As Estações e os Comboios como Aspecto da Modernidade na Pintura de Monet

Claude Monet (1840-1926) foi um dos fundadores do Impressionismo, juntamente com Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), Alfred Sisley (1839-1899) e Frédéric Bazille (1841-1870), que faziam parte do seu círculo de amigos e de colegas de profissão, realizando exposições impressionistas em conjunto.
Pintou sobretudo paisagens embora tenha rejeitado o modo tradicional de representar este tema, sendo que, em vez de seguir as pisadas dos mestres antigos, se dedicou a aprender com os seus colegas e com a própria natureza, observando as variações de cor e luz, captando as diferentes atmosferas e mudanças de estação. 

As suas pinturas de paisagem recaem sobretudo nas natureza mas também, e como este artigo vai mostrar, se dedica a representar o lado mais humanizado das paisagens de França.
As estações de comboio e os próprios comboios vão ser um desses motivos humanos que tanto vão captivar Monet.

Claude Monet, Chegada do Comboio da Normandia, Gare de Saint-Lazare, óleo sobre tela, 1877, Art Institute of Chicago. Fonte: ArtIC.

O comboio foi um estímulo visual para os artistas do século XIX, devido ao movimento, aos seus materiais de construção e sobretudo devido ao vapor que lançava.
Tendo em conta este interesse pelos materiais, as estações de comboios não eram a única coisa a atrair a atenção dos pintores impressionistas, sendo que muitos se dedicaram igualmente à representação da Ponte da Europa devido às suas grelhas em ferro, que estes artistas consideravam algo curioso. 

Estes factores foram uma fonte de inspiração primeiramente para Édouard Manet (1832-1883), embora os Impressionistas reclamassem este tema como algo que nasceu com eles. Era já algo típico do Modernismo, sendo que Manet o tratou na sua obra The Railway, de 1873, onde uma das duas figuras representadas olha para o interior da Estação de Saint-Lazare.
A diferença entre o trabalho de Manet e o dos Impressionistas é o facto de os segundos terem criado uma espécie de narrativa daqueles locais a partir do fumo que sai dos comboios e do aço que os envolve e que mantém a estação, ao invés de o utilizarem como fundo para uma cena.
Mesmo assim os efeitos do fumo e do vapor em conjunto com o comboio, elementos que se sobrepõem à presença humana, já tinham sido tratados por William Turner (1775-1851) em Chuva, Vapor, Velocidade, uma obra e um artista que influenciaram e muito o trabalho dos Impressionistas.

É na segunda metade do século XIX que a velocidade do comboio se torna algo notório, trazendo a percepção totalmente nova de passagens rápidas com viagens onde apenas se vislumbram certos pormenores dos locais por onde o transporte passa. Esta questão torna também possível a noção de movimentação na natureza, na qual os pormenores não eram exigidos. 
Isto traz também uma consciência diferente no que toca ao tempo, pois as viagens eram rápidas o que fazia alcançar a imaginação mais rápido do que se estava a contar. A concepção de espaço sofre igualmente alterações, pois, devido ao momento do movimento rápido, só se reparava no principal e isso reflecte-se na pintura Impressionista a partir de uma representação bidimensional dos objectos. 

A Estação de Saint-Lazare representava, naquela altura, a industrialização, o ferro e o vidro que provinham do exemplo arquitectónico do Palácio de Cristal de Londres. Era a saída para a cidade, algo que os artistas Impressionistas, como Monet, conheciam muito bem, devido às suas constantes viagens. 

Édouard Manet, Mulher e Criança na Estação de Saint-Lazare, óleo sobre tela, 1873, Washington National Gallery. Fonte: NationalGalleryofArt.

William Turner, Chuva, Vapor, Velocidade, óleo sobre tela, 1844, National Gallery, Londres. Fonte: NationalGallery.

Esquerda: Gare de Saint-Lazare. Fonte: TripAdvisor.
Direita: Interior da Gare de Saint-Lazare. Fonte: Structurae.

Este foi, então, o tema que cativou Monet quando regressou a Paris, após deixar Argenteuil por já não lhe dar motivos para representar. A estação não era, de todo, um local desconhecido ao pintor, pois era de lá que partiam os comboios que utilizava para ir, lá está, para Argenteuil e Havre. 
Monet encantou-se rapidamente pelo vapor que os comboios soltavam e por isso passava muito tempo na estação a observar estas nuvens que a envolviam e que rodeavam quem aqui se encontrava. Lembravam-lhe a atmosfera do céu e das nuvens que tanto representou.

Em 1877, alugou uma casa na Rua de Moncey, perto de Saint-Lazare, e logo começou a representar a estação, de modo a poder eternizar o brilho do sol no vapor. Esta vontade era algo difícil de concretizar, pois aquilo que tanto o incentivava era também o que tornava o trabalho complicado, sendo que o vapor era capaz de cobrir toda a estação deixando o seu interior e o que e quem nele se encontrava pouco visível. Isto fez com que Monet pedisse, um dia, ao director dos caminhos de ferro que atrasasse os comboios por algum tempo de modo a haver apenas uma onda de vapor na estação para assim ser possível representá-la. Algo que lhe foi concedido. 
Mesmo assim existem vários estudos para as obras desta série, algo não muito característico de Monet que pintava directamente no local, consequência do facto acima referido. A atenção que dá a esta estação não se foca no assunto mas sim no que este lhe dá e desta forma distancia-se do objecto e foca-se na sensação que ele lhe passa. 

Na terceira Exposição Impressionista, em Abril de 1877, Monet apresentou oito quadros que representam a Estação de Saint-Lazare. Esta série tem uma grande importância na sua carreira e reflecte, mesmo que não seja esse o seu objectivo, a vida moderna. 
Esta estação tem um significado pessoal para Monet pois representa a sua chegada e a sua saída da cidade. 

Esquerda: Claude Monet, Estudo para Gare de Saint-Lazare: Chegada de um Comboio, grafite sobre papel, 1877, Musée Marmottan, Paris. Fonte: MonetPaintings.
Direita: Claude Monet, Gare de Saint-Lazare: Chegada de um Comboio, óleo sobre tela, 1877, Harvard Art Museum. Fonte: HarvardArtMuseum.

Claude Monet, A Estação de Saint-Lazare, óleo sobre tela, 1877, Musée d’Orsay, Paris. Fonte: Muséed’Orsay.

Claude Monet, Exterior da Gare de Saint-Lazare, Efeito de Sol, óleo sobre tela, 1877, Colecção Particular. Fonte: Wikipedia.

Monet dedicou-se a uma série que representava tanto o interior como o exterior da Estação de Saint-Lazare, mostrando também os comboios que viajavam para sítios que ele e muitos outros imaginavam. Não lhe interessava a presença humana, mas sim o espectáculo que todos os elementos constituintes desta estação eram capazes de criar. Isto faz dele um homem do seu tempo, mesmo que essa não fosse a sua intenção.

As cenas representadas no meio do vapor, do nevoeiro e da chuva, devido ao seu efeito, foram, durante este tempo, o motivo preferido de Monet.

Esta seria a sua primeira série de pinturas sobre o mesmo assunto, abrindo caminho para as várias séries que marcam a sua obra.
Incorpora o lado mecânico do mundo natural tal como os Impressionistas o viam e por isso mais do que definir a estação, Monet procura fixar a sua atmosfera, contrastando o seu fascínio pelas nuvens de fumo com a luz dourada que as atravessa. Temos variações de apenas um motivo, mas em várias condições de luz e a diferentes horas do dia, sendo que desta forma consegue transmitir o momento em que o quadro foi pintado. 

Monet faz um tratamento das atmosferas como se se tratasse de um motivo da natureza e por isso, nestes quadros, não mostra só a modernidade e grandeza da cidade de Paris, mas também a sua vitalidade, velocidade e atmosfera.
Introduz um tema onde a máquina é o essencial, deixando o homem e a natureza reduzidos a um papel secundário, tratando a estação como se fosse uma paisagem. Desta forma mostra que não há temas menores na sua obra, sendo que consegue dar tanto valor à natureza como à máquina, tendo sempre as componentes atmosféricas como ponto chave.  
O mais importante nas obras desta série é a construção que Monet fazia a partir das diferentes condições de iluminação, tal como fazia nas suas paisagens. Deste modo, a figura humana toma a forma de algo fantasmagórico, enquanto a locomotiva é sempre representada como um colosso negro que entra na estação sempre a deitar fumo e vapor. 

Esquerda: Claude Monet, Estação de Saint-Lazare, Galpões de Mercadorias na Zona Oeste, óleo sobre tela, 1877, Colecção Particular. Fonte: Wikipedia.
Direita: Claude Monet, Carris da Estação de Saint-Lazare, óleo sobre tela, 1877, Pola Museum of Art, Japão. Fonte: ImpressionistArts.

Claude Monet, A Gare de Saint-Lazare, óleo sobre tela, 1877, The National Gallery, Londres. Fonte: NationalGallery.

Entre estes doze quadros que constituem a série podemos fazer uma divisão em dois subgrupos: aquele das telas que representam o interior da estação e as outras que representam o seu exterior.
Embora Monet já tivesse demonstrado interesse neste tema em 1873 e 1875, a maior parte destas telas são de 1877 , prolongando-se até 1878 com uma visão das linhas de ferro para fora da estação, criando um contraste entre a escuridão do interior e da luminosidade do exterior, juntando os dois pelas nuvens de fumo e vapor. 

Mas sem reclamar para si o posto de inovador, foi muitas vezes citado como exemplo a seguir por aqueles que desejavam mostrar o moderno que havia neles: 

Monsieur Claude Monet é a personalidade mais marcante do grupo dos impressionistas. Neste ano expôs algumas obras soberbas de cenas de estações de comboios. É perceptível o som dos comboios e podemos ver o fumo a flutuar pelos telheiros. Aqui está a pintura do hoje, nestas bonitas e modernas telas. Os nossos artistas devem olhar para a poesia das estações, tal como os seus antecessores olharam para as florestas e para os rios.

– Emile Zola, Le Sémaphore de Marseille, 19 de Abril de 1877, sobre a terceira exposição impressionista onde Monet expôs os seus quadros de Saint-Lazare.

Com A Estação de Saint-Lazare (1877) Monet mostra-nos dois temas modernos, sendo eles a construção em metal do telhado e o vapor dos motores. Uma composição simétrica com a concentração do comboio no centro da obra que tem como fundo um certo desfocar das fachadas criado pela luz do sol que entra pelos vidros do edifício. Nuvens de fumo claras e escuras alternam entre si e em algumas partes são quase uma só dissolvendo-se. Ao longe aparece a Ponte da Europa e as casas que a rodeiam. Com este cenário, as abóbadas e os carris vagamente se percebem mas conseguem, mesmo assim, passar a sensação de orientação e segurança, sobressaltando a força destas coberturas.

Claude Monet, A Ponte da Europa na Estação de Saint-Lazare, óleo sobre tela, 1877, Musée Marmottan, Paris. Fonte: MuséeMarmottan.

Claude Monet, A Ponte do Caminho de Ferro de Argenteuil, óleo sobre tela, 1873-1874, Musée d’Orsay. Fonte: Muséed’Orsay.

Claude Monet, Comboio na Neve, óleo sobre tela, 1875, Musée Marmottan, Paris. Fonte: MuséeMarmottan.

Podemos concluir que estas obras que celebram o mundo moderno afirmam esse mesmo sentido, deixando uma marca importante no trabalho de Monet.
Esta série que começa no fim dos anos 70 do século XIX marca a obra do artista nos anos 80, ultrapassando a concepção que os Impressionistas tinham do ver as coisas. Prova que a atmosfera e as suas alterações são possíveis de encontrar não só nas paisagens naturais, conseguindo dar valor a este novo mundo humano mecanizado e rápido.

Só anos mais tarde, porém, se vai manifestar a apreciação verdadeira do mundo contemporâneo e dos seus motivos, sendo permitido exprimir os valores que estes trazem.
Por isto se diz que Claude Monet é um autêntico moderno, sem o perceber e talvez sem o querer, e o impulsionador deste interesse que a seguir a ele toma novos contornos.

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