A Mulher de Ouro e a Restituição de Obras Roubadas | História da Arte no Cinema

Mesmo após decorridos 71 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, estima-se que mais de 100.000 obras de arte levadas pelos Nazis ainda não foram devolvidas aos seus donos legítimos. Muitas destas não devoluções devem-se ao facto do desaparecimento total de algumas famílias, mas há também a questão de que muitos museus e galerias viram as suas colecções beneficiar com estes roubos.

O quadro Retrato de Adele Bloch-Bauer I, pintado por Gustav Klimt, encaixa nesta última categoria, tendo a sua recuperação gerado um problema entre a sua herdeira legítima e o governo austríaco. É sobre esta história que fala o filme Mulher de Ouro, filme que estreou em 2015 protagonizado por Helen Mirren e Ryan Reynolds, e é também sobre ela que fala este artigo.

Gustav Klimt, Retrato de Adele Bloch-Bauer, óleo e folha de ouro sobre tela, 1907. Neue Galerie. Fonte: Wikipédia.

A Segunda Guerra Mundial representou a perda de muitas coisas. Bastaria falar do número de mortos e de cidades completamente reduzidas a destroços e pó, mas falemos da Arte. Os Nazis eram apaixonados por Arte (embora não toda). Algumas das peças que roubaram serviram para exposições que organizavam e para um museu que Adolf Hitler tencionava construir. Outras ainda ficavam para os que ocupavam os mais altos cargos deste governo.

Durante a ocupação Nazi pela Europa, foram várias as famílias que se viram assaltadas dos bens artísticos que possuíam. Não só pinturas ou esculturas, mas também instrumentos musicais, jóias e até objectos como candelabros de prata. Os Bloch-Bauer, de Viena, foram uma dessas famílias.

A família Bloch-Bauer recebia as mais célebres personalidades em sua casa. Uma delas foi o pintor austríaco Gustav Klimt 1862-1918), que viria a estar bem representado na colecção pessoal da família. De seis quadros, dois retratavam Adele Bloch-Bauer (1881-1925) e é a partir de um deles que se desenrola toda uma história de restituição de obras de arte, uma das mais marcantes relacionadas com o saqueamento Nazi.

A acção no filme Mulher de Ouro (Woman in Gold, no título original) tem início no ano de 1998, quando Maria Altmann, sobrinha de Adele, percebe que o quadro Retrato de Adele Bloch-Bauer I, que representa a tia que tanto admirava, não tinha sido doado à galeria nacional da Áustria, a Belvedere, pela mesma, mas que, de facto, tinha lá ido parar através de uma compra feita aos Nazis. Esta descoberta leva-a na demanda de recuperar algo que era seu por direito.

Gustav Klimt. Fonte: AEGISEducation.

Helen Mirren e Ryan Reynold no filme Mulher de Ouro. Fonte: VeredNeta.

Recuemos um pouco mais na História. Maria Altmann nasceu a 18 de Fevereiro de 1916, em Viena, filha de Gustav Bloch-Bauer e de Therese Bauer, no seio de uma família judia com muitas posses. Isto permitia-lhes ter uma grande proximidade com artistas do Movimento da Secessão de Viena, fundado por Klimt, em 1897, com o intuito de romper com a ligação das normas tradicionais e artísticas da época. Outro dos amigos da família era o compositor Arnold Schoenberg (1874-1951), avô do advogado que acabaria por ajudar Altmann na recuperação do quadro, E. Randol Schoenberg (n. 1966).

Ferdinand Bloch-Bauer, o tio de Maria, comissionou Klimt para pintar dois retratos da mulher quando ela tinha 25 anos. O primeiro deles é o foco principal do filme e deste artigo. Quadro esse que foi concluído em 1907, com os primeiros rascunhos a remontar a 1903/1904. Nele vemos Adele numa veste de gala dourada, repleto de símbolos egípcios e formas geométricas, como é habitual no trabalho do pintor austríaco, tal como a inserção de folha de ouro que conjuga com o óleo da tela. Esta obra e a própria Adele tornaram-se o epítome da Idade de Ouro vienense.

O colar com que Adele é representada acabou por pertencer a Maria, tendo-lhe sido oferecido pelo tio como prenda pelo seu casamento com o cantor de ópera Fritz Altmann (1908-1994), realizado a 9 de Dezembro de 1937, em Viena. Este colar foi, no entanto, um dos bens confiscados pelos Nazis. Foi enviado para Hermann Göring que acabaria por o oferecer à sua esposa Emmy, que orgulhosamente o exibia nas festas a que ia.

Adele Bloch-Bauer morre vítima de meningite aos 44 anos, em 1925. Desde sempre que uma ida a casa dos tios implicava um passeio pelas suas salas repletas de obras de arte e após a morte de Adele passou a ser rotineiro uma visita a este quadro, após qualquer refeição. Uma forma de prestar homenagem à tia que, assim, nunca os deixava.

Adele Bloch-Bauer (à esquerda) e o seu retrato (à direita). Fonte: HistoryvsHollywood.

Gustav Klimt, Retrato de Adele Bloch-Bauer I, esboço a lápis sobre papel, cerca 1903. Fonte: WikimediaCommons.

Maria Altamann no dia do seu casamento com Fritz Altmann, em 1937. Fonte: Schoenblog.

Em 1938, a Gestapo invade a casa da família. Ocupam e roubam tudo o que encontram, mantendo a família em prisão domiciliária. Maria e o marido fugiram, algum tempo depois, para a Califórnia através da Alemanha e dos Países Baixos. A sua irmã e o tio já tinham fugido para a Suíça. Os seus pais permaneceram em Viena, sendo que o pai estava já com uma saúde debilitada, que o levaria a falecer umas semanas mais tarde. Maria acreditava que o pai morreu de coração partido por tudo aquilo que perdeu e viu acontecer.

O quadro viu o seu nome alterado em primeiro lugar para Retrato Dourado e mais tarde para A Mulher de Ouro. Esta alteração no título deve-se à tentativa de omissão da pessoa representada, sendo que o seu apelido revelaria a sua descendência judia. Um roubo de arte e um roubo de identidade, que passou a ser encarado como símbolo de tudo o que a família perdeu.
Aquando o início do processo, a obra assumia já o nome de Adele Bloch-Bauer.

É, como já referido, em 1998 que o processo se inicia, numa altura em que se faziam grandes avanços nos casos de restituição de obras roubadas pelos Nazi, após algumas revelações sobre estes saques, conhecidas após o término da Guerra Fria. No mesmo ano, a Áustria aprovou uma lei interina que obrigava os museus a dar livre acesso aos seus arquivos a investigadores que quisessem descobrir os donos legítimos das obras presentes nas colecções dos mesmos.

A Lei da Restituição assinada também em 1998 por vários países, incluindo a Áustria, declara que as peças roubadas pelos Nazis deveriam ser entregues aos donos legítimos. Enquanto muitos países e museus, como o Louvre, se viram obrigados a esconder as suas obras para evitar que fossem roubadas pelos Nazis, outros foram os que se aproveitaram dos roubos que estes levaram a cabo, como é o caso do Belvedere. Esta questão de perda de património para o país, fez com que muitos dos processos de devolução se tornassem longos e com mais finais a favor dos governos do que das famílias a quem as obras pertenciam por direito.

Outro grande problema na recuperação destas obras é o de que é praticamente impossível saber o paradeiro de peças em colecções privadas fora dos Estados Unidos da América, país que mais se tem focado em fazer as obras chegar aos donos legítimos. Portanto, há muitas peças sobre as quais não se sabe o seu paradeiro.

Maria Altmann quando revisita o quadro pela primeira vez. Fonte: TheArtNewspaper.

O jornalista Hubertus Czernin (1956-2006) é quem conta a Maria que as pinturas lhe pertenciam e não à galeria. Ela prometeu que iria tê-las de volta.

Podíamos estar aqui a falar apenas de alguém que queria reaver os quadros e tirá-los do museu quase por casmurrice, mas o facto é que Altmann conseguiu, com a ajuda deste jornalista e do já referido advogado, reunir provas de que, apesar da compra, o Belvedere não tinha o direito de manter as obras. Esta conclusão chega a partir de dois dados relativamente simples: em primeiro lugar, o governo austríaco alegou que Adele tinha deixado as obras em testamento à galeria. Isto é verdade, mas esta vontade continha uma condição – a doação só seria feita após a morte do seu marido, marido esse que morre em 1945, mas o quadro é vendido antes, em 1941. O segundo ponto é o de que também o marido deixou uma cláusula relativa aos quadros no seu testamento: estes, tal como todos os seus outros bens, seriam deixados aos seus sobrinhos e sobrinhas, incluindo Maria Altmann, e , para além disso, especificou que todos os testamentos que referissem os quadros, incluindo o da sua esposa, deveriam ser considerados nulos ou inválidos.

E agora perguntam como é que esta vontade de Ferdinand Bloch-Bauer se sobreporia à de Adele e, ainda para mais, quando a morte de ambos é separada por vinte anos. A resposta é simples: foi o marido que encomendou e pagou as obras, o que as torna, tecnicamente, suas. Não cabia a Adele o papel de decidir qual o seu destino. E, assim sendo, na altura em que o processo arranca, elas pertenciam a Maria Altmann, pois era já a única sobrinha ainda com vida. Para além disso, a linguagem no testamento de Adele baseava-se mais num pedido dirigido ao marido para que doasse as obras à galeria, do que propriamente o obrigava a fazê-lo.

Esta descoberta permitiu um início risonho para Maria Altmann, mas cedo se viu travada, pois para processar a Áustria, teria de despender de uma grande quantia, calculado tendo em conta o valor das obras. Esta questão fez logo com que a herdeira decidisse parar com este processo, também tendo em conta o arrastar que este já levava, na sua óptima de forma propositada.

They will delay, delay, delay, hoping I will die. But I will do them the pleasure of staying alive.

Maria Altmann e o advogado E. Randol Schoenberg. Fonte: Pinterest.

Incapaz monetariamente de levar o caso a tribunal no seu país-Natal Altmann e o seu advogado decidem preencher uma queixa no tribunal americano, em 2000, alegando que a Áustria beneficiou nos Estados Unidos da América com vendas de livros e posters onde aparecia o quadro. Isto permitiu tirar o caso de solo austríaco, o que viria a ser benéfico para eles permitindo-lhes, assim, processar o governo austríaco.

Embora ganhem a acção, Maria concorda, em 2004, seguir com um processo de arbitragem independente na Áustria, de forma a evitar um caminho longo e dispendioso em tribunal. Este modo decorre da escolha de três jurados (dois escolhidos por cada um dos lados, mais um escolhido de forma aleatória) que, após ouvir cada uma das versões, decidem sobre quem deve ganhar.

Após um período de quatro meses, a decisão caiu a favor de Maria Altmann, conseguindo recuperar dois dos seis quadros de Gustav Klimt que pertenciam à sua família.

Tal como mencionado no filme, Retrato de Adele Bloch-Bauer I era a Monalisa da Áustria, algo que, desde logo, fazia antever os problemas que o governo austríaco levantou a Maria Altamann. Isso mesmo fez com que, no fim do processo, pedissem à herdeira para deixar o referido retrato na Belvedere, algo que Altmann negou, declarando: já o emprestámos durante 68 anos. Chega de empréstimos. A saída do quadro do país representou, então, uma perda tremenda para a Áustria.

É de referir que, logo no início de todo o processo, Altmann fez a proposta de deixar o quadro na galeria, desde que o governo austríaco concordasse em admitir que o tinha roubado. Recusaram e, após oito anos do decorrer do caso, a herdeira considerou que tinham perdido a sua oportunidade e daí se negar ao pedido acima referido.

À esquerda: Maria Altmann. Fonte: USCDNews.
À direita: Helen Mirren como Maria Altmann. Fonte: ChineseFanShare.

2006, dois anos após a resolução do caso, é o ano em que as obras voam para junto de Altmann, na Califórnia. Na altura, esta tornou-se a devolução mais cara de algo roubado pelos Nazi.

Mas os recordes não se ficaram por aqui. Tendo em mente que a sua tia sempre tivera a vontade de ver o seu retrato exposto numa galeria, vendeu a obra a Ronald Lauder (filho de Estée Lauder) que a expôs na sua Neue Galerie, em Nova Iorque. Vendida pela módica quantia de 135 milhões de dólares, passou a ser, na altura, a pintura mais cara, valor entretanto já ultrapassado.

Com esta venda, ficou estipulado que a obra deveria estar presente na exposição permanente da galeria, sendo só removida havendo essa necessidade. Por altura de estreia do filme, foi organizada uma exposição temporária que tinha o quadro como centro da mesma.

Como já referido, eram seis as obras de Klimt pertencentes aos Bloch-Bauer, os dois retratos mencionados e mais quatro paisagens. As restantes quatro que Maria Altmann conseguiu recuperar foram vendidas em leilão. Assim sendo, os herdeiros venderam as cinco obras por um total de 325 milhões de dólares. Muitos críticos do meio consideram que uma história sobre justiça e redenção após o Holocausto acabou por se transformar em mais uma história intoxicante do mercado da Arte.

Maria Altmann com E. Randol Schenberg e Michael Govan, director do County Museum of Art, em 2006.
Fonte: PrincetonAlumniWeek.

Maria Altmann e Ronald Lauder aquando a aquisição do Retrato de Adele Bloch-Bauer I pela Neue Galerie, em 2006.
Fonte: LootedArt.

O filme Mulher de Ouro é baseado num esboço escrito pelo próprio advogado, já com ideia de adaptar a história de todo o caso ao mundo cinematográfico. Embora fantasioso em algumas partes, o filme serve sobretudo como um testemunho de parte da brutalidade e clima de terror que se instalou no período da Segunda Guerra Mundial, bem como as marcas que deixou, perpetuando uma tristeza contínua e eterna. É uma excelente forma de conhecer um quadro e toda a história que o envolve que acabam por representar mais do que uma pessoa e uma família, todo um século.

Na altura em que o caso de Maria Altmann vs. o governo austríaco se iniciou, eram já alguns os casos de pedido de restituição de obras de arte roubadas pelos Nazis, mas eram poucos aqueles marcados pelo sucesso dos familiares. Esta mulher, que nunca conseguiu perdoar ao país onde nasceu por tudo o que a fez passar e perder, e a sua vontade de restabelecer a justiça inspirou mais pessoas a tentarem reaver o que lhes pertencia por direito, sendo um empurrão para que mais herdeiros conseguissem seguir em frente sem nunca baixar os braços. O Retrato de Adele Bloch-Bauer I era o rosto desta nova esperança.

Maria Altmann viria a falecer a 7 de Fevereiro de 2011, na Califórnia, estado norte-americano que a acolheu quando ela mais precisava, tornando-se a sua casa.

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