Arman e Seis Obras que Devem Conhecer

Num mundo onde tudo é cada vez mais descartável, é interessante termos a possibilidade de ver algumas das coisas que se deitaram fora no século XX. O trabalho de Arman representa a sociedade da época ao mostrar o que foi deixado para trás por ser considerado lixo. O artista consegue fazê-lo de várias formas, todas elas importantes de se analisar e, por isso, deixo-vos com Arman e seis dos seus trabalhos que deviam conhecer.

Arman no seu estúdio, 1982. Fonte: Arman Studio.

Quando falamos de uma sociedade de consumo na Arte, normalmente pensamos na Pop Art e, obviamente, em Andy Warhol (1928-1987). Mas a cena artística dos anos 1960 testemunhou mais do que isso. Em França, por exemplo, havia o Nouveau Réalisme, estilo fundado por Yves Klein (1928-1962) e pelo crítico de arte Pierre Restany (1930-2003).

Um dos artistas mais importantes do Nouveau Réalisme foi Arman (1928-2005), um pintor e escultor franco-americano. As personagens principais das suas obras são objectos pelos quais ele procurava no lixo. Usava o que encontrava como forma de mostrar a sociedade em que vivia, mas também para representar alguns dos seus amigos e familiares. O lixo que deixámos para trás mostra a pessoa e a sociedade que somos e desta forma Arman reformulou aquilo que conhecemos como retratos.

Home Sweet Home, 1960

Arman, Home Sweet Home, máscaras de gás numa caixa, 1960, colecção privada. Fonte: Garrus Art.

As Acumulações são os trabalhos mais conhecidos do artista, que tanto os realizava em caixa de madeira, de acrílico ou por simplesmente agrupando os objectos entre si. Ele não só queria representar a sociedade, mas também mostrar como um objecto pode ser produzido a uma escala massiva.

Em Home Sweet Home vemos uma Acumulação de máscaras de gás, um dos seus primeiros trabalhos e que nos mostra o medo de perigo imediato que se vivia no século XX. Hoje em dia esta obra certamente conteria máscaras descartáveis e de pano ao invés de máscaras de gás, o que por si só já é um contraste entre sociedades. Arman fez 3 caixas exactamente iguais a esta, o que reforça ainda mais o quanto estas máscaras foram produzidas e mais tarde descartadas.

Com este tipo de trabalho, Arman assemelha-se a um arqueólogo que encontra vestígios de uma era. Os objectos mostram-nos o desejo natural que as pessoas têm por acumular e coleccionar. Porém, o espectador da obra tem sempre um sentido de familiaridade com os objectos, portanto o pensamento de “wow, como é possível que tantas coisas iguais sejam deitadas fora” é sempre acompanhado de uma conexão física e psicológica.

Premier Portrait-Robot d’Yves Klein, 1960

Arman, Premier Portrait-Robot d’Yves Klein, vários objectos numa caixa, 1960. Fonte: Pinterest.

Outra obra característica de Arman é conhecida como Poubelles (francês para caixote do lixo). Nestes trabalhos podemos ver o retrato de alguém através dos objectos que este tinha, lá está, no caixote do lixo. Estas obras são consideradas os retratos do século XX.

As primeiras Poubelles consistiam em objectos que a pessoa retratada dava a Arman que com eles faria uma composição numa caixa. Mais tarde decidiu que seria ele próprio a recolher os elementos, alimentando as suas obras a partir do que as pessoas tinham no lixo de casa.

Na imagem acima podem ver Yves Klien’s Robot Portrait (modo como Arman denominava estas obras). Há muito azul (característico do trabalho de Klein), algumas roupas, livros, fotografias e até algumas páginas de jornal.

Petits Déchets Bourgeois, 1959

Arman, Petits Déchets Bourgeois, lixo numa caixa, 1959. Fonte: Pinterest.

Embora esses sejam os seus Poubelles mais conhecidos, Arman foi além de dedicar este tipo de trabalho aos seus amigos e família. Na altura a viver em Nova Iorque, o artista decidiu fazer o mesmo com as famílias americanas, recolhendo, mais uma vez, o seu lixo.

Em Petits Déchets Bourgeois apresenta-nos o lixo de uma família de classe média, o qual Arman recolheu directamente do contentor de lixo localizado fora da casa, uma forma que lhe permitia ficar a conhecer a família em questão. Na maior parte dos casos, o que vemos são restos de comida e pacotes de alimentos, chá e lâmpadas que, mais uma vez, são organizados numa caixa e sem espaços em branco.

Le Plein, 1960

Arman, Le Plein, exposição, 1960. Fonte: Pinterest.

Arman, Le Plein (Full Up), lata de atum, 1960, Museum of Modern Art, New York. Fonte: Gilden’s Art Gallery.

Em Outubro de 1960, Arman expôs na Iris Clert Gallery, em Paris, e também aqui decidiu usar o lixo como peça principal.

A galeria ficou coberta de lixo do chão ao tecto e por isso a única opção para ver a exposição era do lado de fora, através das janelas. Isto foi o oposto ao que Yves Klein fez um tempo antes no mesmo espaço. Klein deixou a galeria completamente vazia e apresentou-a assim como obra. Arman e Klein eram bons amigos e foi assim, após a exposição do segundo, que o primeiro conseguiu expor nesta galeria.

Klein considerou que este reverso da sua ideia era algo necessário de acontecer:

Após o meu próprio vazio vem a lotação esgotada de Arman. Faltava à memória universal da arte a sua mumificação conclusiva da quantificação.

Com esta exposição, Arman queria mostrar como a sociedade no geral produzia tantas coisas desnecessárias que, quase obrigatoriamente, se tornariam lixo. Estes objectos acabavam por preencher o espaço pertencente à Humanidade, ocupando as casas, as ruas e, neste caso, até o mundo da Arte. A galeria estava cheia de lixo desta produção em massa que tomou conta não só do lugar pertencente à Arte, mas também ao espaço público.

Os convites para este evento foram enviados em latas de atum, como podem ver acima, que continham a informação na sua parte exterior e algum lixo no interior. Só era necessário abri-la, tal como fazem quando querem comer atum.

Long Term Parking, 1982

Arman, Long Term Parking, cimento e carros, 1982, Cartier Museum, Chateau du Montcel. Fonte: Earthly Mission.

Arman é também conhecido pelo seu contributo para a arte pública, fazendo obras em grande escala, cada uma delas com objectos que se repetem múltiplas vezes.

Long Term Parking não é excepção. Uma obra que nasce envolta em controvérsia, a partir do momento em que a população da área percebeu que a mesma teria uma estadia permanente no local em questão. Nesta peça podemos ver 59 carros, a maior parte deles de companhias francesas, aglomerados num bloco de cimento.

Podem pensar que este foi um recolher aleatório de objectos, mas, na verdade, foi Arman que escolheu cada um destes veículos. Diz-se até que houve uma vez que passou algum tempo a ver carros a passar, enquanto tomava nota das marcas que via. Mais tarde, então, iria procurar esses mesmos modelos num ferro-velho para os utilizar nesta obra.

Uma das características principais de Long Term Parking é o quão fortes as cores dos carros parecem em comparação com o cimento. Todos os carros foram restaurados e pintados, de modo a chamarem a atenção das pessoas para a peça. Apesar desse restauro, todos os carros foram privados da sua função principal e assumem aqui uma posição estática, porque, claro, não podem ir a lado algum.

Após 39 anos, é possível verificar alguma degradação, principalmente nos carros que vão perdendo a cor e algumas peças. Mas isto é exactamente aquilo que Arman queria, que os carros caiam completamente para que o seu espaço negativo no cimento se torne visível.

Under the Volcano, 1992

Arman, Under the Volcano, bicicleta cortada, tinta acrílica e pincéis s/tela, 1992. Fonte: Day of the Artist.

Algumas das últimas obras de Arman contêm tinta, principalmente acrílica, algo que nunca usou nos seus trabalhos iniciais, como é o caso dos que vimos até agora.

É claro que os objectos continuam presentes e este trabalho é parte de uma série que Arman fez com bicicletas. Ao misturar a tinta com os pincéis e as bicicletas, o artista quebra a barreira que existe entre pintura e escultura.

A bicicleta está cortada longitudinalmente, perdendo assim a sua forma tridimensional, e coberta em tinta o que lhe permite a sua imersão na tela. É possível reparar que os pincéis são o toque final da obra, pois são eles que espalham a tinta, sendo necessários até essa parte estar concluída. De alguns deles saiu apenas uma pincelada, enquanto os outros trabalharam em formas circulares. Uns convergem nas rodas da bicicleta, enaltecendo a sua forma com uma espécie de ritmo, e os restantes encenam o acto de pintar. A paleta cromática é pequena, com não mais do que 5 cores.

Todos os trabalhos desta série têm títulos que nos levam para a inspiração que levou Arman até eles, algo que também tem ligação com as cores escolhidas pelo artista. A bicicleta ganha um novo significado ao ser cortada e engolida por tinta acrílica – um objecto mundano perde o seu contexto original e vê-o reapropriado de outra forma para algo completamente diferente.

Arman realizou centenas de obras durante a sua vida e estes são apenas alguns exemplos dos vários caminhos que experimentou. A ideia por trás de cada um desses trabalhos é sempre a representação do consumismo e as personagens principais os objectos que as pessoas que pertencem a essa sociedade de consumo foram deixando para trás. O que vai alterando é apenas a forma de o representar.

Originalmente publicado em https://www.dailyartmagazine.com/arman-works-you-need-to-know/

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