Casa Guerra Junqueiro | Porto

O Museu da Cidade do Porto é um museu municipal que alberga 17 extensões/estações por toda a cidade. Estas extensões dividem-se entre espaços arqueológicos, espaços sonoros, espaços ajardinados, mas, e sobretudo, espaços culturais. A estação número dez fica bem no centro histórico da invicta e é dedicada a um homem quase esquecido no panorama cultural e político português: Abílio Manuel Guerra Junqueiro.
Esta é a Casa Guerra Junqueiro.

Antes de nos passearmos pela Casa, falemos do homem que lhe dá nome.

Abílio Manuel Guerra Junqueiro nasceu a 15 de Setembro de 1850, em Freixo de Espada a Cinta, filho do comerciante José António Junqueiro e de Ana Maria Sacramento Guerra, que faleceu quando o filho tinha apenas três anos. Homem sempre ligado às suas origens e à terra, foi um pouco de tudo: poeta, funcionário público, político, filósofo, viticultor, coleccionador, entre outros. A poesia foi, além da sua vertente política, o que mais o destacou na época, tendo publicado os primeiros poemas com apenas 14 anos, sendo, desde logo, visto como um dos futuros grandes escritores do país. Destacou-se no Realismo, o movimento literário que reproduz a sociedade e a vida política da segunda metade do século XX.

Depois do ensino preparatório em Bragança, inscreve-se, em 1866, no curso de Teologia na Universidade de Coimbra, mas, passados dois anos, muda para o curso de Direito, o qual termina em 1873.
Em 1880, casa com Filomena Augusta, na cidade de Viana do Castelo. Não se sabe com certeza, mas pensa-se que foi a partir desta altura que se dedicou verdadeiramente a ser coleccionador, tendo investido parte do dinheiro que recebeu como dote de casamento, começando a coleccionar compulsivamente, sempre que o orçamento assim lhe permitisse.

Enquanto político, começou, em 1878, no Partido Progressista e mais tarde seguiu com os republicanos, sendo mesmo um dos protagonistas da vida social e política portuguesa da época. A sua poesia dita panfletária foi um dos elementos que propiciou à criação do elemento revolucionário que está por trás da Implantação da República, principalmente com obras como Finis Patriae (1890) e Pátria (1915) que contribuíram, cada uma a seu tempo, para o grande descrédito da Monarquia.
Mantendo a já mencionada ligação às suas origens, vai ser sempre muito vocal em relação ao apoio que deveria ser dado aos agricultores, ameaçando encabeçar um levantamento nacional.
Após um discurso na Câmara dos Deputados, em 1981, leva a crer que vira as costas ao mundo político, mas nunca o faz, por considerar que o país precisava de si e da sua voz.

Nos seus últimos anos, torna-se mais introspectivo, mas sem nunca pôr de parte a acção cívica. É nesta altura que se torna agricultor na sua Quinta da Botoca, no Douro, reforçando a sua ligação à terra.
Guerra Junqueiro morre, em Lisboa, a 7 de Julho de 1923. O seu enterro foi como que uma manifestação pública do apreço que existia por ele na época.

Como referido, pensa-se que foi após o seu casamento que se tornou um ávido coleccionador. Guerra Junqueiro tinha uma grande paixão por arte e por antiguidades, percorrendo o país, e muitas vezes Espanha, em busca de peças, comprando o que queria e vendendo o que lhe desse algum lucro. Chamava a estes momentos as suas “crises de ferro-velhice” e dotado, digamos assim, de uma excelente capacidade para descobrir peças únicas e de marcada qualidade.
Este seu lado de coleccionador é muitas vezes esquecido e até desvalorizado, mas Guerra Junqueiro foi efectivamente um homem que deu muito valor à Arte e aos artistas, tendo interesse em compreender as mentes que levavam à criação das mais variadas peças. Tinha ainda o sonho de ter uma casa que servisse como local de exposição de todos os objectos que coleccionou ao longo dos anos.

A Casa Guerra Junqueiro serve esse propósito.

A casa, projecto de autor desconhecido, é um exemplar da arquitectura civil oitocentista barroca, datada do segundo quartel do século XVIII, e foi mandada construir por Domingos Barbosa, cónego magistral da Sé do Porto e primeiro proprietário da casa.
Uma construção que integra duas torres laterais da fachada da Sé do Porto, com planta rectangular, com três frentes e com uma grande simetria. O seu estilo remete para os trabalhos de Nicolau Nasoni (1691-1773), mas tudo aponta para que seja efectivamente uma obra de um seu discípulo e arquitecto português, embora nenhum destes dados seja garantido.

É em 1934 que a habitação chega à família Guerra Junqueiro, mais precisamente às mãos da filha Maria Isabel Guerra Junqueiro de Mesquita Carvalho (1880-1974), que mais tarde, em 1940, a doa à Câmara Municipal do Porto, juntamente com o espólio artístico que o poeta coleccionou ao longo da vida. Maria Isabel comprou a casa a uma familiar do marido, Luís Pinto Mesquita Carvalho, tendo já em mente que este pudesse ser o refúgio para a colecção do pai, indo de encontro à sua vontade.

A Casa Guerra Junqueiro é, então, inaugurada a 19 de Junho de 1942. Tendo Guerra Junqueiro falecido em 1923, é um facto que nunca habitou a casa, mas esta reconstitui o ambiente e a disposição dos objectos daquela em que efectivamente morou aquando a sua estadia no Porto, na Rua de Santa Catarina. As divisões que podemos visitar centram-se sobretudo no lado mais público da sua casa, espaços nos quais o poeta expunha as suas peças de Artes Decorativas, deixando o lado privado de fora, tal como acontece com o quarto, por exemplo.

Cada peça era uma palavra e um conjunto de peças fazia um frase e várias frases constituíam um poema.

– Guerra Junqueiro.

Na Casa Guerra Junqueiro podemos ver as mais variadas colecções, com peças nacionais e estrangeiras de períodos compreendidos entre os séculos XV e XIX: cerâmica, metal, ourivesaria, escultura, mobiliário, tecidos e tapeçarias, arte sacra, faiança de Viana do Castelo, pratos de Nuremberga, vidros e cristais, armas antigas, pinturas.
Estas peças chegaram ao museu de três formas: na sua maioria, pela doação feita pela filha e pela mulher do poeta; depois também a partir de aquisições feitas pela Câmara Municipal do Porto, de forma a complementar a colecção; e ainda algumas peças, como a colecção de escultura, portuguesa e estrangeira, e parte da colecção da arte do metal (cruzes, turíbulos, almofarizes), que são parte de um depósito do Museu Nacional de Arte Antiga, representando um legado que o poeta deixou à instituição lisboeta, o qual preenche metade de uma das suas salas de exposição.

Todas estas formas de aquisição serviram para tornar a reconstituição da casa do poeta o mais fiel possível, no entanto, há que ressalvar que a colecção de ourivesaria se apresenta de uma forma diferente do que acontecia na casa original, sendo que aí fazia parte da Sala do Fumo, ambiente que não foi possível recriar. Assim, as peças foram estudadas e classificadas e apresentam-se ao público de forma temática e por estilos, havendo a intenção de a celebrar como Arte em Portugal.

Esquerda: Banca de ourives, madeira e ferro, início do século XX.
Direita: Cofre, madeira lacada a preto com embutidos de madre pérola e decorações a ouro e prata em pó, c. 1950.

Depois de passarmos o portão, e antes de entrarmos no edifício propriamente dito, temos acesso a um pátio ajardinado que nos transporta imediatamente para a vivência romântica da época. Aqui, à esquerda, somos recebidos por uma escultura de Guerra Junqueiro, de autoria de Leopoldo de Almeida, que nos dá as boas-vindas e que observa a casa, mostrando-se sempre atento, como quem não quer a coisa, à sua colecção e também a quem a visita.

Após um pequeno átrio no rés-do-chão (com algum mobiliário imponente e peças decorativas nas paredes) e da colecção de ourivesaria no primeiro andar, chegámos ao segundo piso, denominado de Andar Nobre, no qual há então a recriação da casa. As cinco salas apresentadas dividem-se da seguinte forma:
Sala D. Maria/Sala da Família, na qual vários elementos remetem para a vivência familiar, como acontece com a exposição de fotografias do poeta;
Sala de Jantar, onde Guerra Junqueiro se reunia com amigos e personalidades da época e na qual podemos ver uma interpretação da sua colecção de faiança;
Sala D. João V, a sala que mostra o luxo e o exotismo da época a que pertenceu o poeta e exotismo, albergando mobiliário, panos de armar e a sua colecção de cerâmica oriental;
Sala Catedral, que tem este nome, pois Guerra Junqueiro considerava a sua casa como sendo a sua catedral. Aqui vemos muitas peças ligadas à religião (o que vinha comprovar como era um homem religioso, algo que muitos não acreditavam na época, pois não tinha problema em escrever textos anticlericais), com grande sentido estético e de uma grande devoção e espiritualidade;
Saleta, na qual há uma continuação dos temas apresentados na Sala Catedral.

Embora Guerra Junqueiro não tenha percorrido os corredores e salas desta casa em específico, conseguimos sentir a sua presença em cada uma das peças que adquiriu ao longo da sua vida, perceber que tipo de obra mais lhe interessava e quais as colecções que tinha mais gosto em ver crescer. Uma casa que mostra o elemento familiar e que, por isso, nos recebe como se nos deslocássemos à casa de um amigo. Há esse ambiente acolhedor que se reflecte ainda na colocação de algumas peças como se estivessem ainda a ser usufruídas na sua totalidade, especialmente na Sala de Jantar, e não apenas para ser observadas.

Em qualquer uma das divisões somos acompanhados por diversos painéis informativos nos quais podemos saber todos os detalhes das peças expostas, elementos que nos ajudam a perceber a diversidade que alberga a colecção de Guerra Junqueiro, tanto no tipo de objectos, como nas suas origens e períodos de criação.
É ainda importante referir que estas peças que o poeta foi reunindo ao longo da sua vida serviram também como fonte de inspiração para a sua escrita, chegando mesmo a dedicar vários poemas às suas colecções.

(…) com mil sacrifícios fiz da minha casa um santuário, a minha casa que é uma obra só minha, e onde não há objecto que não seja uma palavra (…)

– Guerra Junqueiro

Leopoldo de Almeida, Guerra Junqueiro, bronze, 1970.

Sala D. Maria/Sala da Família.

Sala de Jantar.

Sala D. João V.

Sala Catedral.

Saleta.

O espaço que podemos visitar nos dias de hoje não é, no entanto, exactamente igual ao que era quando a filha do poeta o comprou, tendo sido já alvo de duas obras de requalificação.
Entre 1991-19962 é requalificada pelo arquitecto Alcino Soutinho e assim adquire salas para exposições temporárias (sob o nome Gabinete do Tempo), área de reservas, gabinetes técnicos, loja e cafetaria.
Em 2017, é alvo de novas intervenções, desta vez levadas a cabo pelo arquitecto Camilo Rebelo. Esta sua mais recente reabilitação é a primeira intervenção concluída no âmbito da candidatura submetida pela Câmara Municipal do Porto ao programa Norte 2020, que tem como objectivo a requalificação de várias estruturas integradas na Rede Portuguesa de Museus.

Tanto a Casa Guerra Junqueiro como a Fundação Maria Isabel Guerra Junqueiro e Luís Pinto Mesquita Carvalho servem como promotores de divulgação da vida e obra de Guerra Junqueiro, as quais foram, a certa altura, quase esquecidas e que, por isso, merecem uma nova revisão e reavivar da memória deste homem como figura importante do panorama artística, social e político da época.
Abílio Manuel Guerra Junqueiro foi uma pessoa à frente do seu tempo, sendo os seus escritos e pensamento actuais nos dias de hoje e ainda dotados de se fazer valer no futuro.
O legado que o poeta e a família deixam à cidade do Porto é de uma enorme generosidade para com os seus habitantes e visitantes.

Galheteiro, cerâmica Viana do Castelo, finais do século XVIII/inícios do século XIX.

Armário holandês (detalhe), carvalho no Norte e ébano, séculos XVI/XVIII.

Esquerda: A Virgem e o Menino, calcário policromado, Mestre das Senhoras Esguias – Coimbra, finais da segunda metade do século XIV.
Direita: A Virgem em Majestade, madeira dourada estofada e policromada, Península Ibérica, século XIV.

Elmo de Viseira, aço, Alemanha, primeira metade do século XVII.

A Casa Guerra Junqueiro pode ser visitada de Terça-Feira a Domingo, das 10h às 17h30.
Bilhete geral tem o custo de 4€ e há vários descontos aplicáveis. As visitas livres, havendo visita guiada todas as Terças às 11h e também sob marcação.
Para mais informações: Museu da Cidade – Casa Guerra Junqueiro.

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