Florence Welch e a Estética da Irmandade Pré-Rafaelita

São várias as vezes que ouvimos a expressão “a vida imita a arte” e este artigo é uma prova disso mesmo. Não vamos falar de eventos específicos de vida, que, quando associados a esse dizer, costumam estar relacionados com mortes trágicas, mas sim da estética que Florence Welch, vocalista do grupo Florence + the Machine, usa não só nos seus álbuns e em espectáculos ao vivo, mas também no dia-a-dia.

Poderiam ver aqui destacados um sem número de obras de arte de artistas como Pablo Picasso (1881-1973), Gustav Klimt (1862-1918) ou Tamara de Lempicka (1898-1980), mas vamos apontar o foco para a Irmandade Pré-Rafaelita. É assim que o proximArte assinala o dia do lançamento do mais recente álbum do grupo, denominado Dance Fever.
Preparados para descobrir as semelhanças?

Florence Welch, sessão fotográfica para o álbum Dance Fever. Fonte: Instagram Florence + the Machine.

Antes de mais, convém falar um pouco sobre esta Irmandade Pré-Rafaelita.

A Irmandade Pré-Rafelita (Pre-Raphaelite Brotherhood ou P.B.R., como assinavam os quadros) foi uma sociedade secreta fundada em 1848 por três estudantes inscritos na Royal Academy School, em Londres: William Holman Hunt (1827-1910), John Everett Millais (1829-1896) e Dante Gabriel Rossetti (1828-1882), sendo este último o líder e porta-voz do grupo. É dele que parte a ideia de formar a sociedade, após tomar conhecimento de um grupo formado por artistas em Viena, em 1809, denominado “Nazarenos” e que funcionava sobre as mesmas bases pelas quais os Pré-Rafaelitas iriam trabalhar.

Estes artistas ingleses consideravam a pintura académica e tudo o que seguiu o Renascimento italiano após a época de Rafael (que vêem como o responsável por introduzir na Arte a falta de sinceridade perante a Natureza e a sua representação) como algo decadente, insurgindo-se contra isso. Decidiram, portanto, atacar a opção de esconder a verdade através da utilização da técnica do chiaroscuro (claro-escuro), que viam como algo que valorizava qualidades formais ao invés de valorizar a história e os elementos que a contavam na tela.

Apreciavam sobretudo o modelo dos pintores do Quattrocento, como Jan van Eyck (1390-1441), que pintavam de forma mais simples, directa e sincera, conseguindo trabalhos de maior envergadura espiritual e moral, numa identificação com o período religioso a que está ligado o Gótico tardio.
Os Pré-Rafaelitas pretendem voltar aos tempos em que os artistas eram considerados artífices fiéis à obra de Deus, altura em que o mais importante era copiar a Natureza tal como ela é.
A sua pintura apresenta uma técnica clara, brilhante e nítida que deixa de lado o tema da pintura de género para se dedicar à representação de assuntos religiosos tal como o eram durante a Arte Medieval e do primeiro Renascimento. Há uma exuberância de cores que jogam com a composição complexa das telas. Revelam ainda uma atenção ao pormenor meticuloso e às questões éticas nas suas obras.
Há, nas obras Pré-Rafaelitas, a criação de uma certa mitologia relativa a uma mulher com aura andrógena e evanescente, olhar debilitado, postura inacessível e sensual, fria e carnal, que encarna o modelo de femme fatale.
Almejam uma arte mais espontânea e voltada para a Natureza ao mesmo tempo que evocam conteúdos da modernidade. Adoptam a Fotografia, mas revoltam-se contra a industrialização, promovendo um regresso ao Artesanato.

A sigla P.R.B. é usada pela primeira vez na obra A Infância de Virgem Maria, de Dante Gabriel Rossetti, em 1849, sendo prontamente adoptada pelos restantes pintores. A sigla é decifrada no ano seguinte e desde logo surgem várias críticas incluindo, por exemplo, de Charles Dickens (1812-1870) que condenava a rejeição de Rafael por parte do grupo.

Muita da inspiração do grupo vem da literatura e por isso não é de estranhar que comecem a ser mais conhecidos exactamente pelas suas imagens bíblicas e literárias. Fazem ainda uma ligação de um passado espiritual ao qual pertencem as personagens com a Londres da sua época, criando lições de moral.
Essa ligação ao mundo literário mostra-se ainda na criação de poemas que vários dos artistas Pré-Rafaelitas produziam, mas também no lançamento do periódico The Germ, o qual divulgava esses textos, bem como a ideologia do grupo. Foram publicados apenas quatro volumes, entre Janeiro e Abril de 1850.

Quando, em 1854, a Irmandade dos Pré-Rafaelitas já apresentava sinais de dissolução, John Ruskin (1819-1900) torna-se patrono de Rossetti, dando-lhe uma porta de entrada para conhecer os artistas que agora frequentavam a Royal Academy School. Consegue chamar a atenção de William Morris (1834-1896) e de Edward Burne-Jones (1833-1898) para o grupo que, assim, reacende a chama durante mais alguns anos, com grande enfoque também na decoração de interiores e na arquitectura, abrindo, sobretudo através do trabalho de Morris, o caminho para o que viria a ser o movimento do Arts & Crafts.
O grupo dissolve-se por volta da década de 1860, com os vários pintores a gravitar para tipos de trabalhos diferentes, muitos deles que viriam a ir contra tudo o que defenderam enquanto integrantes da Irmandade Pré-Rafaelita.

Dante Gabriel Rossetti, The Girlhood of Mary Virgin, óleo sobre tela, 1849, Tate Britain, Londres. Fonte: Wikipedia.

Foquemo-nos agora em exemplos concretos que nos mostram esta semelhança entre as pinturas Pré-Rafaelitas e a estética que Florence Welch incorpora essencialmente no seu guarda-roupa e poses para fotografias, sejam elas para promover os seus álbuns, para campanhas publicitárias ou mesmo no dia-a-dia por casa ou na rua. Sendo que, como já referido, foram poucos os artistas que trabalharam este estilo, as imagens apresentadas serão agrupadas por pintor.

Dante Gabriel Rossetti foi, como mencionado, o líder e porta-voz dos Pré-Rafaelitas. Foi o pintor mais reconhecido e apreciado deste movimento, embora isso se deva sobretudo às obras que produziu após a extinção do mesmo, tendo chegado a uma criação ainda mais próxima do estilo renascentista. Aí, embora continue a evocar a figura feminina ruiva de cabelos compridos, muitas vezes inspirada na sua esposa, já trabalhava num mundo de fantasia e de psicológico que se distanciava totalmente do que era o intuito do grupo Pré-Rafaelita. Antes dessa fase, porém, a sua obra era caracterizada por um lado sensual que conversava com o revivalismo medieval.

Dante Gabriel Rossetti, Proserpine, óleo sobre tela, 1874, Tate Britain, Londres. Fonte: Tate.

Florence Welch, sessão fotográfica para o álbum Lungs. Fonte: Persona.

O mundo dos Pré-Rafaelitas acontece muito a partir da colaboração com modelos e o caso de Rossetti não é excepção, estando esse lado intimamente ligado à sua vida pessoal, sendo que casou com a modelo Elizabeth Siddal, que viria a ser a sua musa durante vários anos, mesmo após a sua morte, como acontece com a obra Beata Beatrix.
Rossetti encontra ainda inspiração na poesia de Dante Alighieri (1265-1321) bem como nas lendas de Rei Artur.

Para além de telas, criou muita obra ligada à literatura. Tinha o intuito de revolucionar o que era feito na altura, sendo um fervoroso crítico da ornamentação dos livros Victorianos, procurando criar ele próprio ilustrações mais refinadas. Pretendia não só criar uma imagem que complementasse o texto, mas também algo que funcionasse individualmente, indo para além da representação do que é dito no poema.
Este lado literário é uma característica comum a vários dos artistas Pré-Rafaelitas, sendo que chegaram mesmo a colaborar em alguns projectos do género.

Esquerda: Dante Gabriel Rossetti, Lady Lilith, óleo sobre tela, 1866-1868, Delaware Art Museum. Fonte: Delware Art Museum.
Direita: Florence Welch para a Revista Vogue, 2022. Fonte: Twitter Florence Welch.

É a partir da década de 1860 que deixa para trás as composições de carácter medieval e decide focar-se na representação de imagens poderosas de mulheres cujos rostos estão em modo close-up. Os fundos e cenários são agora lisos e de cor densa, perdendo a ornamentação antes conhecida nos seus trabalhos. Desta forma, a representação da mulher por Rossetti vai tornar-se algo quase sobre-estilizado, mas ainda assim estas suas obras vão servir de influência ao desenvolvimento do estilo Simbolista europeu. É uma reconfiguração da sua prática pictórica, baseando-se nos artistas do Alto Renascimento, como Ticiano (?-1576) e Veronese (1528-1588). Mantém, ainda assim, o costume de ter modelos a posar para as suas obras, sendo que as suas características físicas eram sempre bastante semelhantes.

Mais ou menos aproximada de quem a observa, a mulher vai ser sempre tema central na obra de Rossetti, cuja paleta cromática também se mantém fervorosamente nos tons quentes, com escape para o verde e o azul, bem como o pálido da pele das figuras que representa.

Esquerda: Fanny Cornforth, musa dos Pré-Rafaelitas, por W. & D. Downey, 1863. Fonte: Wikipedia.
Direita: Dante Gabriel Rossetti, Rosa Triplex, aguarela sobre papel, 1874, Colecção Privada. Fonte: Wikipedia.

Florence Welch para a capa do álbum Ceremonials por Tom Beard, 2011. Fonte: National Portrait Gallery.

Esquerda: Dante Gabriel Rossetti, Beata Beatrix, óleo sobre tela, 1864-1870, Tate Britain, Londres. Fonte: Tate Britain.
Direita: Florence Welch para Gucci, 2019. Fonte: Instagram Florence Welch.

As mulheres que Rossetti retrata aparecem sempre envolvidas na tarefa que desempenham ou nos seus pensamentos, nunca cruzando o olhar com quem a pinta e observa. Florence Welch consegue capturar bem essa essência, embora crie também alguns excepções que a fazem tornar-se mais próxima de quem a vê ao olhar-nos directamente. Não faltam, porém, as vestes que tomam a dualidade de encobrir o corpo ao mesmo tempo que revelam nudez: são largas o suficiente para que não se repare no delineado do corpo, mas há sempre um pouco de pele à vista, sobretudo na linha do pescoço.
As fotografias de Florence Welch revelam bem o conhecimento que a artista tem deste mundo Pré-Rafaelita, sendo que chega até a ser influenciada não só pela Pintura, mas também pela Fotografia.

Anthony Frederik Augustus Sandys (1829-904), conhecido com Frederik Sandys, é associado tanto aos Pré-Rafaelitas como à escola de Norwich, a cidade onde nasceu. Embora o seu caminho com a Irmandade comece em tom jocoso a partir de uma caricatura que faz dos artistas fundadores, viria a ser grandemente influenciado por Rossetti, com quem inclusive morou entre 1866 e 1867, em Chelsea.
A sua produção prende-se essencialmente com o trabalho que, a partir da década de 1860, faz para revistas. A nível de pintura já apresenta um espólio mais reduzido, sendo visível um contínuo representar da concepção de poder trágico comum entre as várias telas.
O seu trabalho é, sem dúvida, caracterizado pela técnica ao desenhar, algo que faz de modo bonito e cuidado. Representa sobretudo retratos e temas mitológicos aos quais consegue implementar uma paleta cromática variada de cores vivas e luminosas.

Esquerda: Anthony Frederik Augustus Sandys, Perdita (Conto de Inverno), óleo sobre tela, 1866, Colecção Privada. Fonte: Arthive.
Direita: Florence Welch. Fonte: Twitter.

As flores são, sem dúvida, um elemento bastante característico da imagética que envolve Florence Welch, seja a partir de fotos banais no jardim de casa, como em sessões para marcas ou para publicitar os álbuns, mas também quando actua em concerto. As coroas de flores, que povoam muitos dos quadros Pré-Rafelitas de modo mais ou menos simples, podem ser consideradas uma das suas imagens de marca, sendo que o elemento acaba por ser presença habitual e bastante marcada no público que assiste aos concertos.

John Everett Millais, criança prodígio, entrou na Royal Academy School com apena 11 anos, sendo o estudante mais jovem admitido pela Academia.
Após ajudar a fundar o grupo Pré-Rafaelita, vê muitas das suas obras serem fortemente criticadas, pois escolhia retratar pessoas comuns e trabalhadoras, mesmo quando pintava sobre temas bíblicos.

John Everett Millais, Ophelia, óleo sobre tela, 1851-1852, Tate Britain, Londres. Fonte: Tate Britain.

Florence Welch para a revista Sunday Times and Culture, por Vincent Haycock, 2018. Fonte: SiteRG.

Ophelia faz parte da obra que construiu durante estes anos de Irmandade, a qual teve uma aceitação muito mais calorosa no seio da Academia aquando a sua apresentação. É a obra mais conhecida de Millais, fazendo a tal ligação ao mundo literário que tanto caracteriza o grupo.
Nestas suas obras iniciais é visível uma grande atenção ao detalhe que se mostra quase caprichosa, focando-se no lado mais complexo e belo da Natureza. Como vemos em Ophelia, há a criação de um ambiente denso e pitoresco que integra na composição elementos naturalistas.

Após a dissolução do grupo, dedicou-se a pintar cenas mais genéricas, muitas vezes com grande intensidade atmosférica.
A sua mudança de estilo e afastamento aos Pré-Rafaelitas acontece após o seu casamento e muitos consideravam que o fazia para singrar no mundo artístico de forma mais lucrativa. Associado à necessidade de sustentar uma família cada vez mais numerosa, Millais diz que a mudança que se dá na sua obra se deve ao facto de se sentir mais confiante, após a experiência que ganhou durante vários anos, para ser mais ousado nas suas composições, não tendo, por isso, que ficar preso ao ideal Pré-Rafaelita.
Embora tenha sido um membro fundador do grupo que repudiava o Academismo, acabou por ser nomeado Presidente da Royal Academy, em 1896.

Sobre esta obra específica de Millais, há uma ligação muito mais directa que podemos fazer ao estilo de Florence Welch, sendo que a própria definiu, em 2010, o seu estilo como “Ofélia encontra a Lady de Shalot”.
Os cenários densos a que a cantora muitas vezes nos habituou têm também uma conexão mais forte com a atmosfera desta pintura, não esquecendo as inúmeras referências que as suas canções e podemos fazem à água e a uma quase vontade de ser engolida pela Natureza, vendo-a como o ponto máximo das criações que nos reodeiam.

Esquerda: John Everett Millais, The Bridesmaid, 1851, óleo sobre madeira, The Fitzwilliam Museum, Cambridge. Fonte: The Fitzwilliam Museum.
Direita: Frank Cadogan Cowper, Vanity, óleo sobre madeira, 1907, Royal Academy, Londres. Fonte: Royal Academy.

Florence Welch, capa do álbum Dance Fever, por Autumn de Wilde. Fonte: Instagram Florence Welch.

Frank Cadogan Cowper (1877-1958) nasce numa altura em que a Irmandade dos Pré-Rafaelitas já não existia e isso vai valer-lhe, mesmo alguns anos depois, o título de “o último dos Pré-Rafaelitas”.
Nas suas obras, Cowper mistura a estética do movimento com o Renascimento ainda apurado, tal como vemos na obra Vanity (acima à direita), na qual mistura elementos seus contemporâneos a outros do Renascimento Italiano para construir as vestes da personagem. Esta é uma obra que está ligada ao género das Naturezas-Mortas (vanity vanitas), muito popular entre os séculos XVI e XVII, e que põe lado a lado a beleza de uma mulher e das uvas (em segundo plano), relembrando-nos que, tal como o fruto, nada dura para sempre e que um dia tudo irá acabar.

Não sendo sempre directa a associação de uma imagem de Florence Welch a uma obra Pré-Rafaelita, é também um jogo interessante perceber como as suas ideias podem ser construídas a partir de elementos retirados de várias pinturas. Serve também para perceber a ligação estética estreita que existia no ideal destes pintores, com as mulheres ruivas a ocuparem muitas vezes a tela quase na sua totalidade, a qual ganha uma luz imensa a partir dos cabelos longos que as caracterizam. Embora para Florence Welch os cenários tenham sempre uma importância tão marcada como a sua figura, o cabelo é sempre um ponto de foco para quem a vê.

Esquerda: John William Waterhouse, The Soul of the Rose, óleo sobre tela, 1908, Colecção Privada. Fonte: Wikipedia.
Direita: Florence Welch por Tommy Dorfman. Fonte: Twitter Florence Updates.

Esquerda: John William Waterhouse, The Lady of Shalott, óleo sobre tela, 1888, Tate Britain, Londres. Fonte: Tate Britain.
Direita: Florence Welch para a Gucci, por Floria Sigismondi, 2020. Fonte: Twitter Florence Updates.

John William Waterhouse (1849-1917) nasce exactamente no ano em que surge o Pré-Rafaelismo, mas isso não o impede de trabalhar arduamente neste estilo anos mais tarde, acabando a ser apelidado de “o Pré-Rafaelita Moderno”.
As suas obras mostram sobretudo mulheres tanto da mitologia grega como das lendas do Rei Artur, recorrendo a modelos profissionais que posavam na forma que ele pretendia, tal como fizeram os Pré-Rafaelitas originais. Em muitas das suas obras são visíveis elementos arquitectónicos que, neste caso, rementem mais prontamente para o Renascimento e não para o Gótico como seria desejável.

É mais tarde na sua carreira que a sua obra obra toma o lado mais inglês legado pelos Pré-Rafaelitas. Os cenários e as mulheres aparecem agora mais decorados, sendo visível um grande recurso a flores e locais ajardinados, jogando com o Simbolismo, a Mitologia e ainda com a Poesia sua contemporânea. Com o renome que foi conseguindo ao expor a sua obra e ao ser seguido por apreciadores fiéis, ganha confiança para se dedicar a telas de maiores dimensões que lhe permitem criar composições ainda mais complexas.

John William Waterhouse, The Magic Circle, óleo sobre tela, 1886, Tate Britain, Londres. Fonte: Tate Britain.

Florence Welch para a Vogue, por Anton Corbijn, 2015. Fonte: Vogue.

John William Waterhouse, Hylas and the Nymphs, óleo sobre tela, 1896, Manchester Art Gallery. Fonte: Manchester Art Gallery.

Florence Welch, sessão fotográfica para o álbum How Big How Blue How Beautiful, 2015. Fonte: Twitter Florence Updates.

Trabalhava tópicos semelhantes aos dos Pré-Rafaelitas, embora aplicasse sempre o seu cunho pessoal, tal como fez com Ophelia, tema que veio a trabalhar por diversas vezes e que fora abordado por vários dos membros originais da Irmandade, tal como a obra já mostrada de John Everett Millais.
Na sua paleta cromática nota-se exactamente essa devoção à Natureza e aos espaços ajardinados, que servem de cenário a muitas das personagens que pinta. Há, por isso, um grande recurso ao verde, que se segue de tons azulados e cinzentos que muitas vezes lembram o mármore. A pele das mulheres que pinta recaem sobretudo em tons mais pálidos de bochechas rosadas, mesmo ao jeito Pré-Rafaelita, sendo, muitas vezes, o ponto mais luminoso da obra.

John William Waterhouse, Psyche Entering Cupid’s Garden, óleo sobre tela, 1903, Harris Museum & Art Gallery, Preston. Fonte: Harris Museum.

Florence Welch, 2015. Fonte: Instagram Florence Welch.

Esquerda: John William Waterhouse, The Charmer, óleo sobre tela, 1911. Fonte: Wikipedia.
Direita: Florence Welch por Vincent Haycock. Fonte: Instagram Florence Angels.

De forma mais ou menos propositada, é bastante visível a semelhança entre o ideal de Waterhouse as fotografias que vemos de Florence Welch, havendo uma aproximação marcada não só à paleta cromática como também às poses e aos cenários que a envolvem. A artista seria, sem dúvida, uma fonte de inspiração para o artista inglês, caso coincidissem nos seus tempos de vida. Florence parece até saída de um sonho de John William Waterhouse.

Tal como os Pré-Rafaelitas, Florence Welch não se dedica apenas a cantar. Ela própria escreve, sendo autora de várias das suas músicas e de poemas, sendo que não devemos esquecer o livro que publicou e que dá pelo título de Useless Magic.

Os Pré-Rafaelitas existiam neste universo masculino de quem cria, mas sem as suas musas que inspiravam e modelavam as poses que eles imaginavam, estes trabalhos não teriam o cunho tão pessoal e tão interligado que vemos. Assim, havia também a chamada Pre Raphaelite Sisterhood, uma sororidade, chamemos assim, na qual estão inseridas todas as mulheres que emprestaram a cara e o corpo para que estas obras se pudessem desenvolver.
Embora já não exista o grupo, podemos considerar Florence Welch como uma destas irmãs que influencia uma mão cheia de pintores. Os cabelos ruivos aliados à pele mais pálida, as vestes que tanto variam entre os tons escuros como os mais pastel quase transparentes e as poses de alguém que se mostra disponível a entregar-se sem nunca o fazer, são tudo elementos que criam a narrativa da história musical e pessoal de Florence, mas são também pontos muito característicos da obra dos pintores ingleses que aqui abordámos.

Como referido no início do texto, este artigo vem na sequência de assinalar o dia do lançamento de Dance Fever, o novo álbum de Florence + the Machine. É, portanto, com uma ligação a esse álbum que terminamos:

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