Lente Feminina | Centro Português de Fotografia

No dia 5 de Março, o Centro Português de Fotografia, no Porto, inaugurou a sua mais recente exposição. Lente Feminina presta homenagem a algumas das mulheres fotógrafas representadas na Colecção Nacional de Fotografia, ocupando duas das salas da Antiga Cadeia da Relação do Porto. Esta mostra insere-se no âmbito da participação da Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas na Estratégia Nacional para a Integração e Não Discriminação – Portugal + Igual (2018-2030) cuja temática para 2022-2025 é a não discriminação em razão do sexo e de igualdade de género.

Lente Feminina mostra a alteração que o “papel das mulheres” sofre, sobretudo a partir do final do século XIX e do início do século XX, quando as mesmas deixam de estar apenas circunscritas às lides domésticas e ao papel de esposa e mãe. Estes paradigmas são postos em causa devido à emancipação da mulher e ao seu envolvimento em diversas áreas sociais, tal como acontece, por exemplo, durante as duas Grandes Guerras, devendo elas assumir os cargos que os homens abandonam para combater. Ganham uma nova liberdade e independência.

Essa independência leva a que muitas queiram seguir os caminhos dito masculinos, onde antes nunca uma mulher tivera oportunidade de se mostrar ou fazer carreira tão afincadamente como um elemento do sexo oposto. A Arte é um desses exemplos e, claro está, a Fotografia não fica de fora.

Uma exposição que tem o intuito de homenagear as mulheres fotógrafas representadas na Colecção Nacional de Fotografia, cujas práticas individuais contribuíram para a excelência da narrativa fotográfica e romperam com conceitos preconcebidos de uma profissão dominada pelos homens.

– texto da exposição

Como referido, a exposição divide-se em duas salas. A primeira é dedicada à Fotografia impressa de modo normal, com todas as imagens reproduzidas a preto-e-branco. É uma sala de histórias, locais, tempos e pessoas.
A segunda sala já nos revela modos mais experimentais com trabalhos que não se ficam apenas pela disciplina fotográfica combinando-a com outras técnicas e materiais.
Ao todo, são 27 as fotógrafas aqui representadas, contando com diversas origens e com focos de trabalho distintos, mostrados em registos diferentes que também eles ajudam a destruir os pré-conceitos associados à profissão nas mais diversas áreas de interesse da Fotografia.

Temas desde a fotografia de guerra, onde se insere o trabalho de Margaret Bourke-White (1904-1971), a primeira mulher correspondente de guerra que registou momentos da Grande Depressão e do Holocausto; já Berenice Abbott (1898-1991), ainda dentro desta temática, é responsável por mostrar as alterações que decorreram nas ruas de Nova Iorque, após as duas Grandes Guerras.
Em relação a locais e povos específicos, numa representação da vida quotidiana, temos, por exemplo, o retrato dos ciganos católicos por Cristina Garcia Rodero (n.1949); o registo dos trabalhadores afro-americanos nas plantações do sul dos Estados Unidos da América, entre 1928 e 1934, por Doris Ulmann (1882-1934); já Elza Lima (n.1952) retrata a Amazónia, inspirando-se na sua cultura local, mitologias e histórias; de Inês Gonçalves (n.1964) é-nos apresentada uma série de retratos de habitantes de Cabo Verde; e Rosa Reis (n.1949) que captura imagens da capital portuguesa, bem como de alguns operários em fábrica.
Há ainda espaço para modos distintos de pensar e construir a fotografia. Julia Margaret Cameron (1815-1879), por exemplo, incorporou temas místicos e literários nos seus retratos oníricos, resultando em trabalhos pouco convencionais; a obra de Flor Garduño (n.1957) é muito focada na teatralidade, tanto de objectos (naturezas-mortas) como de pessoas; Edith Tudor Hart (1908-1973), discípula da Bauhaus e espia a serviço da União Soviética, trabalhou com o intuito de devolver à Arte uma missão social.

Rosa Reis, sem título, gelatina e sais de prata, não datado.

Esquerda: Ida Kar, Maria Helena Vieira da Silva, artista, cristais e sais de prata, 1960.
Direita, em cima: Flor Garduño, Guardiã da Porta, Portugal, gelatina e sais de prata, 1995.
Direita, em baixo: Flor Garduño, Alma do Purgatório, Portugal, gelatina e sais de prata, 1995.

Esquerda: Elza Lima, Rio Trombetas, gelatina e sais de prata, 1998.
Direita: Elza Lima, Periferia de Belém, gelatina e sais de prata, 1992.

No mundo da Fotografia relacionada com outras técnicas e matérias podemos destacar, por exemplo, as obras de Helena Almeida (1934-2018) que nos comunicam uma relação entre corpo e espaço, atravessando as tais fronteiras disciplinares ao aliar imagem fotografada à Pintura (neste caso), trabalho que lhe valeu a afirmação como uma das artistas mais marcantes do século XX. Há ainda o caso da peça de Nirvana Paz Cortés (n.1976), realizada com recurso à Cianotipia (processo de impressão fotográfica em tons de azul com recurso a químicos e à luz do sol).
Ambos os casos procuram mostrar a Fotografia como objecto de Arte Contemporânea.

Tanto as obras destas doze fotógrafas aqui destacadas como as das restantes quinze são imagens que nos levam para tempos e espaços específicos e que mostram, tal como já sabemos, que as mulheres conseguem tornar também delas algo que antes se via como sendo um mundo exclusivo dos homens. Há a desconstrução do “olhar masculino” como único válido, sendo que a Lente Feminina consegue preocupar-se com os mesmos temas e retratá-los tal como são sem floreados ou adornos. É um olhar igualmente válido.

Esquerda: Helena Almeida, Dentro de Mim #2, tinta acrílica sobre gelatina e sais de prata, 1998.
Direita: Helena Almeida, Dentro de Mim #1, tinta acrílica sobre gelatina e sais de prata, 1998.

Nirvana Paz Cortés, A Sacrificada (da série Hermanas), cianotipia, não datado.

Lente Feminina pode ser visitada no Centro Português de Fotografia, no Porto, até ao dia 22 de Maio, de Terça-Feira a Sexta-Feira, das 10h às 18h, e ao fim-de-semana, das 15h às 19h.
A entrada é gratuita.
Para mais informações: Centro Português de Fotografia.

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