D. Carlos de Bragança, o Rei-Pintor

Todos conhecem D. Carlos de Bragança como sendo o penúltimo rei de Portugal; aquele assassinado no regicídio, juntamente com o seu filho e herdeiro ao trono, Luís Filipe, mas há muito mais para além disso. Na verdade, D. Carlos dedicava-se a várias áreas como a Agricultura, a Caça, a Equitação e até a Oceanografia, esta que o levava em expedições pela Costa Portuguesa.

Este interesse pelo mundo marítimo leva-nos a um outro: a Arte. Embora se tenha também dedicado à Cerâmica e à Fotografia (sendo responsável pelo portefólio da Família Real), a Pintura foi a expressão artística em que mais apostou e se destacou. D. Carlos pintava num estilo Naturalista, característico da época, e retratava sobretudo paisagens que envolviam o mar.
Hoje viajamos a bordo do D. Amélia, o iate real, para conhecer a obra deste que foi um Rei-Pintor.

D. Carlos a bordo do Iate Real, 1900. Fonte: Pinterest.

Sendo que o Eu-Pintor de D. Carlos (Lisboa, 1863 – Lisboa, 1908) se relaciona profundamente com o Eu-Oceanógrafo, deixemos aqui um pouco de contexto.
A paixão do Rei pela descoberta dos oceanos deve-se sobretudo a Alberto I, Príncipe do Mónaco (1848-1922), sendo que se conheceram aquando a passagem deste por Lisboa. Alberto I fascinou o então príncipe português (na altura com 15 anos) ao mostrar o seu barco e ao contar as suas histórias sobre as campanhas oceanográficas em que participava. Isto motivou D. Carlos a querer dar a conhecer o que acontecia no oceano, tendo em mente desmistificar a ideia de que o fundo do mar estava vazio de vida animal e vegetal, com uma vontade profunda de documentar o máximo possível.

Só numa nota de curiosidade, desta relação de amizade entre os dois príncipes nasceu o Aquário Vasco da Gama (não confundir com o Oceanário), inaugurado em 1898, com a intenção de desempenhar um papel semelhante ao Museu Oceanográfico do Mónaco. Este Aquário, gerido pela Marinha Portuguesa, continua em funcionamento nos dias de hoje e tem uma componente de Museu onde podemos ver algumas espécies capturadas pelo próprio D. Carlos, bem como alguns livros da sua biblioteca pessoal.

Uma destas espécies é a que denominou de Tubarão-Demónio, que para além de capturar também desenhou. Mais tarde, soube-se que este animal tinha já aparecido no Oceano Pacífico, mas esta foi a sua primeira aparição no Atlântico, não deixando de ser um marco a assinalar.

A bordo do D. Amélia, foram várias as expedições que D. Carlos realizou pela Costa Portuguesa, sempre acompanhado de Albert Girard (1860-1914), um engenheiro civil de formação, naturalista de paixão e que se tornou o braço direito do Rei. Muitas destas expedições resultaram em exposições organizadas pelo próprio Rei, nas quais expunha material que recolhia e também instrumentos utilizados em alto-mar e na pesca.

Rei D. Carlos, Albert Girard e o Conde de Mafra a escolher exemplares a bordo do Amelia II, c. 1897-98. Fonte: Wilder.

D. Carlos de Bragança, Peixe capturado em Sesimbra, aguarela sobre papel, 1904. Fonte: Museu do Mar.

D. Carlos de Bragança, Rei-dos-Arenques, pastel sobre papel, 1899, Biblioteca do Museu Oceanográfico D. Carlos I.
Fonte: Wilder.

Debruçando-nos agora na sua actividade artística, D. Carlos era, como já referido, um Naturalista. As suas pinturas, sobretudo aguarelas e pastéis, derivavam de elementos da Natureza: pássaros (a ornitologia era outra das suas paixões, tendo inclusive publicado alguns catálogos ilustrados), paisagens rurais e, claro está, cenas marítimas.

Pensa-se que os seus primeiros trabalhos terão sido N’um leque. – Paysagem, Typo de ovarina e Fantasia…, todas assinadas e datadas de 1886, feitos à pena e publicados no número 20 de Fevereiro de 1887 d’A Ilustração, publicação editada em Paris.

Começou por assinar as suas obras, incluindo as Fotografias, com “Carlos Fernando” e mais tarde, já aquando chefe maior da Monarquia, passou a assinar simplesmente “Carlos”. Na maior parte delas é possível ver uma inscrição alusiva ao local ou ao tema representado, característica que viria a tornar-se a forma de dar título aos trabalhos.

D. Carlos de Bragança, Cinclus Aquaticus in Catálogo Ilustrado das Aves de Portugal, c. 1903-1907. Fonte: Livraria Trindade.

D. Carlos de Bragança, O Rippert da Família, aguarela sobre papel, 1886. Palácio Nacional da Ajuda. Fonte: MatrizNet.

D. Carlos de Bragança, Sobreiro, pastel sobre cartão, 1905. Fundação da Casa de Bragança. Fonte: Wikipédia.

D. Carlos de Bragança, Rainha D. Maria Pia, fotografia, 1894. Palácio Nacional da Ajuda. Fonte: MatrizNet.

As suas obras são de uma sensibilidade quase palpável, havendo uma influência notória do pintor e seu professor Enrique Casanova (1850-1913). É também de mencionar a influência que o seu avô, D. Fernando II, de cognome Rei-Artista, teve na sua paixão pelas Artes, tendo, muito provavelmente, sido o seu primeiro mestre. De sua mãe, D. Maria Pia, são também conhecidos alguns desenhos de índole Naturalista.

Seja em momentos tenebrosos e escuros ou em dias de calma e de sol em pleno, a captação da luz nas obras de D. Carlos assume-se como algo poético, enquanto que os objectos/elementos principais nos assaltam com uma materialidade sensível. Este jogo de luz contracena com o uso de cores intensas, havendo uma chamada para um estilo tardio da francesa Escola de Barbizon.
Sendo que a maior parte das suas obras são de tema marítimo (incomum ma pintura portuguesa) ou com elementos de água, podemos ver um conseguir de uma quase transparência ao representar este elemento.

Diz-nos Monteiro Ramalho, um crítico da época:

Então, medita em paz sobre o turbilhão de vidas innumeraveis que se agitam nas profundidades do oceano, e sente a commovida ambição de transmitir aos outros as impressões colhidas nas suas curiosas explorações maritimas, para se enfileirar na ala dos pesquizadores graphicos dos mysterios do globo. Ou, entretido pela inspiração esthetica, maneja laboriosamente os esfuminhos de côres, e traça alguns dos seus deliciosos desenhos a pastel, em cujas tonalidades intensas se reproduzem e fixam, com fulgurantes reflexos da magia eterna que acompanha os espectaculos da natureza, effeitos luminosos de vagas em cachão e d’aureolados poentes, obervados com amor e executados com brilho, ou scenas movimentadas de pescarias a que não falta o rude cunho dramatico das fainas do mar.

D. Carlos de Bragança, Farol da Guia, aguarela sobre papel, 1900. Colecção particular. Fonte: Museu do Mar.

D. Carlos de Bragança, Baía de Cascais, aguarela sobre papel, 1885. MNAC. Fonte: MNAC.

D. Carlos de Bragança, Charneca dos Almos (Alentejo), pastel sobre papel, 1898. MNAC. Fonte: MNAC.

Outra das grandes paixões do monarca, ainda que relacionada com o mar, eram as embarcações marítimas. Este tema aparece recorrentemente nas suas obras, apresentando uma vasta selecção, desde barcos à vela, navios a vapor, navios de guerra, entre outros. Daqui surgiram alguns álbuns, a que talvez hoje possamos chamar diários gráficos, de aguarelas e desenhos.

Os barcos aparecem de igual modo na temática da pesca que D. Carlos também retratou em obras que nos mostram esta actividade, os pescadores e as varinas.

D. Carlos de Bragança, Lusitana, vapor da comissão, Cascais (esquerda), Depois da largada, Cascais (direita), lápis sobre papel, 1885. MNAC. Fonte: MatrizNet e MatrizNet.

D. Carlos de Bragança, Aura, ganhando o prémio de El-Rei, Cascais (esquerda), Regata, Cascais (direita), lápis sobre papel, 1885. MNAC. Fonte: MatrizNet e MatrizNet.

Embora em escala menor, a figura humana assume também um papel nas obras de D. Carlos. Seja algo representativo de uma acção, como os pescadores já mencionados, para enquadrar as temáticas marinhas ou até mesmo assumindo uma posição de protagonista, aparecem sempre com ligação ao mar. Estas figuras são apresentadas de forma fidedigna, mas muitas vezes assumem um tom irónico e até sensual.

A sua ligação a Cascais, local onde a Família Real estanciava, era física e emocional e por isso esta vila é a protagonista de alguns álbuns pelos quais o Rei se fazia acompanhar e onde fazia registos de forma rápida e de menores dimensões, mas ainda assim muito bem conseguidos. Estes álbuns pertencem à colecção do Museu Nacional de Arte Contemporânea-Museu do Chiado e, embora dedicados essencialmente a Cascais enquanto local, o mar arranja sempre uma forma de aparecer como pano de fundo.

D. Carlos de Bragança, Cascais, São Martim, aguarela sobre papel, 1885. MNAC. Fonte: MatrizNet.

D. Carlos de Bragança, Praia de Cascais, aguarela sobre papel, 1906. Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves. Fonte: MatrizNet.

D. Carlos de Bragança, Cascais, aguarela sobre papel colado em folha de álbum, 1884. MNAC. Fonte: MNAC.

Algumas das suas obras valeram-lhe prémios internacionais e foram várias as vezes que concorreu ao Grémio Artístico português, tendo sido galardoado com medalhas de honra. Estão espalhadas por vários museus e monumentos, como o Palácio Nacional da Ajuda, a Casa-Museu Teixeira Lopes, a Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, o Museu Nacional de Arte Contemporânea-Museu do Chiado, entre outros. É ainda de referir o Museu do Mar Rei D. Carlos, em Cascais, com uma sala dedicada ao Rei e à sua ligação com a Oceanografia.
É muito provável que já tenham passado por uma das suas obras sem se aperceberem.

Em 1905, foi nomeado como sócio de mérito da Academia Portuense de Belas-Artes, mostrando a importância que revelou com as suas obras e a sua ligação a esta sociedade artística da época, tendo privado com artistas como José Malhoa, António Teixeira Lopes, Silva Porto, Carlos Reis, Columbano Bordalo Pinheiro, entre outros.

D. Carlos de Bragança, Bussaco (ao centro, moldura com coroa), aguarela sobre papel, 1905. Casa-Museu Teixeira Lopes.

Na época, muitos foram os que começaram por dizer, de forma pejorativa, que o viam como estando a tentar alcançar uma espécie de representação nacional demasiado portuguesa, mas com o passar dos anos e com a evolução do seu portefólio artístico souberam reconhecer o seu talento. Havia, como nos diz Raquel Henriques da Silva, um “impasse de um gosto que não era só dos pintores mas de toda uma sociedade que se convertera aos valores tranquilos de um naturalismo nacionalizado.”

O jornalista Fialho de Almeida (1857-1911) foi um desses que se viu numa mudança de perspectiva sobre a obra de D. Carlos, deixando de percepcionar o “pintar em português” como algo de menor valor:

No grupo novo, o lugar de honra pertence ao rei D. Carlos, cujos pastéis passam de prenda à categoria de verdadeiro trabalho de arte. O curioso acabou-se, e agora é necessário apontá-lo entre os pouquíssimos que, neste país de costa, verdadeiramente sentem a marinha e entre os raros que, na exposição [Grémio Artístico, 1892], se esforçam por pintar em português.

Neste artigo, deixámos para trás como foi D. Carlos de Bragança enquanto Rei, tal e qual como fizeram esses seus opositores e críticos que conseguiram ver o seu dom de pintor para além de tudo o resto, inserindo-o no panorama artístico português com o merecido lugar de destaque, não esquecendo todo o trabalho que também desenvolveu na área da Oceanografia e para a qual os seus dotes como Artista contribuíram de forma prolífica.

4 pensamentos sobre “D. Carlos de Bragança, o Rei-Pintor

  1. Já referi anteriormente, mas adoro as pinturas mais relacionadas com a Natureza e, consequentemente, animais!
    Não fazia a mínima ideia da história por trás da abertura do Aquário Vasco da Gama, super interessante!
    Adorei todas as pinturas, mas a “Charneca dos Almos” é incrível, parece mais uma fotografia do que uma pintura, de tão perfeita..

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