Germano Arquivo | Museu da Cidade – Casa do Infante

O dia 29 de Outubro de 2021 foi um dia de celebrações. Com a inauguração da exposição Germano Arquivo no Gabinete do Tempo, na Museu da Cidade – Casa do Infante, no Porto, assinalou-se não só o 90.º aniversário de Germano Silva, mas também a recente doação que o mesmo fez à Câmara Municipal do Porto. São mais de mil documentos que agora pertencem um pouco a todos nós, alguns deles que podemos ver neste espaço.

Germano Silva, jornalista, historiador e bibliófilo, nasceu a 13 de Outubro de 1931, em Penafiel, mas, ainda nos braços da mãe, logo veio para o Porto e de cá não mais saiu. Começou o seu trabalho como jornalista estagiário em 1956, área na qual se tornou profissional em 1959, escrevendo um sem número de crónicas sempre ligadas à história da cidade portuense. É com esta escrita dedicada à Invicta que nasce o amor por reunir documentos a ela referentes. Uma vontade de se aperfeiçoar enquanto jornalista, sendo uma forma de conhecer bem a cidade.

E, assim, ao longo dos últimos 70 anos, numa conciliação entre o jornalismo e a investigação histórica, Germano Silva dedicou-se a procurar documentos que reflictam a vida do Porto e de quem a habita, conseguindo criar um reflexo da sua dedicação à cidade e à sua história. São centenas de objectos que adquiriu em alfarrabistas, antiquários, leilões e feiras, não esquecendo, no entanto, os vários elementos que lhe foram entregues em mãos.

Esta doação à Câmara Municipal do Porto é composta por 1372 objectos entre manuscritos, álbuns fotográficos, cartazes, guias de viagens, monografias impressas, correspondência recebida, recortes de jornais, documentos raros e inusitados. Estes traçam o panorama da cidade desde o século XVI ao século XX, com documentos que variam entre relatos de acontecimentos históricos, ligados a personalidades e também alguns remetentes às gentes desconhecidas da terra que contribuíram para o seu enriquecimento.

Estes objectos não são, no entanto, os primeiros que Germano doa à Câmara, sendo que fez uma primeira doação em 2001 que compreendia 547 documentos. Daqui resultou também uma exposição, O Porto no Coração, na Casa do Infante, em 2016.

Tenho um sentimento de partilha muito activo. Não podia permitir que este espólio se dispersasse, ele tinha de ficar aqui. Tive uma oferta, mas entendi que devia ficar à disposição da comunidade. O melhor património desta cidade são os seus cidadãos.

– Germano Silva

Ordens do dia: Exército do Norte, 1820. Conjunto de 7 documentos com as ordens do dia de vários Quartéis Generais para o Exército do Norte durante a Revolução Liberal.

Cartas a António Fernandes Coelho, 1836-1885. Correspondência de amigos, familiares e de várias personalidades políticas e literárias, nomeadamente, Almeida Garrett.

Germano Arquivo celebra, então, a doação e mostra um pouco do intuito de assegurar a posteridade do arquivo que será estudado, tratado e conservado pelo Arquivo Histórico Municipal para que possa ser disponibilizado aos cidadãos, divulgando-o e contribuindo para um maior conhecimento da cidade.

A exposição, para além dos documentos expostos, é acompanhada por áudios de Germano Silva nos quais fala sobre a sua metodologia e revela o contador exímio de histórias que é, referindo a origem do documento, ao que se refere e a que momento histórico/civilizacional se remete. Esta particularidade é uma amostra da proximidade a Germano com que a exposição foi desenvolvida, não descurando a sua paixão e conhecimento.

O percorrer desta exposição assemelha-se, assim, a uma visita a casa de amigos que nos mostram um objecto seu e nos contam onde o adquiriram, porquê e qual o significado que o mesmo tem. Esta torna-se uma experiência pessoal que nos permite criar cumplicidade com o coleccionador que podemos, assim, ouvir na primeira pessoa, sendo uma presença sentida para além dos objectos. As narrações que vão surgindo fazem-nos saltitar pela sala à procura dos objectos que são mencionados, de modo a que tenhamos à nossa frente a referência visual daquilo que nos é dito.

Outro detalhe reside no facto de algumas paredes da sala serem habitadas por vídeos que nos mostram com maior pormenor alguns dos documentos expostos.

Alvará Régio que o S.M.F. o Snr. D. Pedro V concedeo a Associação Philantropica Portuense dos Sapateiros e mais artistas que trabalham em peles cruas ou curtidas, 1856-1873.

Festas de Paranhos: 10.º – 1951-1960, 1960. Revista com número comemorativo do 10.º aniversário da comissão de festas de Paranhos, elenca todos os membros da comissão das festas de Paranhos de 1960, programas das festas e uma reportagem sobre o Hospital de São João.

Os objectos escolhidos para a exposição são os que se revelam com maior destaque no espólio. O documento mais antigo que integra este arquivo pertenceu aos Viscondes de Vilarinho de São Romão e fala da aquisição de uma casa, no século XVI. Já referindo um dos temas mais recorrentes, claro que a guerra é um deles com, por exemplo, um documento no qual se davam as instruções sobre a defesa em caso de ataque aéreo.

O arquivo reunido por Germano Silva revela uma preocupação global com a história da cidade, nunca esquecendo os pequenos pormenores que também a constituíram e construíram. O jornalista encontrou aqui uma forma de guardar registos do passado como forma de entender o presente e o futuro.

Nota-se um fio condutor nas opções do coleccionador, linhas de força, pontos de interesse. O tema das liberdades, uma procura da alma portuense (as curiosidades, aparentemente triviais), a história da cidade (a toponímia, os monumentos, os bairros, os acontecimentos, as figuras marcantes ou personagens anónimas, etc.).

– Rui Moreira, Presidente da Câmara Municipal do Porto

Instruções a observar em casos de ataques aéreos, 1941. Instruções dirigidas ao pessoal das fábricas, dos estabelecimentos comerciais e industriais, dos hotéis e pensões, pelas viaturas em trânsito e finalmente pelos habitantes das cidades e vilas, se os aviões utilizarem bombas incendiárias. Edição da União de Grémios de Lojistas do Porto.

Germano Silva revelou sempre esta vontade de conhecer a história e os detalhes de cada recanto da cidade portuense não só como forma de os transmitir, mas também de incentivar a que as pessoas vejam as coisas com outros olhos e tenham um maior interesse em preservar. Visitar a exposição Germano Arquivo faz-nos perceber as alterações pelas quais a cidade do Porto passou e quais os seus elementos característicos que vão sobrevivendo ao longo do tempo.

Sou um curioso da história do Porto e divulgador das histórias do Porto.

– Germano Silva

Germano Arquivo pode ser visitada até 16 de Janeiro de 2022, no Gabinete do Tempo, no Museu da Cidade – Casa do Infante, de Terça-Feira a Domingo das 10h às 17h30.
A entrada é gratuita.
Para mais informações: Germano Arquivo, Casa do Infante.

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