Dia do Trabalhador em Seis Obras Portuguesas

O Dia do Trabalhador é assinalado a 1 de Maio como forma de homenagem a uma manifestação de trabalhadores que teve lugar em Chicago, nos Estados Unidos da América, em 1886. Desde aí, foram vários os países que assinalaram a data, mas apenas a partir de 1919 é que a mesma foi elevada a feriado nacional, algo que aconteceu primeiramente em França. Em Portugal, o mesmo só aconteceu após o 25 de Abril, por isso em 1974.
Este dia não é só a celebração dos direitos dos trabalhadores, mas também o resultado de lutas e conquistas que foram acontecendo ao longo dos anos para que fosse possível aos trabalhadores terem melhores condições de trabalho, adequadas ao desenvolvimento tecnológico da sociedade, de forma a conseguir o progresso económico, social e familiar das populações.

O presente artigo traz o trabalho representado na Arte, mostrando pessoas que dedicaram a vida ao seu ofício, mesmo sob as piores condições.

Silva Porto, Colheita – Ceifeiras (Lumiar), óleo sobre tela, 1893, Museu Nacional de Soares dos Reis.

Fonte: GoogleArts&Culture.

Esta obra apresenta-nos um campo ceifado que ocupa a maior parte da composição, deixando pouco espaço para o céu azul que dá luz a mais um dia de trabalho. No primeiro plano, mais ao lado esquerdo, podemos ver uma ceifeira com um molho de espigas nos braços; um pouco mais atrás, à direita, está uma segunda ceifeira que, curvada, apanha um molho de espigas que está no chão. Ambas trajam uma saia comprida rodada, uma blusa estampada e um lenço na cabeça. A saia da primeira ceifeira, em azul marinho, assume-se como o ponto mais escuro da composição, a par com as árvores que vemos na linha do horizonte. Os braços e as faces das mulheres mostram uma pela marcada pelo constante trabalho debaixo do sol. Uma composição equilibrada entre tons quentes, o azul e o verde.

É uma obra característica de Silva Porto (1850-1893), que se dedicou a retratar a Natureza, sendo, a par com Marques de Oliveira (1853-1927), um dos introdutores do Naturalismo em Portugal. Uma carreira curta, mas que se mostrou cheia de luz e de cor.

Dórdio Gomes, A Sesta dos Ceifeiros (Alentejo), óleo sobre tela, 1918, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado.

Fonte: MatrizNet.

Após um conflito com o embaixador português em Paris, Dórdio Gomes (1890-1976) vê a sua ida para Paris, no ano de 1911, sair furada e por isso volta a fixar-se no Alentejo. Aqui, vai dedicar-se a representar as actividades dos camponeses alentejanos, como a ceifa ou a apanha da azeitona. Esta é uma obra ainda num tempo inicial da carreira do pintor e nela vemos um estilo mais naturalista, o qual foi influenciado pela obra de José Malhoa (1855-1933) e Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929).

Nesta pintura vemos uma planície alentejana na qual, em primeiro plano, estão dois camponeses a aproveitar um momento de sesta. Encostados a um amontoado de molhos de trigo já amarrado, são quase impossíveis de ver. É uma paisagem essencialmente em tons quentes, com o trigo (seja em molhos que pontuam a composição ou em campo que vemos ao longe no lado esquerdo) a sobrepôr-se aos restantes elementos. O céu, que ocupa uma linha estreita no topo do quadro, dá mais claridade à obra e permite ver que estamos perante um dia limpo e, provavelmente, de muito calor.

Abel Salazar, Mulher no Trabalho, óleo sobre madeira, não datado, Centro de Arte Moderna – Fundação Calouste Gulbenkian.

Fonte: CAM-FCG.

Esta obra leva-nos para um ambiente de interior que se mostra pouco luminoso e nele vemos uma mulher que se assume como a figura central da composição. Mulher essa que segura, ao seu lado direito, o que parece ser uma trouxa de roupa, a qual nos indica que estaremos perante uma lavadeira. Tal como vem sendo comum nas obras que compõem este artigo, a sua roupa é a típica saia comprida rodada, uma blusa de manga comprida e um lenço/touca. Como referido, o ambiente é escuro e em tons castanhos pintados de forma a relembrar madeira. A saia da mulher é vermelha, o que confere um pouco mais de luminosidade à composição, e o resto da roupa, bem como a trouxa que segura, são os únicos elementos que se revelam brancos. É uma composição dramática devido ao uso intenso da mancha, característica das obras do artista.

Abel Salazar (1889-1946), posteriormente médico e professor catedrático na Universidade do Porto, dedica-se a uma produção artística variada e consistente após o seu afastamento da vida académica. Pinta livre de correntes artísticas, embora seja notório um certo gosto naturalista aliado a uma componente de análise à sociedade que o rodeia. O seu trabalho é carregado de referências sociais, sendo a mulher trabalhadora um dos temas que mais pintou, e o mesmo vai abrir portas para o movimento neorrealista na pintura portuguesa.

Júlio Pomar, O Almoço do Trolha, óleo sobre tela, 1946-1950, colecção privada.

Fonte: P55.ART.

Os primeiros anos da obra de Júlio Pomar (1926-2018) estão muito ligados à resistência ao Estado Novo bem como à afirmação do movimento neorrealista em Portugal, sendo que o artista é consensualmente destacado como um dos mais fortes pintores neorrealistas portugueses. É entre as décadas de 1940 e 1950 que o seu trabalho se centra no activismo político, mostrando as dificuldades e falta de condições pelas quais passavam os trabalhadores e os cidadãos.

O Almoço do Trolha representa essas duas características da sua obra. Num ambiente sujo, vemos um trolha que faz uma pausa para almoço com a sua esposa e o filho. O casal senta-se em tijolos, demonstrando as poucas condições existentes mesmo para a pausa de almoço, e a criança, que parece dormitar, está ao colo da mãe. O trolha está sujo, algo que vemos pela face, as mãos e os pés. Mãos e pés esses que Júlio Pomar representou numa escala maior do que seria suposto, de forma a acentuar aqueles que são o seu meio de trabalho e sobrevivência. Uma obra dramática que retrata a situação precária que se vivia naquele tempo. Há um jogo entre o claro e o escuro no qual a cor acentua o tal dramatismo, especialmente com o branco e o vermelho que envolvem os corpos das personagens.

Teresa Sarsfield Cabral, Refeição de Trabalhadores, óleo sobre tela, 1964, Centro de Arte Moderna – Fundação Calouste Gulbenkian.

Fonte: CAM-FCG.

Tal como na obra de Júlio Pomar, também Teresa Sarsfield Cabral (n.1943) decidiu retratar o momento da refeição de um grupo de trabalhadores. Estamos perante mais um sítio escuro no qual vemos o que parecem ser três mulheres sentadas a uma mesa de tampo branco, que se assume como o ponto mais claro da composição. Embora seja um momento de refeição, é possível reparar como os alimentos são escassos, sendo que parece haver apenas pão, um pouco ocultado pela figura que se nos apresenta de costas. Vemos ainda muito cansaço: a figura de blusa verde, na zona do canto superior direito, aproveita a pausa para descansar a cabeça sobre os braços. A composição é feita à base de manchas com tons escuros e pouca ou nenhuma luminosidade.

A pintura de Teresa Sarsfield Cabral caracteriza-se por mostrar apenas o essencial de forma estilizada, criando uma relação entre a identidade enigmática das personagens, a sua história e a amplitude do espaço.

Hein Semke, 1º de Maio de 1974, xilogravura, 1974, Centro de Arte Moderna – Fundação Calouste Gulbenkian.

Fonte: CAM-FCG.

Hein Semke (1899-1995) nasceu em Hamburgo, na Alemanha, mas passou a maior parte da sua vida em Portugal, tendo.se mudado definitivamente para o país em 1932. Assim sendo, testemunhou a ditadura do Estado Novo, bem como a libertação do povo português, aquando o 25 de Abril, sendo já ele parte integrante desse mesmo povo.

Esta xilogravura apresenta-se em modo cartaz. Não esquecendo o que foi referido no início deste artigo, o 1º de Maio de 1974 foi a primeira vez que a data pôde ser celebrada de forma livre e sendo considerada feriado, fazendo sentido que o artista queira publicitar e assinalar deste modo esta data tão importante. Entre verde e vermelho, as cores da bandeira portuguesa, vemos flores (numa possível referência aos cravos), um grupo de pessoas e, em primeiro plano do lado esquerdo, um corpo feminino também ele preenchido por flores. Apesar de não ser uma obra que representa o trabalho, faz todo o sentido de ser incluída nesta lista, pois celebra as liberdades e direitos que tanto o 25 de Abril como o 1 de Maio trouxeram para Portugal.

Para além de retratarem trabalhadores, estas obras têm em comum ainda outra coisa: as personagens não têm rostos definidos nem identificáveis, pois o intuito não era representar um ser individual, mas um ser colectivo. Mostrar as condições precárias pelas quais as pessoas passavam na altura de forma a conseguir sobreviver; retratar as marcas que as suas funções e as condições atmosféricas (no caso do trabalho ao ar livre) deixavam na sua pela, no seu corpo, no seu humor, na sua família.

Foram todas essas características visíveis que aumentaram a força e a vontade de reivindicar por direitos e condições melhores, garantindo uma qualidade de trabalho e, sobretudo, de vida, superior ao que tinham até então. É assim que se assinala o 1º de Maio e embora as reivindicações destes tempos sejam outras (como a equidade entre géneros), é uma data que continua a ser absolutamente necessária nos dias de hoje e cuja importância e significado se deve fazer sentir em todos os dias do ano.

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