Simões d’Almeida (sobrinho) e Hilda Puga – A História do Busto da República

Dia 5 de Outubro de 2021, dia de celebrar os 111 anos desde que a República foi implementada em Portugal. Não é, no entanto, sobre os acontecimentos que levaram a isso o tema do presente artigo, mas sim sobre a obra e a pessoa que lhe deu a imagem que associamos de imediato ao mundo republicano português: o busto de uma mulher de barrete e de ombros desnudos.

Assim sendo, importa aqui falar não só sobre a peça que saiu das mãos do escultor Simões d’Almeida (sobrinho), mas também sobre Hilda Puga, a pessoa que deu a cara a este símbolo. Embora já muitos bustos e esculturas de corpo inteiro, como a que se encontra nos dias de hoje no nicho da Presidência da Sala das Sessões, tenham sido realizados com a imagem da República, o primeiro foi esse mesmo.

Simões d’Almeida, Busto da República, gesso, 1908. Fonte: ETCeTALJornal.

Embora a Implantação da República aconteça apenas em 1910, o trabalho de José Simões d’Almeida (sobrinho) (1880-1950) para criar a sua marca identitária vinha a acontecer já desde 1908, seguindo o regicídio do rei D. Carlos e do seu herdeiro, o príncipe D. Luís Filipe. O escultor de Figueiró dos Vinhos não era político, mas, e como tantos outros artistas da época, fez questão de se colocar ao serviço dos ideias republicanos que defendia e em que acreditava, mesmo que esses actos pudessem ter um efeito negativo na sua vida e na sua carreira, sendo que era já um artista consagrado.

Assim, a pedido da comitiva do presidente Anselmo Braamcamp Freire (1849-1921) e do arquitecto Miguel Ventura Terra (1866-1919), aceita moldar um busto para ser colocado na Câmara dos Senadores, no Palácio de São Bento. Como tudo o que envolvia os republicanos nestes anos acontecia maioritariamente em Lisboa, não é de admirar que esta encomenda parta da primeira vereação Republicana da Câmara Municipal da mesma cidade.

Simões d’Almeida (sobrinho) no seu atelier. Fonte: SimõesdeAlmeida.

Este busto deveria, então, ser um símbolo para as ideologias republicanas – liberdade, igualdade e fraternidade -, mas deveria também ser uma imagem fácil de entender por todo o povo. Tinha, portanto, que ser alguém desse mesmo povo. E, deste modo, surge Hilda Puga.

Hilda Puga (1892-1993), nascida em Arraiolos, era, na altura, uma costureira de 16 anos que trabalhava numa camisaria na Rua Augusta, em Lisboa. Simões d’Almeida conheceu-a assim e muito rapidamente pediu para que posasse para ele. Após pedir autorização à mãe da jovem, ficou acordado que Hilda posaria sob duas condições: a progenitora teria que estar presente em todas as sessões e deveria posar vestida. Durante um mês, a jovem passava duas horas por dia no atelier do escultor, ajudando na criação do que seria, então, o primeiro símbolo imagético da República Portuguesa.

José Simões d’Almeida, Busto da República, gesso, 1908. in Ilustração Portuguesa, 5 de Outubro de 1910.
Fonte: ComunicAR.

Hilda Puga no atelier de Simões d’Almeida (sobrinho). Fonte: Expresso.

A mulher de busto esculpido por Simões d’Almeida (sobrinho) evoca uma sensualidade recatada com os ombros e o pescoço despidos e o peito envolto num manto que exibe a esfera armilar ao centro. Apresenta-se resoluta e decidida com o queixo erguido e voltado ligeiramente para o seu lado esquerdo. Uma boca semi-aberta e um olhar sereno, mas carregado de esperança, mostram-nos a vontade de seguir em frente e de acreditar que seria possível alcançar o que desejavam. Tem este aspecto o símbolo do (ainda lento) declínio da monarquia que continuava a imperar absolutamente nas povoações mais pequenas.

É ainda de mencionar que na cabeça, como já referido, a jovem exibe o chamado barrete frígio. A inclusão deste barrete tem, por si só, uma história que vale a pena referir: sendo o busto da República inspirado na imagem da Liberdade da Antiguidade Clássica, o elemento representado deveria ser um pileus (barrete utilizado pelos escravos que eram libertados na Roma Antia). Porém, numa publicação do século XVIII, houve uma confusão entre os dois tipos de barretes e o frígio ganha então o lugar de símbolo associado à República, representando, desde 1906, a ascensão dos republicanos e o seu combate contra o regime monárquico.

José Simões d’Almeida (sobrinho), Busto da República, gesso patinado, 1908. Fonte: SimõesdeAlmeida.

O barrete frígio na primeira página do jornal A Paródia, 10 de Novembro de 1906. Fonte: HemerotecaDigital.

Esta mulher que se tornou o rosto da República era, no entanto, monárquica e católica. Hilda Puga morreu em 1993, no dia em que chegou aos 101 anos e só quando já tinha 93 anos é que revelou ser a inspiração para a peça. Sendo que a mesma mostra alguém com o pescoço e os ombros à vista, teve sempre receio do que poderiam pensar se achassem que ela tinha concordado em posar assim. Não esqueçamos, no entanto, a condição que a mãe da rapariga impôs sobre o modo como ela deveria estar vestida nas sessões, o que levou a que o escultor tivesse que procurar outra pessoa para ajudar a moldar essa parte do busto.

Para além de ser o Busto da República produzido que mais facilmente é associado a este dia, foi ainda reproduzido vezes sem conta em medalhas e moedas, sendo uma das caras do Escudo, cujo uso se iniciou em 1911. O busto de Simões d’Almeida (sobrinho) seria também o primeiro a ser exposto num acto oficial após a Revolução Republicana, mais concretamente nos funerais de Cândido dos Reis (1852-1910) e Miguel Bombarda (1851-1910), realizados a 6 de Outubro de 1910.

Moeda de 1 Escudo, 1929. Fonte: PortugalMoedas.

Apesar de, num concurso de 1911 para a criação da nova imagem da República, o escultor de Figueiró dos Vinhos ficar colocado em segundo lugar, apresentando uma obra semelhante à de 1908, é exactamente a sua peça que se afirma como o ícone republicano mais representativo.

O busto original foi oferecido pelo próprio escultor, em 1911, ao “Clube Figueiroense”, como mostra do seu apreço pela sua terra Natal. Nos dias de hoje, encontra-se no Gabinete da Presidência da Câmara Municipal da mesma vila.

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