Josefa Greno | Obra

Embora não sejam tão falados como os homens, a História da Arte Portuguesa do final do século XIX e início do século XX também se fez de mulheres. Com os seus estilos de eleição, movimentaram-se por entre o mundo do Salão e das exposições, sendo também elas aclamadas por esses colegas.

Josefa Greno foi uma delas. Na presente publicação será estudada a sua obra, seguindo o artigo onde foi já abordado o lado mais pessoal da sua vida.

Josefa Greno, Natureza Morta com Rosas e Amores Perfeitos, óleo sobre tela, não datado. Fonte: ArtBid.

Josefa Greno, Natureza Morta – Flores, óleo sobre tela, não datado. Fonte: CabralMoncadaLeilões.

Josefa Greno entra no mundo da Arte através de peças criadas por agulhas, algo muito característico da época. Durante os seus anos em Espanha e os primeiros tempos em Portugal, fazia vestidos de alta-costura e bordados, conseguindo forma de sustento para ela e para a mãe.

Seria, no entanto, em Paris que encontraria na Pintura o seu caminho, por necessidade de providenciar para a família. Esposa de Adolfo Greno (1854-1901) conseguiu manifestar um talento superior ao dele, especializando-se na pintura de flores e frutos – as conhecidas naturezas-mortas. Este era um género que via muito pelas exposições e Salons que visitava na capital francesa e que sempre a chamara a atenção. Era, portanto, quase natural que escolhesse seguir esse caminho.

Josefa Greno, sem título, grafite sobre papel, 1891. Fonte: UniversidadeCoimbra.

A sua estreia como Pintora estava guardada para Lisboa, aquando a XIII Exposição da Sociedade Promotora de Belas Artes. A mesma inaugurou a 8 de Junho de 1884 e Josefa apresentou-se como discípula de Adolfo Greno, condição indispensável na época para uma mulher que pretendia seguir o mundo da Arte.

Desde aí, as suas obras revelaram uma artista que dominava a técnica e que sabia como representar o tema escolhido, fazendo uma pintura viva que, aos olhos da época, tornava impossível acreditar que fosse trabalho amador e, acima de tudo, de mulher. As flores, combinadas em arranjos feitos pela própria artista, mostravam um realismo audacioso. Aparecendo associada ao marido como sua discípula, quem via o decair da obra do mesmo não acreditava que tal professor conseguisse ter uma aluna a trabalhar com o alto nível que Josefa apresentava.

Esta exposição teve, então, um grande impacto na vida da pintora que se viu galardoada com a Terceira Medalha. Tornou-se a mais celebrada pintora de flores, roubando o título a Maria Augusta Bordalo Pinheiro (1841-1915), e também conseguiu êxito no campo das vendas, ultrapassando inclusive José Malhoa (1855-1933).

Josefa Greno, Pomba Entre Flores, óleo sobre tela, não datado. Museu de Évora. Fonte: MatrizNet.

Josefa Greno, Natureza Morta – Jarro com Flores, óleo sobre tela, não datado. Fonte: PalácioCorreioVelho.

Josefa Greno, consegue, desde logo, chamar a atenção de alguns nomes importantes que se viriam a tornar verdadeiros apreciadores da sua obra. Destacam-se Fialho de Almeida (1857-1911), Silva Porto (1850-1893) e os irmãos Bordalo Pinheiro.

1886 marca o ano em que regressa definitivamente a Lisboa e participa na sexta Exposição do Grupo do Leão, na qual expõe dezassete obras. Apesar de se considerar que ainda lhe faltava algo para ser uma pintora completa, os críticos viam as suas obras já como algo característico seu, mostrando sempre um trabalho seguro. Josefa Greno era já uma exímia pintora de flores.

É ainda neste ano que passa a integrar o Grupo do Leão, a convite de Silva Porto. Junta-se assim a outras mulheres como Berta Ortigão, Helena Gomes e a já referida Maria Augusta Bordalo Pinheiro, conhecidas como Senhoras Leoas.

Dedicando-se intensamente ao seu trabalho, causou sensação no mundo artístico, conseguindo várias encomendas nas quais vendia as suas obras a um preço elevado, tendo também alguns discípulos e discípulas, como Simão Luís da Veiga (1878-1963) e Júlia Hermínia da Conceição Xavier.

Josefa Greno, Natureza Morta com Uvas e Ruínas, óleo sobre tela, não datado. Fonte: Veritas.

Josefa Greno, Natureza Morta com Melancias, óleo sobre tela, não datado.

Nas suas participações em Exposições continuou a apresentar várias obras, tal como são exemplo as dezanove telas com que participou na XIV Exposição da Promotora, em 1887, e as 21 que levou à Exposição Industrial de 1888. Nesta última, há que salientar o facto de já não se apresentar como discípula de Adolfo Greno, mostrando que já não necessitava dessa muleta para se fazer valer no mundo da Arte, tal como nunca precisou.

No campo pessoal, todavia, continuavam os problemas e Josefa refugiava-se cada vez mais na Pintura, aventurando-se também nos géneros da paisagem e retrato, aos quais não soube transpor a sua técnica, falhando-lhe o domínio da perspectiva. Algumas destas obras foram apresentadas no oitavo Salão do Grupo do Leão, em 1888, e foram alvo de críticas que davam preferência às suas flores.

Fialho de Almeida, que, como já referido, sempre foi apreciador da obra de Josefa Greno, volta a elogiar-lhe o talento aquando a primeira exposição do Grémio Artístico, em 1891, na qual apresenta dezassete pinturas, um pano de leque pintado a guache e um pastel. As suas composições e cores, dispersas por telas de vários tamanhos, continuam a ser os elementos que mais absorvem quem vê as suas obras. Foi considerada a artista de topo na exposição feminina.

Josefa Greno estendeu o Naturalismo, cunhado na Pintura de Paisagem por Silva Porto e Marques de Oliveira (1853-1927), à Pintura de Flores. Tornou-se um nome incontornável deste género só encontrando rival na década de 1890 com as camélias do pintor portuense António José da Costa (1840-1929). Os dois encontram-se no Salão do Ateneu do Porto, em 1894, no qual a pintora expõe três obras.

No ano seguinte, em 1895, abandona o mundo das exposições, pois a situação familiar ocupava toda a mente de Josefa. Em 1899 é quando deixa definitivamente de pintar, seguindo a morte da mãe, já com 80 anos, acontecimento que a abalou profundamente.

Josefa Greno, Natureza Morta, óleo sobre tela, não datado. Fonte: Veritas.

Josefa Greno, Natureza Morta – Jarro com Rosas, óleo sobre tela, não datado. Fonte: PalácioCorreioVelho.

Entre rosas, lilases, mimosas, papoilas, malmequeres, amores perfeitos, peónias e os mais variados frutos, as suas composições são imprevistas e pintadas com espontaneidade. À vista salta a viveza e a graça natural das cores frescas e alegres que se mostram em toques e pinceladas seguros e reveladores da grande técnica que Josefa Greno tinha.

A pintora transmitia beleza e serenidade a partir das suas composições florais, as quais pintava com recurso a pinceladas curtas e algum empastamento de tinta de forma a transmitir a delicadeza das flores e a textura dos ramos.

Nas suas composições equilibradas somos assaltados pelos efeitos de luz e de cor que que se focam nos elementos principais da tela e que, regra geral, são evidenciados pelo contraste com a cor escolhida para o fundo. Com manchas frescas e espontâneas, era comum ver as críticas da época referir que as telas de Josefa Greno eram capazes de fazer sentir o aroma das flores representadas.

Josefa Greno, Vaso de Flores, óleo sobre tela, não datado. Fonte: Invaluable.

Josefa Greno, Natureza Morta, óleo sobre tela, não datado. Fonte: CabralMoncadaLeilões.

Um dos motivos para não sabermos tanto sobre artistas portuguesas desta época prende-se com o facto de que a maior parte das suas obras terem ficado espalhadas por colecções privadas, tornando difícil ou quase impossível o seu acesso por parte do público. Para além disso, foram vários os casos destas artistas, como Josefa Greno, que não tiveram filhos e por isso o seu nome não viu um continuar que lhe pudesse fazer jus e homenagem, criando uma maior dispersão das suas obras.

Tudo isto faz com que, mesmo tendo sido exímia no seu trabalho e admirada por todos, o conhecimento que temos do seu trabalho fique aquém do que seria desejável, sendo ultrapassada pelos homens que sempre encimaram o mundo artístico, mesmo quando não tão originais ou pioneiros. Cabe-nos a nós conseguir recuperar as histórias destas mulheres e atribuir-lhes o seu devido lugar na História da Arte Portuguesa.

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