grupo se obras, foi feita uma selecção de 10, que poderão ficar a conhecer de seguida.

1. Olaria Alfacinha de Estremoz, Primavera, século XX, bairro policromado, Museu Nacional de Arqueologia

Fonte: http://www.matriznet.dgpc.pt/

Peça pertencente a um conjunto de 5, todas denominadas Primavera. O seu local de produção, a Olaria Alfacinha em Estremoz, é comprovada a partir de uma inscrição na base.

Representa uma figura antropomórfica feminina que usa um vestido curto rodado com folhos na parte da frente e segura um ramo de flores em cada mão. Os seus braços estão arqueados para dentro e tem um diadema por cima do cabelo em tom de castanho escuro. A partir dos ombros sai um arco em arame que circunda a cabeça e no qual podemos ver 11 rodelas de barro pintadas a figurar flores. A paleta cromática não varia entre o vestuário e as flores do arco. A junção da posição dos braços com o arco relembra algumas marchas populares.

2. Silva Porto, Primavera, 1882, óleo sobre madeira, Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves

Fonte: https://artsandculture.google.com/asset/spring-silva-porto/UAGQk6bC2cDhxg?hl=pt-pt

Sempre fiel ao Naturalismo, Silva Porto (1850-1893) foi o responsável pela introdução deste estilo em Portugal. Funda o Grupo do Leão com mais alguns artistas.
Conhecido pelas suas paisagens do mundo rural nacional onde se vêem representadas tradições etnográficas, por vezes com presença humana. Procurou pintar directamente na natureza (pintura ao ar livre), sendo o mais fidedigno possível, mostrando a luz solar que povoa as paisagens portuguesas. Dá valor à mancha e ao inacabado, sendo que o elemento realmente importante é a representação do instante captado.

Nesta Primavera vemos a predominância dos tons quentes com uma vegetação amarela torrada e as papoilas vermelhas. É também pelas flores que se cria uma linha até às árvores em tom verde escuro, linha essa que equilibra a composição, unindo a vegetação ao céu.

3. Alfredo Keil, Primavera, 1882, óleo sobre tela, Casa-Museu Dr, Anastácio Gonçalves

Fonte: http://www.matriznet.dgpc.pt/

Pintor e músico, Alfredo Keil (1850-1907) é o autor do hino nacional, A Portuguesa, sendo esse o seu trabalho mais significativo no campo da música. Na pintura destacam-se as paisagens e cenas de interior. A sua educação alemã faz com que ainda seja notório o traço delicado do Romantismo, embora já com um pé em alguns elementos do Naturalismo.

Nesta obra, o artista mostra-nos uma paisagem com a vereda de uma floresta pela qual passeiam uma mulher e uma criança, figuras às quais não atribuiu muitos detalhes. Conseguimos perceber que é ainda uma fase inicial da Primavera, sendo que as árvores estão ainda um pouco despidas. Há sobretudo o uso de castanho e verde escuro que contrastam com o azul luminoso do céu e com os apontamentos de cor nas flores do chão e em elementos das árvores. Essas mesmas árvores mostram as tais linhas românticas, enquanto que as manchas que fazem a relva e a folhagem já são características naturalistas.

4. Artur Loureiro, Primavera, 1891, óleo sobre tela, National Gallery of Victoria, Melbourne

Fonte: https://www.ngv.vic.gov.au/

A obra de Artur Loureiro (1853-1932) tem reconhecimento internacional, devido à sua estadia de vários anos em Melbourne, tendo obras espalhadas um pouco por todo o mundo. Foi um pintor naturalista especializado na paisagem, figuração animalista e no retrato.

Primavera foi executada durante essa época na Austrália. Apresenta uma paisagem primaveril onde vemos 2 figuras femininas e uma árvore florida em primeiro plano. Uma das figuras está em pé e encostada a uma árvore. Tem na mão o que parece ser uma coroa de flores e dá a sensação de estar absorta nos seus pensamentos. A outra figura está de joelhos no chão a apanhar flores para fazer outra coroa. A paisagem apresenta-se luminosa e quase etérea. As flores amarelas no chão destacam-se na relva. Em segundo plano, há um riacho do lado direito, após o qual é possível ver mais 2 pessoas sentadas no chão à sombra de outra árvore. Percebemos o azul do céu no topo esquerdo da composição, mas o resto é marcado pela vegetação.

5. Veloso Salgado, Primavera, 1917, óleo sobre tela, Museu Abade de Baçal

Fonte: http://www.matriznet.dgpc.pt/

A obra de Veloso Salgado (1864-1945) baseou-se sobretudo na Pintura de História, sendo que o artista também produziu inúmeras paisagens dentro do género naturalista. Destaque também para o retrato.

Em Primavera, vemos duas senhoras numa paisagem campestre, na qual é possível ver um riacho que acompanha o percurso pelo lado esquerdo. As senhoras estão num plano médio no centro da composição e estão representadas em contra-luz. O primeiro plano é apresentado em tons mais claros com brancos e amarelos que dão luz à pintura, contrastando com o verde escuro das árvores de fundo. Através dos pés e dos vestidos das figuras femininas, conseguimos perceber que esta é uma obra dinâmica, com movimento.

6. Carlos Bonvalot, Primavera, 1926, óleo sobre tela, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado

Fonte: http://www.matriznet.dgpc.pt/

As pinturas de Carlos Bonvalot (1893-1934) apresentam um carácter simbolista. Nas suas viagens por Itália realiza alguns trabalhos de paisagem marcados por um Naturalismo receptivo à expressão dada pela mancha. Também se dedicou ao restauro, sobretudo de obras quinhentistas, introduzindo processos como o exame radiográfico e a análise de pigmentos, na época pioneiros em Portugal. Falece no dia em que iria assumir o cargo de director da Oficina de Restauro do Museu Nacional de Arte Antiga.

Esta obra apresenta-nos uma figura feminina de perfil e a meio corpo. Usa um vestido de saia comprida em balão, ela própria a relembrar flores como, por exemplo, uma papoila virada para baixo. Com a cabeça voltada para o lado esquerdo e de olhos fechado, parece inspirar o aroma das flores que ocupam esse lado da composição. A parte inferior da obra, ocupada maioritariamente pela saia, é escura e contrasta com a luminosidade que as flores dão à parte superior. Estas apresentam-se como manchas coloridas e acabam a dissolver-se com o fundo.

7. José Malhoa, Primavera, 1932, óleo sobre tela, Museu José Malhoa

Fonte: http://www.matriznet.dgpc.pt/

Também ligado ao movimento Naturalista, José Malhoa (1855-1933) foi, juntamente com Silva Porto, um dos fundadores do Grupo do Leão. A sua obra é sobretudo pintura de género muito ligada aos hábitos campesinos que dão uma nova imagem rural do Portugal Monárquico e Republicano. Malhoa foi considerado um pintor de excelência por ambos os regimes, sendo que os seus trabalhos são livres de convicções ideológicas. Para além dessa tema maior, pintou também retratos e composições históricas decorativas por encomenda.

Nesta obra vemos em pormenor um recanto de jardim banhado numa luz de sol intensa. À direita há um muro com trepadeiras e à esquerda um canteiro com vasos. Juntos formam uma marcada linha diagonal que se prolonga até ao fundo da composição, no canto superior esquerdo. Aí, marcando o fim da vista, há uma sombra escura que deixa na ideia a localização de uma possível entrada para uma mata ou pinhal. Os tons mais utilizados são os verdes e os tons terra, dos quais sobressaem as manchas amarelas e vermelhos que fazem as flores.

8. Sarah Affonso, Primavera, s/d, óleo sobre tela, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado

Fonte: http://www.matriznet.dgpc.pt/

Apesar da obra de Sarah Affonso (1899-1983) residir sobretudo nos retratos e na representação das tradições e gentes do Minho, há algumas obras nas quais a artista foi um pouco mais livre e espontânea. Podem ficar a saber mais sobre a sua vida e a sua obra em artigos anteriores.

Esta pintura mostra-nos uma paisagem vista através da varanda de uma casa. Há uma mistura de cores escuras e claras, sendo que os tons frios se notam sobretudo na vegetação que nos recebe em primeiro plano, logo a seguir à balaustrada da tal varanda. Uma composição que alia tons alegres e doces que comunicam com a forma erudita da formação artística de Sarah Affonso e com a sua também linguagem naïf, cuja inspiração vem da Arte Popular, elementos marcantes na obra da artista. A vegetação é-nos apresentada, à semelhança de algumas outras obras aqui referidas, como mancha.

9. Jorge Barradas, Primavera, 1961, lápis de cor sobre papel, Fundação Galp Energia

Fonte: https://www.pinterest.pt/

A obra de Jorge Barradas (1894-1971) revela uma grande observação do ambiente social por parte do artista, povoada de personagens tipo da vida lisboeta, com destaque para figuras como o mendigo, as costureiras, o ardina, etc. A mulher acaba por ser a mais representada, seja a popular ou a da alta sociedade.

Esta Primavera faz parte de uma série dedicada às 4 estações, todas elas representadas através de retratos femininos. A composição apresenta tons suaves de cinzento com alguns apontamentos a amarelo e verde no colete, chapéu e ramos. Os ombros da figura ocupam quase toda a largura da folha e dão-nos uma ideia de onde fica o centro da mesma. Ainda assim, o foco vai para o amarelo brilhante da pena colocada no chapéu. O ramo do lado esquerdo revela-nos um início de Primavera, sendo que as folhas são um elemento muito pontual.

10. Teresa Cortez, Primavera, 1989, painel cerâmico relevado, Museu Nacional do Azulejo

Fonte: http://www.matriznet.dgpc.pt/

A aprendizagem de Teresa Cortez centrou-se nas técnicas específicas da cerâmica, que aliou à sua sensibilidade para esta forma artística, combinação que lhe dá um lugar de destaque entre os ceramistas portugueses. Os painéis de azulejos são a parte mais significativa do seu trabalho, embora também se dedique a outras vertentes da cerâmica, bem como à aguarela e ao desenho, A temática dos animais e da natureza é transversal em toda a sua obra.

Este painel de 9 azulejos pertence a uma série intitulada As 4 Estações do Ano. Vemos uma figura feminina (em cujo rosto podemos interpretar a expressão da lua – e, por exemplo, no painel do Outono, o sol) com cabelos em flor. Estas flores aparecem em tons azulados e rosa escuro e são pequenas, remetendo para flores silvestres. A cor pálida do rosto e as flores sobressaem de um fundo castanho escuro. O rosto é delimitado por uma moldura azul ornamentada com motivos geométricos. Há alguma pontuação de verde com a inclusão de folhas, mas é o vermelho apagado dos lábios que surge como elemento de destaque.

É de notar como a maior parte das obras aqui apresentadas se unem pelo estilo Naturalista, sendo que essa foi uma altura de predominantes representações de e ao ar livre. É também interessante reparar como uma estação tão conhecida pelas flores, tema normalmente associado às mulheres, foi representado em escala maciça pelos homens, pelo menos tendo em conta as obras assim intituladas e de acesso ao público.
Em Portugal, a representação da Primavera não se resume a pinturas, no entanto as esculturas encontradas, a maioria com a representação de alegorias, são de autores estrangeiros e desconhecidos, daí não figurarem neste artigo. Essas obras e as naturezas-mortas ficarão para uma próxima.

6 pensamentos sobre “A Primavera em 10 Obras Portuguesas

  1. Todos os anos uma pessoa anseia pela Primavera, mas depois deste inverno tão frio e chuvoso, precisamos de sol para aquecer os nossos coraçõezinhos!
    Adorei o tema e as obras, são todas lindas mas destaco do Veloso Salgado (adoro as cores e os sorrisos) e do Carlos Bonvalot (pela delicadeza). A do José Malhoa é igualmente muito bonita!

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  2. Um artigo maravilhoso para receber este equinócio de Primavera!
    Um tema interessante com obras diversas e apresentado como uma lufada de ar fresco bem próprio da estação em que entramos.
    O meu coração terá sempre tendência para se deixar levar pelas obras da época ou com traços do Romantismo mas tive que me obrigar a ler o que vinha a seguir da obra de Carlos Bonvalot. Tão delicada, tão serena… dei por mim a replicar inconscientemente o acto de cheirar uma flor sem ter nenhuma à frente.
    Obrigada pela inspiração e continuação de bom trabalho, querida Helena!

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