Niki de Saint Phalle | Vida

Niki de Saint Phalle afirmou-se como a mulher no mundo dos homens que preenchiam o Novo Realismo em França. Artista de causas sociais, percorreu um leque variado de formas de se expressar, passando por perfomances, esculturas de grande escala e até um parque de esculturas. Não só isso, ainda experimentou diferentes materiais, alguns deles ganhando importância sobre outros ao longo dos anos.
Este é o primeiro de dois artigos sobre a artista franco-americana, sendo que neste focaremos a sua vida pessoal, de forma a ser mais fácil entender a sua obra, a qual será o tema do próximo artigo.

Niki de Saint Phalle. Fonte: wikiart.org

Catherine Marie-Agnès Fal de Saint Phalle, ou Niki de Saint Phalle, nasce a 29 de Outubro de 1930, em França, filha de mãe americana e pai francês. A sua infância e adolescência são passadas em Nova Iorque, mas há uma constante ligação com o lado francês da família, sendo que viajava regularmente para esse país.
O seu temperamento artístico é algo visível desde jovem, mas a sua carreira começa no mundo na moda ao aparecer em revistas como a Vogue e a Life.
Aos 18 anos, foge e casa com Harry Matthews, um amigo de infância. Deste casamento nascem o seu filho e filha, respectivamente em 1951 e 1955.

Começa a pintar em 1950, mas é em 1953, após ser hospitalizada por sofrer um colapso nervoso, que decide seguir essa carreira, pois percebe que a Pintura é uma grande ajuda ao ultrapassar esse período mais conturbado da sua vida.

Em 1955, muda-se para Espanha, mais precisamente para Mallorca, com o marido e os filhos. Ao visitar o país, a sua base de influências e de materiais vai crescer, chegando mesmo a perceber que o uso de objectos será fundamental na sua obra. Numa viagem a Barcelona, deixa-se levar pelo trabalho de Antoní Gaudí e assim decide dedicar a sua vida a criar o seu jardim de esculturas, algo que concretizará anos mais tarde com Tarot Garden.

Niki de Saint Phalle, Jardim Tarot, Toscânia. Fonte: newyorker.com

Ao visitar vários museus, tanto em Espanha como nos Estados Unidos da América, Saint Phalle vai ser influenciada pelos trabalhos de Paul Klee, Henri Matisse, Pablo Picasso, Henri Rousseau, Jasper Johns, Willem de Kooning, Jackson Pollock e Robert Raushcenberg.

Em 1960, separa-se do marido que fica encarregue das crianças. Ainda nesse ano, junta-se com Jean Tinguely (com quem casará em Julho de 1971) e os dois trabalham no mesmo estúdio e vivem como que numa espécie de colónia artística.
Este será um ano de recomeços e de definição das suas prioridades, tal como nos diz Maria José Justino:

O ano de 1960 é crucial na vida e na arte da artista. Niki abandona o marido, deixa os filhos, descarta a sua descendência aristocrática, vira costas ao padrão feminino de beleza, abre mão da comodidade burguesa, assume a sua relação com Tinguely e consagra-se definitivamente à Arte.

Niki de Saint Phalle e Jean Tinguely. Fonte: artnet.com

Antes de mais, Saint Phalle é uma artista que se insere na prática francesa denominada por Nouveau Réalisme (Novo Realismo), tendo feito a sua escola com Jean Tinguely, Daniel Spoerri, Yves Klein e Arman. O facto de ser franco-americana faz dela como que a intermediária entre esta corrente e a Pop Art.

É exactamente na época de 1960 que cria algumas das suas obras mais reconhecidas, como Tirs, as Nanas e Hon, sobre as quais falaremos num artigo dedicado às obras de Saint Phalle.

Para a Expo ’67, em Montreal, cria Le Paradis Fantastique com Jean Tinguely. Aqui é exposta aos vapores tóxicos da resina de poliéster, algo que lhe causa um grande dano nos pulmões, resultando em recorrentes problemas de saúde. Em 1974, é novamente hospitalizada devido a este problema.

Niki de Saint Phalle a trabalhar nas Nanas, 1971. Fonte: artistsnetwork.com

Niki de Saint Phalle era conhecida como uma mulher de causas, algo que será muito visível na sua obra.

Um desses casos é a sua luta contra a SIDA, sendo uma das primeiras pessoas com plataforma social a mostrar a sua preocupação sobre o tema e a tentar alertar e educar para a sua prevenção. Assim, em 1987, lança AIDS: You Can’t Catch It Holding Hands, um livro profundamente espalhado e traduzido em 7 línguas, no qual Saint Phalle alia o texto ao desenho para mostrar quais as formas pelas quais se propaga o vírus e como evitar que isso aconteça.

Noutro espectro, preocupa-se muito com a igualdade de género. A sua principal luta de acordo com o feminismo é o facto de não aceitar que o mundo da Arte se deixe povoar de mulheres, mas que, ainda assim, o faça de forma discriminatória, pois apelidam-as de “mulheres-artistas” e não apenas de “artistas”. É esse o estatuto que Saint Phalle reclama para si, negando esta definição especial. Não recusa o ser mulher, apenas quer para si os mesmos direitos e condição artística que cabe aos homens.

Ainda nesse campo, afirma que o facto de ser necessário uma mulher dizer que pode fazer tudo no mundo artístico só demonstra a fragilidade da mesma na entrada no sistema da arte, sendo que um homem nunca teria de fazer a mesma afirmação. Tal como diz numa carta a Hultén, em 1993:

Eu transgredia esses limites (aqueles impostos às mulheres nestas décadas em relação à sua participação na Arte) para alcançar o mundo dos homens que me parecia aventuroso, misterioso, excitante (…) o papel dos homens dava-lhes muito mais liberdade e eu estava resolvida a tornar essa liberdade minha.

Niki de Saint Phalle. Fonte: widewalls.ch

Em Agosto de 1991, morre Jean Tinguely. Em 1993, Saint Phalle muda-se para a Califórnia onde monta um estúdio e começa a trabalhar com vidros, espelhos e pedras, elementos que já vinham tendo destaque superior à tinta nas suas obras.

Em 2001, recebe o 12ª Praemium Imperial Prize no Japão, considerado o equivalente ao Prémio Nobel no mundo da Arte.

Niki de Saint Phalle falece a 21 de Maio de 2002, com 71 anos, na Califórnia.
Com a supervisão da neta e de alguns dos seus assistentes, foram terminados todos os seus projectos, como The Grotto e Queen Califa’s Magical Circle, ambos inaugurados em 2003.

Imagem de topo do artigo: Niki de Saint Phalle com uma das suas obras. Fonte: https://news.cgtn.com/.

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