Dia Mundial da Criança em 10 Obras Portuguesas

O Dia Mundial da Criança foi oficialmente estabelecido em 1950, tendo em vista o objectivo de sensibilizar a comunidade para os direitos das crianças, permitindo-lhes uma melhoria nas suas condições de vida, que levarão a um maior e melhor desenvolvimento. Uma data que promove o bem-estar das crianças, atendendo a todas as nacionalidades, religiões, raças, etc.

Por isso mesmo, o artigo de hoje é dedico a dez obras que representam as crianças nos seus mais diversos estados, seja em momentos de lazer, de aprendizagem e, claro está, de muita brincadeira.

1. António Patrício, A Avó, óleo sobre tela, 1856. Museu do Chiado – Museu Nacional de Arte Contemporânea.

Fonte: Wikipédia.

Com uma vida e carreira muito curtas, as obras de António Patrício (1827-1858) inserem-se no panorama do Romantismo português. Pintava sobretudo cenas de género e costumes populares, aos quais atribuía inspiração sentimental e também anedótica.

A Avó, originalmente conhecida como A Interrupção da Leitura, marca o seu primeiro êxito, alcançado em 1956, dois anos antes de morrer. Nesta afectuosa cena familiar, vemos um menino, à esquerda, que lê a Bíblia Sagrada sob o olhar atento da avó. Avó esta que nos é apresentada em traços rudes, mas que tem um olhar sereno. Neste momento, a leitura é interrompida por duas meninas mais pequenas que brincam e que atentamente fixam a avó que lhes diz para esperarem um pouco. Uma cena de exterior que nos reporta aos dias passados em casa dos avós, com quem as crianças têm, normalmente, uma maior liberdade (e também barriga cheia) e com quem gostam de aprender, nem que seja a partir de histórias de vida que estes tenham para contar. É aqui visível este amor incondicional entre avó e netos, mas também o respeito que estes são capazes de transmitir pela primeira.
As cores da composição são quentes, com muitos beges, castanhos e acobreados; o azul da saia da avó e o azul do céu são dois pontos que se destacam da restante paleta cromática.

2. José Malhoa, Crianças Espreitando, óleo sobre tela, não datado. Colecção particular.

Fonte: Wikipédia.

Na estética Naturalista, as obras de José Malhoa (1855-1933) sobressaem-se pela exaltação da cor e da luz, algo que lhe deu uma linguagem muito própria dentro da Pintura Portuguesa. Todas as suas obras demonstram uma narrativa, sejam elas retratos, paisagens, cenas de género, nus, etc.

Esta obra dá-nos isso mesmo: duas crianças que espreitam por cima de um muro. Estão sorridentes e por isso somos levados a pensar que as apanhámos num momento de brincadeira e que elas nos espreitam tanto quanto nós as espreitamos a elas. Podem estar escondidas ou simplesmente a tentar perceber o que há para além do muro, transmitindo-nos essa vontade de explorar que todas as crianças têm, querendo sempre ver e fazer mais, mesmo quando lhes é dito que não pode ser.
A nível formal, vemos então essa força da luz e da cor, com um fundo simples que faz sobressair todos os elementos da composição. As rosas assumem tons quentes muito vivos que contrastam com os azuis mais escuros dos azulejos do muro. Esse azul prolonga-se ainda para as sombras nas crianças, sendo que a da esquerda, com o seu chapéu amarelo, realça a luz na obra.

3. António Carneiro, Menina do Gato – Retrato da Filha do Pintor, óleo sobre tela, 1900. Museu Nacional Soares dos Reis.

Fonte: Facebook Museu Nacional Soares dos Reis.

Entre a poesia e a pintura, António Carneiro (1872-1930) foi um artista marcante na sua época, sendo consagrado como o percursor do Simbolismo em Portugal, corrente que acabou por não ter seguidores. Conhecido essencialmente pelos retratos de personalidades da altura, de amigos, colegas e familiares, como é o caso desta obra onde representou a sua filha.

Uma característica forte na maior parte das crianças é o amor que têm pelos animais, sejam eles quais forem. Aqui temos temos um gato ao colo de Maria, a filha do pintor, e ambos olham-nos de frente, sendo os seus olhares um dos elementos mais marcantes na obra. A menina, aqui com cerca de dois ou três anos, está representada a meio corpo e veste uma roupa simples que lhe cai pelo ombro esquerdo, fazendo lembrar os momentos em que vestimos as roupas dos nossos pais para brincar. Tanto a veste como o tom de pele são claros e contrastam com o preto absoluto do gato, que quase torna impossível ver os seus olhos. Ambas as figuras nos transmitem tranquilidade e deixam perceber uma ligação afectuosa entre criança e animal.

4. Alberto Lacerda, Cabra-Cega, óleo sobre tela, 1914. Museu José Malhoa.

Fonte: Pintura Naturalista Portuguesa.

Alberto Lacerda (1889-1975) foi um pinto notado desde cedo. Teve preferência para a pintura de retrato, tendo também trabalhado na área da pintura de paisagem, de género e de História, tudo temáticas muito comuns na época.

Sem dúvida que uma das coisas mais associadas às crianças são as brincadeiras, sejam elas na rua, no recreio ou dentro de casa. Nesta obra vemos três crianças a jogar à cabra-cega, sendo que a que interpreta esse papel está representada em primeiro plano, com os outros dois escondidos atrás de um muro a tentar não ser apanhados. O local em que se encontram parece-se com um pátio com arcadas de claustro numa zona residencial, ou até um convento. As cores são maioritariamente de uma paleta de beges, verdes e castanhos, com a excepção do vestido vermelho da menina e do azul e amarelo dos azulejos que estão no muro atrás dela.

5. Aurélia de Souza, Estudo – Menina a Ler, pastel sobre papel, 1902-1922. Museu Nacional Soares dos Reis.

Fonte: Pinterest.

Entre os grandes nomes dos pintores portugueses do século XX, há um lugar para Aurélia de Souza (1866-1922). Embora muitas vezes reduzida aos seus quadros de flores, o seu género favorito para trabalhar era, no entanto, o retrato. Gostava também das cenas do quotidiano onde representava sobretudo mulheres a realizar tarefas domésticas e crianças.

Esta obra leva-nos exactamente para uma dessas cenas de interior, apresentando-nos a uma menina que lê. A leitura é, sem dúvida, uma parte muito importante na vida de uma criança, porque é precisamente enquanto crianças que aprendemos a ler e a escrever. A menina está absorta naquilo que lê, não prestando atenção ao espectador que lhe invade o espaço. Atrás dela é visível uma pilha de livros.
Também com uma paleta cromática bastante simples, a cor do vestido da criança realça-se perante o fundo e os restantes detalhes em tons beges e acastanhados.

6. Sarah Affonso, Meninas, óleo sobre tela, 1928. Museu do Chiado – Museu Nacional de Arte Contemporânea.

Fonte: Facebook Fundação Gulbenkian.

As obras de Sarah Affonso (1899-1983) são marcadas pelo retrato, muitos deles de criança. Esta é uma artista sobre a qual já se falou por aqui, com um artigo dedicado à sua vida e outro à sua obra.

Esta tela mostra-nos a ligação entre duas meninas, sendo que a da esquerda assume quase uma posição de protecção para com a outra. É a cumplicidade entre crianças que, quando acontece, é um sentimento muito forte e demonstrado.
A nível formal, esta obra apresenta-se colorida por blocos, sendo que a sua paleta se resume essencialmente a cinco cores: preto, branco, vermelho, verde e bege. A menina de vestido verde olha para a sua direita, enquanto que a outra fixa directamente quem vê o quadro, com uma sobrancelha franzida.

7. Berta Durão, Retrato de Alfredo Durão de Matos Ferreira, Fantasiado, óleo sobre papel, 1930-1935. Museu Abade de Baçal.

Fonte: MatrizNet.

Todos gostamos de sonhar ao faz de conta, tendo a oportunidade de brincar a isso no Carnaval e no Halloween. Já as crianças têm a desculpa para serem uma coisa diferente todos os dias ou várias vezes ao dia, sendo que actualmente é cada vez mais fácil encontrar fantasias para lhes fazer as vontades.
Nesta obra vemos um retrato de Alfredo Matos Ferreira, conhecido arquitecto e filho de Berta Durão (1896-?), a pintora em questão e sobre quem pouco se sabe. Por aquilo que o chapéu indica, estará fantasiado de palhaço, com uma roupa em tom cor-de-rosa salmão. O seu cabelo, o chapéu e o colete em tons escuros contrastam com os tons pastéis do fundo em mancha. No retratado são visíveis vários detalhes mais trabalhos, como os seus caracóis pintados com o mais ínfimo pormenor.

8. Agostinho Salgado, Recreio, óleo sobre contraplacado de madeira, 1940. Museu José Malhoa.

Fonte: ComJeitoeArte.

Aluno do já mencionado António Carneiro, Agostinho Salgado (1905-1967) pertence ao grupo dos Naturalistas, com uma obra mais voltada para o retrato e a paisagem. Nos seus retratos, os quais realizou sobretudo por encomenda, tentava sempre transmitir o perfil psicológico das pessoas em questão.

Os momentos de recreio servem para relaxar, comer e para a confraternização entre colegas e amigos. Seja pelo meio de brincadeiras ou conversas, é normal ver vários grupos formados neste tempo de pausa entre aulas. Nesta obra vemos três crianças, no lado esquerdo da composição, cuja atenção está toda voltada para uma folha de papel na qual escreve a menina de saia vermelha, para quem o nosso foco cai primeiramente. Sendo uma pintura maioritariamente em tons azuis e acastanhados, esta saia vermelha é exactamente o detalhe que mais chama a nossa atenção. Estas cores são aplicadas em modo de mancha, não deixando grande margem para a execução de elementos mais pormenorizados.

9. Isabel Laginhas, Ana Rita, acrílico e pastel sobre cartolina, 1979. Museu do Chiado – Museu Nacional de Arte Contemporânea.

Fonte: MatrizNet.

Movida entre o Neofigurativo e o Abstraccionismo Geométrico, Isabel Laginhas (1942-2018) foi pintora e professora de Artes. Tendo feito alguns cursos relacionados com a cor, este acaba por ser um elemento de destaque nas suas obras, maioritariamente aplicada em blocos.

Isso é também o que acontece na obra aqui apresentada, com destaque para a silhueta a preto de uma menina, Ana Rita, que segura uma boneca junto à cara e que se destaca de um fundo em tons de azul, cor-de-rosa e roxo. A competir pela atenção do primeiro plano, há um desenho infantil de uma figura que segura um ramo de flores na mão, com as suas cores a sobrepor-se ao preto da silhueta. No canto superior esquerdo, vemos novamente a menina, agora sentada. É ainda possível ler a frase “a minha boneca é linda”, algo que nos transporta quase para um momento de marchas populares, mas também para um mundo de brincadeiras de crianças, no qual elas são capazes de amar um boneco como a uma pessoa, tendo um sentimento de protecção sobre o objecto.

10. Adelino Ângelo, Cigana com Menino, óleo sobre tela, não datado. Museu de Lamego.

Fonte: CiberDúvidas.

As obras de Adelino Ângelo (n. 1931) são repletas de emoção que, por vezes, nos dá um sentido amargo, mas que nos permite ver a obra com o máximo de atenção. Considerado por muitos como o intérprete da Vida Cigana, categoria na qual se insere a obra aqui a apresentada.

São muitos os que dizem que o primeiro amor de uma criança, talvez mais dos rapazes, é a sua mãe e esta tela mostra a emoção associada a esse sentimento. Vemos uma criança agarrada à perna da mãe, sendo que ambas as figuras ocupam o primeiro plano da composição. No olhar deste menino desnudo vemos a pureza deste relacionamento com a mãe. Parece que presenciamos um momento em que as figuras são apanhadas desprevenidas e o primeiro instinto da criança é o de se refugir na mãe, não deixando, no entanto, de nos fitar com um sorriso. A mãe sorri também, perante este comportamento. Atrás da criança há ainda um cão.
A obra é-nos apresentada em tons castanhos e azulados, sendo o cabelo e a camisa da mãe os maiores focos cromáticos distintivos do resto das cores.

Seja a brincar, a estudar, com amigos ou em família, são muitas as representações da criança na Arte Portuguesa. Querendo dar a este artigo um rumo mais leve, foram deixadas de parte obras que mostrem, por exemplo, o trabalho infantil, pois o Dia Mundial da Criança é uma celebração de deixar os pequenos ser quem são e quem querem ser, com a maior liberdade possível, deixando-as ter uma infância tal como merecem, não fazendo delas adultos antes do tempo.

Seguindo um pouco o mundo dos clichés, em cada um de nós há ainda uma criança e por isso este dia é um bocadinho de todos. Aproveitem e não descurem nunca esse vosso lado nem o dos outros, principalmente daqueles que são ainda efectivamente crianças e que merecem todas as condições para conseguirem crescer bem e felizes.
Feliz Dia Mundial da Criança!

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