Desenhos de Mestres Europeus em Colecções Portuguesas II: Itália e Portugal | Museu Nacional de Soares dos Reis

No passado dia 30 de Setembro, o Museu Nacional de Soares dos Reis, no Porto, inaugurou uma nova exposição – Desenhos de Mestres Europeus em Colecções Portuguesas II: Itália e Portugal. Esta parceria do próprio Museu com o Círculo Dr. José de Figueiredo – Amigos do MNSR resulta numa mostra de cerca de cem desenhos de autoria de mestres portugueses e italianos, sobre a qual incide o presente artigo.

Como o próprio título indica, esta exposição inclui obras de várias colecções portuguesas, tanto públicas como privadas, algumas classificadas como Tesouros Nacionais, e retoma o percurso iniciado com as exposições Desenhos de Mestres Europeus nas Colecções Portuguesas, de 2000-2001, e Cinco Séculos de Desenho na Colecção das Belas-Artes, de 2011. A curadoria ficou a cargo de Nicholas Turner, um dos mais prestigiados especialistas internacionais na área do Desenho.

É uma viagem que nos leva desde o Renascimento Italiano até à Escola Portuguesa do século XIX, fazendo uma reinterpretação das relações artísticas entre Portugal e Itália através da mostra de obras inéditas. Os mestres italianos estão presentes em Portugal não só por as suas obras fazerem parte destas colecções, mas também pela inspiração que os mestres portugueses retiraram ao conhecer os seus trabalhos enquanto visitavam ou estudavam neste país.

A influência entre ambos os países é notória, sendo que tanto vemos Giuseppe Cades (1750-1799) a ilustrar um momento da História de Portugal com Santa Isabel de Portugal reconciliando o seu marido, D. Dinis, com o seu filho Afonso, como também vemos motivos italianos a ser reproduzidos por mãos portuguesas para memória futura, como é o caso de Livro de Estudo Aberto: Rapto de Europa e Mulher apontando para a esquerda, protegendo uma criança por José Teixeira Barreto (1767-1810).

Giuseppe Cades, Santa Isabel de Portugal reconciliando o seu marido, D. Dinis, com o seu filho Afonso, não datado, MNAA.

José Teixeira Barreto, Livro de Estudo Aberto: Rapto de Europa e Mulher apontando para a esquerda, protegendo uma criança, grafite sobre papel, não datado, FBAUP.

O que estas cerca de cem obras nos mostram é a importância que o Desenho tem. Isto, tal como é referido no texto que abre a sala, era algo defendido por Giorgio Vasari (1511-1574), que considerava o Desenho como o “pai de todas as artes”, sendo que é a partir dele que aparecem as primeiras ideias para um projecto, mas é também ao desenhar que nos podemos expressar de forma livre e criativa ou registar um momento só para mais tarde relembrar. Todos o fazemos.

E é mesmo isso que Desenhos de Mestres Europeus em Colecções Portuguesas II: Itália e Portugal nos transmite. Por entre os vários estudos preparatórios para o que viriam a ser, sobretudo, Pinturas e Esculturas, mas também propostas para ordenamento urbano, há de igual modo registos de paisagens e de momentos do quotidiano. Por entre desenhos mais detalhados de gestos e faces, há composições rápidas que mostram essencialmente como será o aspecto final das obras. Por entre retratos ternurentos de crianças com animais não deixa de haver lugar para registar o momento mais caricato de um homem que cai de uma mula.

Linhas e aguadas que nos transportam para outros tempos e outras realidades. Linhas mais rápidas e quase agressivas que movem a nossa vista com a mesma rapidez; linhas mais suaves e demoradas que nos fazem absorver todos os detalhes das pessoas ou vistas desenhadas e que parecem ter sido fotografadas, tal é o pormenor conseguido.

Anónimo Escola de Veneza, Paisagem com um Cavalo Emergindo de Rio, pena e tinta castanha, colecção privada.

Francisco Vieira Portuense, Livro de estudo Aberto: um Homem a cair de uma Mula, grafite sobre papel, não datado, MNAA.

Há, claro e como já mencionado, lugar para temas mais comuns, mas há uma forte presença de motivos religiosos, bíblicos e mitológicos, algo que não surpreende, principalmente tendo em conta os séculos a que se reportam as obras, bem como a forte ligação que ambos os países sempre tiveram com a Igreja.

Também a presença da Antiguidade Clássica é notória nestes desenhos, sendo que foi na altura do Renascimento que se deu a grande redescoberta da Arte Antiga. Nas obras italianas ela manifesta-se como um registo daquilo que os artistas iam conhecendo, nas portuguesas representa a tal influência que os nossos desenhadores recolhiam nas suas viagens a Itália.

É de destacar que esta é uma excelente oportunidade para ver ou rever Rapariga Lavando os pés a uma criança: um estudo separado das nádegas da criança, o único exemplar de Leonardo da Vinci (1452-1519) existente em Portugal, que integra o acervo do Museu da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto e que foi exposto pela última vez há dois anos e apenas durante 24 horas. É com ela que se inicia o percurso expositivo. De evidenciar também os estudos visionários de Domingos Sequeira (1768-1837), que, exilado em Roma, passou os seus últimos dias a pintar as quatro telas conhecidas como “série Palmela”. São os desenhos a ela referentes que encerram a exposição.

Leonardo da Vinci, Rapariga Lavando os pés a uma criança: um estudo separado das nádegas da criança, pena e tinta castanha com aguada castanha sobre giz preto, não datado, FBAUP.

Domingos António Sequeira, Estudo para o “Juízo Final” com Cristo entronizado sobre as nuvens, acompanhado por anjos e putti, pena e tinta castanha com esfuminho sobte grafite, não datado, Banco de Portugal.

A exposição pode ser visitada até ao dia 31 de Dezembro, de Terça-Feira a Domingo, das 10h às 18h.
Existe também um programa paralelo que conta com várias visitas guiadas nos dias 9 de Outubro, 13 e 27 de Novembro, 11 e 18 de Dezembro, às 11h, e excepcionalmente nos dias 28 de Outubro, 11 e 25 de Novembro e 9 de Dezembro, às 17h30.
Será ainda divulgado um programa de conferências, bem como actividades educativas.
Para mais informações, podem consultar: Museu Nacional Soares dos Reis – Facebook.

Imagem de Topo: Domenico Zampieri, chamado Domenichino (?cópia a partir de Giovanni Francesco Grimaldi), Paisagem com o Julgamento de Midas (detalhe), pena e tinta castanha, não datado, colecção privada.

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