O Êxtase de Santa Teresa, de Gian Lorenzo Bernini

Situa-se na Igreja de Santa Maria della Victoria, em Roma, a que é considerada a obra mais escandalosa do escultor Gian Lorenzo Bernini. Falo-vos d’ O Êxtase de Santa Teresa. Nas linhas que se seguem, serão abordadas as características formais desta escultura, mas também o porquê de muitos a verem como acima foi referido, algo que acontece desde o momento em que a peça foi vista pela primeira vez, no século XVII.

Gian Lorenzo Bernini, O Êxtase de Santa Teresa, mármore e bronze, 1647-1652, Igreja de Santa Maria della Victoria, Roma. Fonte: FineArtAmerica.

Gian Lorenzo Bernini (1598-1680) foi um dos grandes nomes da Arte Barroca, tendo monopolizado as encomendas em Itália para o Papa durante a denominada “época áurea”. Na sua obra mostrava uma reminiscência a Miguel Ângelo (1475-1564) e à estatuária da Antiguidade ao mesmo tempo que provava estar atento ao que era realizado em seu redor, com referências a artistas seus contemporâneos como Caravaggio (1571-1610), Annibale Carracci (1560-1609) e Guido Reni (1575-1642).

Esta obra, porém, remete-se para um período de estagnação na carreira do escultor italiano, sendo que se via agora a ser tratado com uma certa indiferença pelo pontificado de Inocêncio X. Bernini tinha 49 anos quando começou a esculpir O Êxtase de Santa Teresa e usou esta encomenda feita pelo Cardinal Federico Cornaro (1579-1653) como forma de demonstrar, uma vez mais, a sua genialidade enquanto artista.

Êxtase: estado de espírito em que o indivíduo é dominado pelas emoções ou pelos sentidos, por vezes com perda da noção da realidade circundante; arrebatamento.
Êxtase místico: estado psíquico no qual o indivíduo se encontra como que transportado para fora de si e do mundo sensível sentindo-se inefavelmente unido ao transcendente.
– in Infopédia.

Santa Teresa d’Ávila (1515-1582), freira e mística espanhola, foi a fundadora da Ordem das Carmelitas Descalças. Foi a primeira Carmelita a ser canonizada, algo que acontece em 1622, e é um dos maiores ícones deste êxtase místico, sendo autora de vários textos nos quais fala deste momento de entrega ao total divino.

Gian Lorenzo Bernini, Auto-retrato, óleo sobre tela, cerca 1623. Fonte: Wikipedia.

Começando pelo fim, não é de estranhar que na altura, e tal como agora, tenham sido muitos os que não souberam reagir à obra e por isso Bernini teve que usar a sua melhor defesa: limitou-se a representar a descrição que a própria Santa fizera na sua autobiografia, Livro da Vida:

Um dia apareceu-me um anjo com uma beleza nunca antes vista. Eu vi na sua mão uma longa lança de ouro cuja ponta parecia ser uma ponta de fogo. Ela parecia penetrar várias vezes no meu coração e perfurar as minhas entranhas.
A dor era tão grande que me fez gemer, muitas vezes, em alta voz, ainda assim foi superando a doçura desta dor excessiva, eu não pude querer livrar-me dela. Nenhuma felicidade terrestre pode dar um prazer assim tão grande. Quando o anjo tirou a sua lança, senti um enorme amor por Deus.

Esculpida entre 1647 e 1652, esta obra de mármore e bronze está localizada na Capela Cornaro, a última à esquerda na Igreja de Santa Maria della Victoria, em Roma. Bernini alcançou com esta obra o expoente máximo do efeito cenográfico barroco, pois conseguiu conciliar as várias artes para formar um todo unitário. A capela onde está a peça assume-se como um palco e as restantes como os camarotes de onde os membros da família Cornaro assistem a tudo.

Capela Cornaro, Igreja de Santa Maria della Victoria, Roma. Fonte: Wikimedia.

Capela Cornaro (pormenor), Igreja de Santa Maria della Victoria, Roma. Fonte: Wikimedia.

Pelos raios dourados, colocados no topo da capela de mármore e estuque pintado, cai uma luz que ilumina toda a cena, criando um foco numa acção principal, tal como acontece no Teatro. Aqui, vemos Santa Teresa de Ávila e o Cupido sobre uma nuvem que, mesmo sendo de mármore, se mostra a flutuar.

Santa Teresa é representada desfalecida, em total abandono do seu corpo e do seu espírito, encontrando-se num estado intermédio entre o prazer e a dor, sentidos que se confundem até que a Santa desfalece de emoção. A sua mão e pé esquerdos caídos mostram-na num estado total de entrega que muitos vêem como sendo uma representação mística repleta da tal carga erótica. Os seus olhos estão semi-cerrados e voltados para o céu e os seus lábios parecem querer deixar escapar um som, um gemido.

À sua frente, está o Cupido que tem a lança na mão direita e que com a esquerda afasta a túnica de Santa Teresa, tornando mais simples o processo de trespassar o seu coração. Esta lança simboliza o amor de Deus. A sua expressão é de regozijo, mostrando-se como alguém que conseguiu o seu propósito e que tem o poder de toda a situação.

Há um contraste entre o quão pesada se assume a figura de Santa Teresa, devido às vestes e ao seu corpo desfalecido, e o quão leve se apresenta o Anjo que está no ar com a asas levantadas e com um pequeno tecido esvoaçante. O contraste palpável e visível entre o terrestre e o celestial.

Mas não são essas vestes que tiram a sensibilidade à peça, muito pelo contrário, pois as mesmas, com os seus vincos e dobras acompanham os movimentos do corpo que cobrem, acentuando os efeitos expressivos da escultura. Ainda nessa nota de sensibilidade temos os corpos alongados e as já referidas faces expressivas das personagens, dois dos traços mais característicos da obra de Bernini.

A carga dramática desta escultura, bem como a emoção e o movimento que mostra, tornam-a um dos melhores exemplos da Arte Barroca.

Gian Lorenzo Bernini, O Êxtase de Santa Teresa, mármore e bronze, 1647-1652, Igreja de Santa Maria della Victoria, Roma. Fonte: WalksinRome.

Gian Lorenzo Bernini, O Êxtase de Santa Teresa, mármore e bronze, 1647-1652, Igreja de Santa Maria della Victoria, Roma. Fonte: TheArtPostBlog.

Gian Lorenzo Bernini, O Êxtase de Santa Teresa, mármore e bronze, 1647-1652, Igreja de Santa Maria della Victoria, Roma. Fonte: TheArtPostBlog.

Gian Lorenzo Bernini, O Êxtase de Santa Teresa, mármore e bronze, 1647-1652, Igreja de Santa Maria della Victoria, Roma. Fonte: MyStudios.

Embora Bernini tenha feito uma interpretação do que leu, a sua obra é comummente descrita com auxílio das palavras de prazer e orgasmo, sendo que a expressão desta Santa Teresa d’Ávila é vista como resultado de algo erótico.

Mas deixando agora de parte esse lado carnal que entra em disputa com o espiritual, esta obra mostra tudo menos a frieza do mármore. Uma obra teatral concebida para uma Igreja Católica que tentava assim combater a expansão do Protestantismo, resultado da Contra-Reforma, usando esta imagem, como muitas outras, para ilustrar o quão poderoso é alcançar e ver Deus. Servindo a Igreja Católica, Bernini seguia as determinações da mesma que ditavam que a arte religiosa deveria ser inteligível, realista e servir, acima de tudo, como um estímulo emocional à religiosidade.

Gian Lorenzo Bernini, O Êxtase de Santa Teresa, mármore e bronze, 1647-1652, Igreja de Santa Maria della Victoria, Roma. Fonte: Wikipedia.

Apesar de tudo o que a expressão de Santa Teresa nos possa indicar quando vemos esta obra, há que reter que todos os seus pormenores convergem numa só intenção, a de demonstrar o acesso ao mundo do celeste através da comoção e do deslumbramento, seja este interior e espiritual ou exterior e visível nas nos gestos.

É inegável que, com O Êxtase de Santa Teresa, Bernini conseguiu efectivamente mostrar a sua genialidade, sendo que a leitura ambígua entre o carnal e o espiritual continua até aos dias de hoje, sendo tema em vários colóquios e encontros de História da Arte.

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