Museu Monográfico de Conímbriga | Condeixa-a-Nova

São muitos os vestígios da passagem dos romanos pelo território português. As ruínas de Conímbriga, classificadas como Monumento Nacional em 1910, são um dos ex-libris desses tempos e, tendo o Museu Monográfico reaberto no Dia Internacional dos Museus, é uma boa altura para lhes dedicar um artigo.

Casa dos Repuxos.

De forma muito breve, a cidade de Conímbriga teve origem num castro celta da Tribo dos Conni, nos finais da Idade de Ferro, sendo ocupada pelos romanos a partir de 139 a.C. É no século II d.C., sob a governação do Imperador Augusto, que são construídas as Termas Públicas e o Fórum, sendo que podemos considerar esta a sua época de maior esplendor.

Algo que distingue Conímbriga das restantes cidades romanas conhecidas na Península Ibérica é o facto de os romanos terem utilizado a malha urbana já existente aquando a sua chegada. A cidade adaptou-se ao modo romano, à sua língua, forma de vestir, mas manteve a sua essência indígena, sendo esta a população mais notória em comparação com a baixa percentagem de colonos e administradores romanos. No final do século I, seriam cerca de cinco mil os habitantes da cidade.

Foi no espaço de três séculos que Conímbriga viu o seu declínio aumentar, após um assalto à cidade pelos suevos, em 468. No século IV tinha já sido erguida uma muralha defensiva, que acabou por se revelar não eficaz na protecção dos habitantes da cidade, que a foram desertificando.

Insulae do vaso fálico.

A título de curiosidade, um bom indício de que a cidade estaria a caminho da degradação nessa época é o facto de se encontrarem muitas lixeiras que remontam ao século IX. Já nos séculos I e II a história é diferente, sendo que Conímbriga teria um bom sistema para evacuação de resíduos, não tendo sido encontradas lixeiras desses tempos.

Ao ser ocupada pelos romanos, Conímbriga torna-se a próspera capital da província da Lusitânia, mas embora seja maioritariamente referida como cidade romana, essa época dura apenas cinco dos vinte séculos que viram o emergir e o abandono desta cidade, tendo existido sete ocupações distintas do espaço.

O momento de abandono foi o que mais discórdia causou, com os especialistas a oscilar entre o ano 711 e a Idade Média. Em 1990, porém, alguns objectos identificados como romanos foram reavaliados, percebendo-se que são afinal medievais. À National Geographic, José Ruivo, o anterior director do Museu Monográfico de Conímbriga, disse: Hoje é seguro falar-se de uma Conímbriga suévico-visigótica (…) só as convulsões entre os cristão e muçulmanos nos séculos IX e X (…) terá ditado o abandono.

Casa de Cantaber.

São muitas as datas que se prendem com as descobertas e escavações das ruínas de Conímbriga, informação essa que podemos organizar da seguinte forma:

  • enquanto ruína, este espaço é conhecido desde o século XVI, quando, em 1561, o viajante Gaspar Barreiros se refere ao local no livro Chorogragia, fazendo ainda um pedido explícito ao rei para que reunisse as inscrições romanas que se encontravam dispersas na zona;
  • em 1839, Alexandre Herculano menciona Conímbriga na revista Panorama, referindo as ruínas como gastas algo que acontece também pelo avançar da actividade agrícola no local, com os sachos a embater ocasionalmente em tijolos, mosaicos ou pedras;
  • o estudo do local foi iniciado pelo Instituto de Coimbra, em 1873;
  • em 1899, a Rainha D. Amélia, persuadida pelo bispo de Coimbra Dom Manuel Correia de Bastos Pina, concede um subsídio que permite a realização das primeiras sondagens de vulto, incluindo os primeiros levantamentos de mosaicos;
  • as escavações iniciam-se em 1929 e no ano seguinte o Estado adquire os primeiro terrenos, após a realização do XI Congresso Internacional de Antropologia e Pré-História, que teve lugar em Coimbra e que levou a uma enorme vontade de mostrar que Portugal também poderia ter algo ao nível de Pompeia;
  • entre as décadas de 1940 e 1950, as ruínas sofrem obras de reconstituição e consolidação;
  • na segunda metade do século XX, a vontade de ver, recuperar e coleccionar o antigo intensifica-se e dão-se mais algumas campanhas que permitem recuperar vários artefactos;
  • o ano de 1952 marca o início do restauro dos mosaicos por uma equipa italiana que visitou o local a convite do director do Museu Nacional de Arqueologia;
  • em 1962, é criado o Museu Monográfico de Conímbriga.

As escavações nem sempre decorreram da melhor forma, sendo que a vontade de descobrir coisas novas era maior à de implementar um método de trabalho. Há vários objectos pertencentes à colecção do Museu dos quais só se sabe que foram encontrados no local, não tendo havido uma preocupação de registo na altura. As Termas do Sul são um bom exemplo disso, sendo que a grande preocupação aquando a sua descoberta e escavação foi a de encontrar e recolher o máximo de elementos possível, deixando cair a realização de relatórios.

Esta tendência altera-se com as escavações que decorrem entre 1963 e 1971, marcadas pela obsessão do registo, pela conservação dos elementos encontrados e pela qualidade e cuidado da publicação. Multiplica-se a área conhecida da cidade, sendo possível identificar os já mencionados elementos que simbolizam o seu apogeu. Conímbriga faz agora parte do mapa europeu das cidades romanas.

Termas do Sul.

Termas do Sul.

O Museu Monográfico de Conímbriga pode ser encarado como um Museu a céu aberto. A sua principal função é a de manter este espaço, promovendo a sua divulgação e exposição ao público, não descurando a investigação arqueológica. Aqui podem ver os elementos encontrados no local, alguns expostos in situ, como as ruínas e os mosaicos em específico; ou num espaço interior, onde é possível ver alguns objectos encontrados durante as escavações, com foco no quotidiano, no comércio, na religião, nas crenças e até na presença suévico-visigótica. Esta exposição permanente no interior é de visita obrigatória para uma melhor compreensão de como era a cidade e a sua população.

Passando para o exterior, as Termas da Muralha são organizadas em dois sectores distintos, o que pode indicar uma utilização simultânea por homens e mulheres. Mostra preocupação artística na decoração dos espaços interiores, algo característico da sua localização de uma zona rica da cidade. A construção da muralha do Baixo-Império foi o que ditou o seu abandono e consecutiva degradação.

Situado na zona norte, o Forum era o centro de Conímbriga, tal como é de qualquer cidade romana. Aqui temos um forum flaviano, que substitui um monumento anterior da época de Augusto e ampliado na era claudiana. Desses primeiros tempos, são ainda visíveis os restos das lojas a oeste, as fundações de uma basílica a leste e os alicerces da cripta principal na zona norte. Foi possível proceder à reconstrução de alguns dos seus elementos, sendo a entrada o menos conhecido até então.

Termas da Muralha.

Termas da Muralha.

Forum.

É, porém, na arquitectura doméstica que reside o maior esplendor desta cidade. Entre a insulae (residências modestas) e as domus (residências para famílias abastadas), que se foram renovando entre o final do século I e o início do século III, são elas que ocupam a maior parte deste espaço.

A Casa dos Repuxos é a que mais se distingue, sendo que preserva a estrutura hidráulica original que acciona mais de 500 repuxos para um bonito e calmo espectáculo aquático. É ainda rodeada por um jardim e pelos habituais mosaicos romanos figurativos com cenas animais, das estações do ano, passagens mitológicas, entre outras.
Esta casa foi descoberta quando se tentava criar um espaço para estacionamento. Foi aqui que Virgílio Correia, coordenador dos trabalhos entre 1930 e 1944, decidiu que os mosaicos deveriam ser conservados in situ em vez de serem transferidos.

Mas é a Casa Cantaber que ocupa o primeiro lugar do pódio como maior edifício privado de Conímbriga, contendo cinco peristilos (galeria formada por colunas isoladas, à volta de um edifício ou à frente dele). É ainda o único local de cunho privado na cidade onde se encontraram termas.
Cantaber foi um importante aristocrata do século V e esta casa a ele atribuída mostra o quão bem situado estava na hierarquia social de então, tendo uma casa com cerca de quatro dezenas de compartimentos e com um pórtico monumental aberto para uma praça.

Casa dos Repuxos.

Mosaico da Casa dos Repuxos.

Casa Cantaber.

Termas da Casa Cantaber.

A Casa dos Esqueletos é mais um exemplo de uma residência privada de prestígio. Tem este nome, pois a sua última utilização acontece quando é ocupada para cemitério tardo-romano e medieval, o que fez com que se descobrissem alguns esqueletos aquando as escavações. Antes de espaço para o repouso dos mortos, albergou a muralha construída entre os finais do século III e início do século IV, algo que obrigou à demolição da casa em si.

Também a Casa da Cruz Suástica pertenceu a uma família relativamente rica e traz-nos este elemento que existe há vários séculos, mas que mais recentemente adquiriu uma conotação negativa: a cruz suástica. Para os romanos, este símbolo era uma representação solar que propiciava a boa sorte, estando por isso incluída em muitos dos mosaicos desta habitação, também ela demolida para dar lugar à muralha do Baixo-Império.

Casa dos Esqueletos.

Mosaico da Casa dos Esqueletos.

Casa da Cruz Suástica.

Casa da Cruz Suástica.

Passados mais de 120 anos da primeira intervenção, sabe-se que Conímbriga ainda nos deixa muito por descobrir. Os trabalhos são efectuados à velocidade que orçamento permite, sendo que cada nova descoberta envolve uma logística de conservação e de saber como partir dali para o restante espaço. O anfiteatro, em trabalhos arqueológicos desde 2017, continua a ser uma prioridade, bem como a necessidade de adquirir terrenos ainda em mãos de privados.
Há ainda mais para além da muralha.

O Museu e as Ruínas de Conímbriga podem ser visitados de Segunda-Feira a Domingo, das 10h às 18h.

Os bilhetes têm o custo geral de 4.50€, aplicando-se descontos.

Para mais informações, podem consultar: Museu Monográfico de Conímbriga.

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