lungo 2601 – Silvestre Quizembe | Tumboa Gallery

A Rua Miguel Bombarda, no Porto, é já conhecida como palco de algumas das mais célebres Galerias de Arte da invicta. O dia 3 de Julho ficou marcado pela inauguração de mais um espaço expositivo que promete marcar o mercado artístico não só da cidade como também do país – a Tumboa Gallery.

É sobre esta nova Galeria e a sua exposição de abertura, dedicada à obra de Silvestre Quizembe, que fala o presente artigo.

Fonte: Facebook Tumboa Gallery.

A Tumboa Gallery nasce da vontade de Hélio Pegado, o responsável pelo espaço, de dar destaque aos artistas africanos, os quais considera serem pouco valorizados no mundo artístico. A Galeria tem o propósito de servir de ponte entre estes criadores e o resto do mundo, potenciando as suas carreiras.

Mais do que tudo, este acaba por ser um projecto pessoal. Tumboa é uma planta que cresce no deserto. Hélio Pegado escolheu através de uma troca de ideias com a Ana Pegado, a sua esposa, pois a capacidade de sobrevivência desta planta significa, para ele, resistência. Uma resistência por parte do dono da galeria que, durante três anos, se manteve fiel à vontade de abrir um espaço como este. Resistência por parte dos artistas que por aqui passam e passarão por não baixarem os braços mesmo quando o mundo da Arte não lhes sorri.

Silvestre Quizembe, Afeto ao Feto, acrílico sobre tela, s/d.

Silvestre Quizembe, Afeto ao Feto (detalhe), acrílico sobre tela, s/d.

lungo 2601 é, então, a exposição inaugural da Tumboa Gallery e reúne 16 obras de Silvestre Quizembe.

Quizembe nasceu na província do Uige, em Angola, a 26 de Setembro de 1991 e desde sempre esteve ligado ao mundo da criação artística. Em 2003, com doze anos, já frequentava ateliers de vários artesãos, pintores e escultores, o que proporcionou a que, em 2004, fosse recebido como discípulo do artista plástico Paulo Bem Vindo. Com ele pode, durante seis anos, explorar e desenvolver a que viria a ser a sua forma única de criar, não se mantendo preso a uma só técnica.

Entre cerâmica, madeira, tinta acrílica, chapa e até colagens, é essa variedade que nos mostra a exposição.

Silvestre Quizembe, Transmutação, chapa, s/d.

Lungo significa energia da terra, terra essa que une todos os seus habitantes, propiciando uma conexão entre tudo o que existe. 2601 remete para o dia e mês de nascimento do artistas, assumido como a frequência da sua arte e da sua vida. No seu todo, e tal como nos indica a folha de sala, “lungo 2601″ representa uma tentativa de demonstrar e realçar a energia que recebemos e transmitimos na vida.

E é exactamente com essa energia que somos recebidos ainda antes de entrar na Tumboa Gallery. Para além de vermos a obra Os Meninos da Boa Esperança, peça central da exposição, como rosto da montra, temos ainda o topo da fachada pintado com uma obra mural do própria Silvestre Quizembe (prática que será recorrente em cada exposição de cada artista que vai expor).

Tanto na fachada como no interior, somos assaltados por um mundo de cores que nos contam as vivências e as sensações do artista. Quizembe tem um processo criativo que nos relembra um pouco o de Jackson Pollock (1912-1956): primeiro atira tinta para a tela, a qual deixa secar por cerca de três horas, e só depois, tendo isso como base, desenha. As cores são, claramente, a característica mais destacável das suas obras, com tons vivos que se agarram a nós à medida que as vamos descobrindo.

Fachada da Tumboa Gallery.

Silvestre Quizembe, mural da Tumboa Gallery.

Silvestre Quizembe, Os Meninos da Boa Esperança, acrílico sobre tela, s/d.

Silvestre Quizembe, Os Meninos da Boa Esperança (detalhe), acrílico sobre tela, s/d.

A temática varia ligeiramente. Tanto podemos encontrar uma ligação ao espíritos, como acontece com a obra Makixi ya awa que representa o espírito da terra e o que controla os animais, como um retratar do seu continente Natal, África, em obras como Ritmo e Tradição, a já mencionada Os Meninos da Boa Esperança ou as máscaras em cerâmica. Há também espaço para a representação de Portugal em telas como A História do Cinema e Memória da Viagem, que nos mostra a sensação que o artista teve quando chegou ao país em 2018, sentindo-se assaltado pelos mais diversos elementos e referências que todos reconhecemos como sendo característicos portugueses.

Seja África, Portugal ou uma representação espiritual dos animais, há sempre uma ligação à terra e às terras, convergindo na tal conexão de toda a existência que já aqui foi referida.

Na parede, da esquerda para a direita: Silvestre Quizembe, Awa e o Espírito da Terra; Mwpo; Makixi ya awa; cerâmica sobre madeira, s/d.
No plinto: Silvestre Quizembe, Lusambilu, O Altar da Esperança, cerâmica, s/d.

Esquerda: Silvestre Quizembe, Ritmo e Tradição, técnica mista, s/d.
Direita: Silvestre Quizembe, Menino de Chapéu, técnica mista, s/d.

Silvestre Quizembe, Memória de Viagem, acrílico sobre tela, s/d.

Silvestre Quizembe, A História do Cinema, acrílico e colagens sobre tela, s/d.

Os elementos representados nas obras de Quizembe, sejam eles corpos, instrumentos ou até símbolos de um país, aparecem de várias formas: de um modo real mas ao de leve, que nos pede para observarmos os trabalhos com a máxima atenção, para os percebermos; de forma fragmentada com esses vários fragmentos espalhados pela tela; e ainda de modo concreto que nos permite ver exactamente as coisas tal qual como as conhecemos, sem nos exigir um esforço de compreensão extra.

Para além de todos os componentes que constroem cada obra e a sua temática, há um que é universal a vários dos trabalhos de Quizembe: um símbolo que significa sapiência (ver na imagem abaixo).

Silvestre Quizembe, Memória de Viagem (detalhe), acrílico sobre tela, s/d.

Silvestre Quizembe, Afeto ao Feto (detalhe), acrílico sobre tela, s/d.

lungo 2601 estará presente na Tumboa Gallery até ao dia 21 de Agosto. Após o seu encerramento, são já muitos os planos de artistas a expor, sempre com o intuito de expandir o nome deles, ao mesmo tempo que a Galeria expande o seu, aumentando também, daqui por algum tempo, o seu espaço expositivo. Estes serão escolhidos, diz Hélio Pegado, de uma forma simples e, mais uma vez, pessoal: a Arte deve tocá-lo interiormente; esta vai escolhê-lo ainda antes de ele a escolher.

A Tumboa Gallery pode ser visitada Terça-Feira a Sábado, entre as 13h e as 19h, no número 316 da Rua Miguel Bombarda.
Para saberem mais sobre o espaço, podem visitar a página de Facebook, de Instagram e o website (disponível brevemente) da galeria.

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