Dia Mundial da Dança em 10 Obras Portuguesas

Hoje, dia 29 de Abril, é o Dia Mundial da Dança. Esta data, estipulada pela UNESCO em 1982, foi escolhida por ser o dia de nascimento de Jean-Georges Noverre (1727-1810), um dos nomes de destaque mundial na Dança.

Para celebrar esta data, nada melhor do que bailar por algumas obras portuguesas que nos levam para esse mundo dos movimentos. Seja danças mais formais, mais descontraídas ou de representação de costumes, aqui vos deixo 10 obras para conhecerem.

1. Leonel Marques Pereira, Festa na Aldeia, óleo sobre madeira, c. 1870-75. Museu Nacional de Arte Contemporânea.

Fonte: MNAC.

A dança nunca foi só dos palcos. É algo que está presente nas tradições e vivências de muitos países e Portugal não foge a isso. Leonel Marques Pereira (1828-1892) é um dos artistas que segue o apelo de Almeida Garrett (1799-1854) para que se registe os costumes nacionais. Mestre numa recolha visual documental que revela o seu rigor enquanto desenhador.

Esta obra leva-nos até a um momento de pausa no trabalho, no Ribatejo. Em primeiro plano vemos os instrumentos agrícolas deixados ao abandono que abrem caminho para um grupo de trabalhadores, representados ao centro, que aproveita este momento para dançar o Vira. Do lado esquerdo, vemos os músicas que dão o ritmo à dança e, do lado direito, duas camponesas que aplaudem. Os trajes são os típicos da região, coloridos com cores vivas que se destacam do fundo natural.

2. Columbano Bordalo Pinheiro, Convite à Valsa, óleo sobre cartão, 1880-82. Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves.

Fonte: Google Arts & Culture.

Pioneiro do Realismo em Portugal, Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929) dedica-se essencialmente ao retratos de familiares, amigos e, mais tarde, de intelectuais portugueses. Dá preferência a pinturas em manchas e tonalidades claras, que escurece com o virar do século.

Nesta obra estamos já no espaço de uma dança mais formal que, realizada da forma correcta, carece de um convite. Uma pintura de interior, também característica da obra do pintor, e que representa um momento, à época, mais vivido no seio da uma classe social alta. Os vestidos claros contrastam com o preto dos smokings. Há alguma noção de volume e movimento nas roupas, mas os restantes elementos decorativos são-nos apresentados de forma pontual, sem roubar a atenção da cena principal. Os gestos têm mais destaque do que as feições, que se apresentam com o minímo de detalhe.

3. José Pacheko, Sem Título, sanguínea sobre cartão, 1913. Fundação Calouste Gulbenkian-Centro de Arte Moderna.

Fonte: FCG-CAM.

Arquitecto, artista gráfico, pintor e cenógrafo, não é de admirar que o caminho de José Pacheko (1885-1934) passasse pelo mundo da Dança, algo que se viria a reflectir em algumas das suas obras.

Nestes desenhos, provavelmente feitos durante a sua segunda visita a Paris, vemos a bailarina Isadora Duncan (1877-1927), pioneira da dança contemporânea. Podem ter sido esboçados durante um espectáculo (sendo que foram encontrados nos pertences de um artista juntamente com um programa), durante um dia aberto aos artistas na escola de Duncan ou até através de fotografias em jornais. Não há a certeza absoluta se a representada é mesmo a bailarina americana ou alguém que fizesse parte do seu conjunto, mas as vestes de inspiração grega são um elemento muito característico das suas coreografias, daí a associação a ela. São três desenhos nos quais o movimento nos é transmitido através dos braços e das pernas que são representados de forma mais longa do que é anatomicamente possível. Em dois deles vemos as mãos quase só delineadas que se levam para um lado de desfoque, fazendo parte da continuação desse movimento.

4 Carlos Bonvalot, Os Faunos, guache sobre papel, 1920. Museu Grão Vasco.

Fonte: Wikimedia Commons.

Para além da suas obras realistas da vida quotidiana de Cascais, Carlos Bonvalot (1893-1934) é também conhecido pelos seus retratos de natureza intimista, algo que podemos observar nesta obra.

Os Faunos leva-nos a uma dança ritual da mitologia romana, aqui representada em forma de friso. É um alusão ao Deus romano Fauno (protector dos campos dos rebanhos e dos pastores), que aqui se apresenta à esquerda, virado de frente para um bode. Atrás do animal, estão duas jovens que saltam e dançam. Uma delas segura nos fios amarrados ao bode e a outra tem uma grinalda de flores nos braços. Os tons beges e acastanhados das figuras são iluminados pelos amarelos e violetas que compõem o fundo.

5. Eduardo Malta, Estudo de Bailarina, óleo sobre tela, 1949. Museu José Malhoa.

Fonte: MatrizNet.

Conhecido pela preferência de pintura de retrato e por se manter na estética académica durante a explosão modernista, Eduardo Malta (1900-1967) mostrou algum interesse pela representação de bailarinas.

Neste Estudo de Bailarina, vemos o que poderá ser uma aula de Ballet com foco numa figura feminina que nos aparece em primeiro plano e depois também em segundo plano ao ser reflectida no espelho. Esta bailarina está em posição com o pé direito a três quartos, com a cabeça ligeiramente levantada e virada sobre o ombro esquerdo. Os braços colocados atrás das costas, fundem-se nas mãos e prolongam-se pela tal perna esticada que culmina com o pé em ponta. O fundo em tom esverdeado dá destaque à figura em tons bege e cinza.

6. Delfim Maya, Bailarina, folha de ferro sobre base de mármore, século XX. Museu José Malhoa.

Fonte: MatrizNet.

O exílio de Delfim Maya (1886-1978), em Espanha, deu-lhe as ferramentas necessárias para se tornar um pioneiro da Arte Modernista em Portugal. Indo onde mais ninguém foi, aproveitou a sua independência do poder político para criar algo único.

É esta liberdade que imprime nas suas esculturas em chapa industrial marcadas pelo movimento, seja em temas animais (o que mais trabalhou) ou em temas relativos a figuras humanas, como acontece com esta obra. Nesta peça, vemos uma figura feminina com um braço esticado, enquanto o seu corpo inclina ligeiramente para o lado oposto. Os pés afastados e as camadas das vestes mostram-nos esse tal movimento, revelando um passo de dança em execução.

7. Maria Adelaide Lima Cruz, Desenho de Francis, lápis sobre cartolina, século XX. Museu Nacional do Teatro.

Fonte: MatrizNet.

Para além de pintora e ilustradora, Maria Adelaide Lima Cruz (1908-1985) foi também cenógrafa e figurinista, algo que lhe deu acesso a muitos momentos entre danças e bailarinos. Trabalhou para bailado, ópera e comédia, mas foi no Teatro de Revista que atingiu o seu ponto alto, na década de 1930.

Neste desenho, vemos o bailarino Francis Graça (1902-1980) numa pose de dança. Para além de o ver dançar, Lima Cruz teve também a oportunidade de criar alguns figurinos para as peças em que o também coreógrafo e actor entrou. Interessado na dança de temas portugueses e no folclore nacional, Francis Graça foi um dos responsáveis pela renovação do bailado e teatro musical em Portugal.

8. Paula Rego, série Avestruzes Dançarinas, óleo sobre tela, 1994-1996.

Fonte: Sala 17 e Maxima.

Tendo já assumido a influência que as bailarinas de Edgar Degas (1834-1917) tiveram nela, não é de estranhar que Paula Rego (n. 1935) tenha algumas obras dedicadas ao tema da Dança.

Nesta série das Avestruzes Dançarinas, vemos a leveza normalmente associada à Dança tornar-se algo paradoxal, devido à realidade que a artista dá aos corpos representados. Tal como nas obras Lucian Freud (1922-2011) ou Francis Bacon (1909-1992), cada corpo ganha a dimensão de uma instância dramática; são rudes e imperfeitos de um modo que nos permite relacionar com eles. É o lado feminista de Paula Rego a vir ao de cima e a mostra-nos que as dançarinas, que aqui nunca olham na nossa direcção, não têm que ter os corpos esguios que estamos habituados a ver. Além disso, é um auto-retrato na medida em que a artista produz estas obras numa fase já avançada e a seguir à Mulher-Cão, que anda perdida e precisa de orientação de um dono, temos as avestruzes que são mais maduras e fazem o que podem para sobreviver.

9. Bela Silva, Tango, faiança, 2002-2003. Museu Nacional do Azulejo.

Fonte: MatrizNet.

Todos nós temos aqueles momentos de libertação em casa através da dança. Seja com música alta ou nos fones, seja ao limpar ou só porque sim, já todos o fizemos e às vezes chamamos os nossos animais de estimação para nos acompanharem.

Esta obra de Bela Silva (n. 1966) mostra-nos quase isso. Uma faiança onde vemos um passo de dança entre uma figura feminina, que veste um fato de banho às bolas, e um gato grande e laranja. Um desenho divertido que nos mostra como a dança tem o seu quê de leveza e de descontracção, havendo espaço para algo não tão sério ou rígido.

10. Helena de Medeiros, 3 Dancers, tinta da China sobre tela, 2018. Saatchi Art.

Fonte: Saatchi Art.

Conhecida pelos figurinos que criou para vários espectáculos de bailado contemporâneo em todo o mundo, desde a década de 1990 que Helena de Medeiros (n. década de 1960) se dedica também a exposições individuais de Pintura.

Esta obra está ligada ao projecto que desenvolveu para a peça Four Seasons, em 2018, sendo possível ter a sensação das várias estações através do olhar. O Inverno, por exemplo, é perceptível através das formas tradicionais que assumem o lugar do gelo, enquanto que o Verão se traduz nas cores do pôr-do-sol. Influenciada pelas características do trabalho do compositor Philip Glass (n. 1937), vemos elementos minimalistas e alguns exaustivamente repetidos, ao mesmo tempo que esconde as faces que constroem a obra, algo já muito normal na sua obra.

Seja num bailado, num teatro musical, numa passo contemporâneo ou numa descontracção em casa, a Dança faz parte das nossas vidas, quer sejamos intervenientes ou meros espectadores. Um Arte que passa barreiras geográficas e geracionais e que nos permite aprender histórias específicas de uma peça ou a História de um país ou região, multifacetando-se pelos mais diversos estilos.

Já dançaram hoje?

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