Josefa Greno | Vida

Josefa Greno ficaria conhecida como uma pintora exímia de flores e frutos, vulgo naturezas-mortas. A Pintura chegaria à sua vida como forma de garantir o sustento de uma família que aos poucos se foi desgastando, até ao dia em que toma uma decisão que tornaria a sua vida ainda mais infeliz do que tinha sido até ali.

O presente artigo refere estes aspectos mais pessoais e dramáticos da vida da pintora que marcou o fim do século XIX e o início do século XX, mas sobre a qual, devido a um infortúnio, poucos sabem. A abordagem à obra será o tema da próxima publicação.

Adolfo Greno, Retrato de Josefa Garcia Greno, óleo sobre tela, 1887. Fonte: Wikimedia.

Maria Josefa Garcia Seone Greno nasceu a 1 de Setembro 1850 em Medina-Sidonia, em Espanha. Filha do capitão-general José Garcia Saéz e de Maria Seone que ficou viúva quando a filha tinha três anos. As duas mudaram-se para Sevilha, onde viveram até aos 14 anos de Josefa e mais tarde, aos 20 anos, mudaram-se para a Corunha, de onde era natural a mãe.

Depois da Corunha, a ideia seria regressar a Sevilha, mas a III Guerra Carlista (primeiro regime republicano em Espanha que dura apenas onze meses, durante os quais se dão três guerras civis) trocou-lhes as voltas e o destino acabou por se tornar Lisboa, mudando-se para a cidade em 1870. Aqui viria a dedicar-se aos bordados e à alta-costura, sendo este o sustento de ambas. Para além destes trabalhos com agulha, deu também asas ao seu lado literário conseguindo publicar poesias e contos em revistas espanholas.

Na capital portuguesa, ainda na década de 1870, conhece Adolfo Greno (1854-1901) que na altura era finalista do curso de Pintura da Academia de Belas Artes, discípulo de Miguel Ângelo Lupi (1826-1883). Tornam-se namorados e, em Setembro de 1876, casam em segredo. Dias depois, com o apoio da bolsa para pensionista de Pintura Histórica que Adolfo recebeu, partem para Paris, acompanhados pela mãe de Josefa.

No entanto, esta bolsa acabaria por se revelar não tão proveitosa como a pintora terá pensado inicialmente, sendo que o marido se deixou levar pela vida boémia. Com a bolsa atribuída a Adolfo a gastar-se a olhos vistos, Josefa percebe, algures em 1879, que teria que deixar de ser modelo do marido para passar ela própria a garantir o sustento da família e decide aprender piano e pintura, sendo que esta última se revelaria o foco principal da sua vida. Terá ainda, logo no mesmo ano, apresentado um lenço bordado a branco na Exposição Universal de Paris, dando vida às capacidades que já tinha com a agulha.

Esquerda: Desenho de Josefa Greno a partir de um óleo de Adolfo Greno. Fonte: SeminariosdeArte.
Direita: Adolfo Greno, Retrato de Josefa Greno, óleo sobre tela, não datado. Museu do Chiado – Museu Nacional de Arte Contemporânea. Fonte: MatrizNet.

Ainda em Paris, vai frequentando os Salons e as várias exposições que a cidade oferecia, sendo assaltada por várias obras florais que viriam a inspirar a sua obra. É ainda admitida na Société des Artistes Français, onde convive com Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929) e Artur Loureiro (1853-1932) que, mais tarde, se revelariam grandes apreciadores da sua obra, tendo uma grande importância no seu percurso artístico.

A pensão de Adolfo termina, então, em Setembro de 1881, mas o casal decide permanecer em Paris. No mesmo ano, posam para Concerto de Amadores de Columbano, onde Josefa aparece quase irreconhecível com um ar convalescente, estando a recuperar de uma doença. Diz-se que, por esse motivo, não terá posado nas várias sessões e que o pintor alegou ter-se inspirado nele próprio para acabar o retrato da amiga.

Este capítulo da sua vida marca também a altura em que começam a surgir problemas mais acentuados com o marido, que a pintava como sendo uma mulher ciumenta, desviando, assim, as atenções do seu comportamento estouvado. Josefa encontrava o seu refúgio no trabalho.

É de novo na capital portuguesa que faz a sua estreia como pintora, ao expor na XIII Exposição da Sociedade Promotora de Belas Artes, em 1884. Espantando todos quantos viam as suas obras, estes vão duvidar que as mesmas tenham saído do pincel de uma mulher. O seu trabalho vale-lhe a Terceira Medalha da exposição, tendo um grande impacto na vida de Josefa que se viria a tornar a mais exímia pintora de flores.

Columbano Bordalo Pinheiro, Concerto de Amadores, óleo sobre tela, 1882. Josefa Greno é a quarta pessoa a contar da esquerda. Museu do Chiado – Museu Nacional de Arte Contemporânea. Fonte: MNAC.

Josefa e Adolfo regressam definitivamente a Lisboa em 1886. Ela é já uma grande pintora, sendo desde logo convidada a fazer parte do Grupo do Leão, tornando-se um nome incontornável no panorama artístico da época, o que lhe permitiu reunir algumas poupanças no banco. Já o marido dava aulas particulares e metia a mão em tudo o que a esposa amealhava. Para além de gastador, era ainda violento no leito conjugal, tal como a pintora viria a referir várias vezes alguns anos mais tarde.

A artista vai dedicar-se intensamente ao seu trabalho, o que lhe permitiu expor em inúmeras exposições nas quais apresentava, muitas vezes, mais do que dez obras. Por este motivo de trabalho frenético, a sua vida social era muito escassa.

Este refúgio no trabalho acentuou-se cada vez mais, pois os problemas familiares não cessavam. Como forma de tentar novas coisas, Josefa deixou, por momentos, as naturezas-mortas de lado e pintou algumas paisagens e retratos, que se viriam a revelar não tão bem conseguidos como a temática pela qual era já conhecida.

1895 marca o ano em que Josefa começaria a sofrer com crises nervosas. Com vários desentendimentos familiares já sobre a mesa, a artista via agora o marido a apropriar-se do dinheiro que ela ganhava com o seu trabalho. Estes acontecimentos viriam a afastá-la lentamente do mundo das exposições, corroborando a ideia de alguns amigos próximos de que algo se passava.

Para além disso, a sua mãe morre em 1899, deixando a pintora muito abalada. Este evento, que fez com que Josefa não participasse na exposição do Grémio Artístico desse ano, terá sido um dos factores que a levou a não conseguir manter a calma que vinha tendo até aqui. A progenitora, que sempre a apoiou, seria, com certeza, uma peça importante para ajudar a manter as águas calmas entre o casal.

Josefa Greno, Natureza morta, óleo sobre tela, não datado. Fonte: Expresso.

É em 1901 que tudo se desmorona. A 7 de Abril, cansada de tudo o que sofria, dispara um tiro sobre o marido não o atingindo. Apesar de Adolfo encarar o acontecimento com normalidade e de, depois do sucedido, eles voltarem a viver, aparentemente, felizes, as pessoas começaram a encarar a pintora como alguém que estava perturbado psicologicamente.

Contribuindo para esse ideal de que tudo corria de feição, Josefa volta ao mundo das exposições, participando na primeira exposição da Sociedade Nacional de Belas-Artes, inaugurada a 15 de Maio do mesmo ano. Esta viria a ser a última vez que expunha os seus trabalhos.

O suplício da vida em casal continuava a ser impactante para a artista e na noite de 25 de Junho dispara novamente sobre o marido. Quatro tiros que se revelaram fatais logo ao primeiro disparo. Josefa eliminava, desta forma, o desespero da sua vida que a acompanhava em forma de homem, não adivinhando que se seguia um caminho até ao Inferno.

Adolfo Greno morre aos 46, nunca tendo alcançado um lugar de destaque no meio artístico, sendo que, à altura da sua morte, se dedicava à restauração de quadros antigos. O caso da sua morte ficaria conhecido como “o horrível crime da Travessa de S. Mamede” ou “Caso Greno”.

A notícia espalhou-se rapidamente, pois o alerta foi dado por vizinhos. Rápido foi também o alastrar e cimentar da ideia de que Josefa não estaria definitivamente bem, sendo que, depois de matar o marido, se terá recusado a sair de casa sem tomar o pequeno-almoço.

Primeiramente levada para o Aljube, nem mesmo o depoimento do irmão do marido a seu favor atenuou o seu infortúnio. A 2 de Julho é transferida para o Hospital Psiquiátrico de Rilhafoles e nunca mais seria vista com vida, pois ficou impedida de receber visitas. Esta foi uma ordem de Miguel Bombarda (1851-1910), médico e director do Hospital, que se debruçaria activamente sobre o caso da artista, declarando-o desde cedo como uma situação de delírio. O próprio médico reuniu depoimentos de vários colegas em relação ao caso e embora muitos considerassem que “delírio” era um exagero, isso não impediu que a praça pública começasse a considerar Josefa Greno, na forma vulgar, de doida.

Em todos os interrogatórios, Josefa disse que já havia pedido a separação a Adolfo, mas que vendo o seu pedido negado chegou a um ponto em que ou era o marido ou ela. Era impossível continuarem a morar juntos, tendo em conta os seus gastos, violência e traições. Mas vista como doida, os jornais vão mostrá-la como má da fita, deixando todos os elogios para o morto. A sua memória seria assim denegrida, por meio de palavras e imagens, em várias publicações como jornais, mas também na Enciclopédia Portuguesa Ilustrada, de Maximiliano Lemos (1860-1923) que, numa publicação posterior, viria a reescrever o que dissera sobre a pintora.

Por ele me sacrifiquei e fiz pintora… Trabalhei muito…até chegar à última pintura, que foi esta.

Alguns desenhos divulgados pela imprensa em 1901. Fonte: Sandra Leandro.

A 27 de Janeiro de 1902 a vida de Josefa Greno chega ao fim. Sofria do “mal de Bright” (insuficiência renal crónica) que se revelou fatal quando aliada à sua decadência neurótica. Miguel Bombarda realizaria ele próprio a autópsia, fazendo-o numa grande sessão na Sociedade de Ciências Médicas, à qual presidia, no dia 1 de Fevereiro. No decorrer da autópsia percebeu-se que a pintora tinha o coração com o dobro do tamanho normal para uma coração feminino.

Tudo o que esta mulher de coração duplicado desejava era pintar e ter a oportunidade de ser feliz. Diz-nos ela, já em internamento: Yo me admiro que tinha en la mano el remedio para todos mis males, y no se me ocorrio matar me; que orrore! tan buena! tan baliente y aun con fuerzas para sufrir me hacia falta morir, morir, yo te perdono, he sido tan infeliz… Yo no se por que no he sido mas feliz; mi cuñado á ablado en mi favor, por que las puertas de la prision, no se me abren, tengo recelo y vivo en ansias; den la paz a mi espiritud y la paz a mi alma; abran me la puerta de la prision, tratare de pintar y procurare ser feliz pintando; aun puedo ser dichosa. Estoi atribuladisima.

Já em 2002, o caso de Josefa Greno foi novamente analisado. Ficou provado que o delírio de ciúme declarado por Miguel Bombarda não tinha fundamento. No entanto, o psiquiatra Carlos Nunes Filipe considerou ser possível a existência de um transtorno de personalidade paranoide.

Adolfo Greno, Josefa Greno a Dormir, óleo sobre madeira, 1884. Fonte: Observador.

Embora Josefa Greno utilizasse a Pintura como uma forma de escapar à realidade familiar, nunca conseguiu fugir realmente dela, acabando por tomar medidas drásticas. Pensando que, ao matar o marido, seria livre para pintar o resto da vida sem preocupações, o suplício em que vivia não a deixou perceber as consequências que isso traria depois.

Apesar de tudo de mal que haviam publicado aquando a sua prisão e encarceramento, na altura da morte de Josefa, os jornais quiseram prestar homenagem dando destaque aos seus melhores quadros. Foram seleccionadas um total de 48 obras.

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