A Representação do Novo México por Georgia O’Keeffe

Georgia Totto O’Keeffe nasceu a 15 de Novembro de 1887, no Wisconsin, e desde muito cedo as suas aptidões artísticas foram reconhecidas e encorajadas. O facto de ter vivido quase cem anos contribuiu para que a sua obra seja extremamente vasta, dedicada principalmente às paisagens e aos elementos da natureza que ocupam toda a tela e que revelam uma grande relação de intimidade entre ela e aquilo que representa.

Durante toda a sua carreira, nunca mudou o seu estilo artístico que combina o Abstraccionismo europeu e as formas pictóricas abstractas.
Para O’Keeffe pintar o encontro imediato com as coisas foi sempre a sua maneira de se familiarizar com os ambientes novos. Essas obras podiam ser documentos realistas do que ela via mas, mais tarde, já sintonizada com a nova situação, interpretava os motivos da paisagem de uma maneira mais criativa, expressando sentimentos, tanto positivos como negativos, sobre aqueles lugares concretos e sobre as circunstâncias da sua vida pessoal.

O Novo México, estado onde a pintora viria a falecer a 6 de Março de 1986, foi um dos locais mais representados na sua obra e é sobre essa parte do seu trabalho que nos debruçamos neste artigo, dividindo este tema pictórico em alguns sub-temas, pois mesmo tendo um sítio específico como base, O’Keeffe conseguiu representá-lo de diversas formas.

Tony Vaccaro, Georgia O’Keeffe, Taos Pueblo, New Mexico 1960. Chrysler Museum of Art. Fonte: TateKids.

Como referido, as paisagens mais memoráveis de Georgia O’Keeffe chegam inspiradas pelas impressionantes paragens no Novo México. O cenário dramático desse local, com as suas enormes cordilheiras, os profundos vales fluviais, os seus planos intermináveis e o céu infinito, unido à intensidade e claridade da luz e à viveza das cores naturais, despoletou a imaginação da artista como nada antes. Se a sua forma precoce se tinha cimentado nas flores do período do Lago George, seriam as suas paisagens do Novo México a assegurar-lhe um reconhecimento perdurável de pioneira e visionária.

É em 1917 que tem o primeiro vislumbre do Novo México, mas só em 1929 o visita pela primeira vez ao passar um Verão em Taos, algo que iria repetir quase todos os anos durante algum tempo.
O Rancho Ghost era um destino muito popular naquela época, sendo que O’Keeffe ficava aqui alojada regularmente. Era uma casa um pouco afastada, rodeada por uma pátio com uma grande vista para Cerro Pedernal, por penhascos, montanhas e árvores, que providenciou assunto para as suas telas dos 35 anos que se seguiram. O nome deve-se ao facto de se acreditar que os fantasmas dos seus primeiros proprietários aqui permanecem, sendo que antes era conhecido como Rancho de los Brujos. A pintora viria a comprar este Rancho mais tarde, em 1940.
Em 1933, pertencia ainda a Arthur Pack que deixava a artista passar muito tempo na casa principal. Nesta altura, O’Keeffe repousava no Rancho sobretudo na época invernal, rodeando-se de paisagens magníficas que lhe davam muito para representar. O seu estúdio encontrava-se na sala de jantar, pois era a divisão que considerava ter o tamanho adequado para tal função. A única alteração que a artista faz, após adquirir o Rancho, é aumentar a janela de forma a ter melhor acesso à luz e às vistas que a circundavam.

O’Keeffe passou grande parte da sua vida no Novo México e essa era a identidade da sua arte que não era partilhada com quem quer que fosse, pois este era um sítio só dela. Passava a maior parte dos dias sozinha, recebendo poucas visitas, o que lhe permitia dedicar praticamente todo o seu tempo à pintura.
Após a morte de Alfred Stieglitz (1864-1946), o seu marido, em 1946 e após os três anos que dedicou a resolver tudo o que o envolvia, deixou Nova Iorque e instalou-se definitivamente no Novo México.

John Loengard, Rancho Ghost, 1966. Fonte: LIFE.

John Loengard, O Estúdio de Georgia O’Keeffe no Racho Ghost, 1966. Fonte: LIFE.

Captar a essência da natureza continuou a motivar as suas decisões artísticas em relação às cores, às composições e às perspectivas destas paisagens do Novo México, mas a escala gigantesca dos seus temas exigia a revisão das formas que havia estabelecido para a pintura de flores.
Precisou de encontrar um novo método para que o espectador se detenha e veja com novos olhos estas paisagens cujas proporções colossais eram já esperadas e conhecidas. Começou por tentar encaixar vistas expansivas em telas estreitas e relativamente pequenas com o fim de sublinhar a discrepância de tamanho entre o tema e o formato. Este método resultava conceptualmente, mas com o tamanho reduzido das telas o conteúdo acabava banalizado e não projectava a sua grandiosidade. Muito mais conseguidas seriam as telas em tamanho standard onde descontextualizava segmentos da paisagem, ampliando-os e isolando-os do conjunto que os circundava. Ao ampliar, assim, uma zona concreta e fazer com que esta ocupe todo o espaço da tela, era visível a enormidade da paisagem que acabava por se expandir para lá do tamanho da tela. Mais tarde, deu a estas representações as dimensões da pintura mural que iam de encontro à impressão que recolhia no Novo México, e assim criou visões da terra e do céu muito mais panorâmicas e Abstractas do que nunca.
A sua capacidade de editar e enquadrar o que via numa tela deve-se à adaptação que fez ao estudar fotografias, algo que lhe deu o poder de conseguir transmitir o sentimento do local sem se sentir esmagada por ele.

Em adição às suas pinturas, encheu livros de esboços com desenhos de íris, lírios nos vales, ruas, etc., sendo que cada uma é cuidadosamente detalhada a lápis e por vezes a aguarela. 

A sua perspectiva serviu de modelo para como os Ranchos de Taos seriam representados por futuros artistas como os fotógrafos Paul Strand (1890-1976) e Laura Gilpin (1891-1979).

Todd Webb, Georgia O’Keeffe com câmara, 1959. Fonte: DenverArtMuseum.

A Paisagem do Novo México

Todas as manhãs acordava aquando o nascer do sol e saía para pintar. À luz do amanhecer, os penhascos dourados e rosa brilhavam e as montanhas rubi ficavam cobertas com um nimbo de luz solar. Quando as montanhas estavam já cobertas de sombra, voltava para o estúdio onde concluía as telas de memória.

As montanhas que observa são de pedra sólida, cavadas devido à erosão, tendo anteriormente sido chão de um vasto mar que cobriu quase todo o Norte do Novo México, há centenas de anos. Mesmo assim, O’Keeffe via-as como algo suave e em Two White Shells, One Black Shell refere-se a esse passado oceânico com conchas brancas e coral. Já em Three Small Rocks Big, havendo na mesma essa suavidade, as pedras são redondas e de cor vermelha, preta e branca.

Algo que facilitou em muito o trabalho em relação às paisagens do Novo México foi o descobrir que podia tornar o banco da frente do seu carro numa espécie de cavalete, o que a fez pintar com um novo fervor. Este é também o momento também em que voltou à aguarela.

Pelo Rancho Ghost pintou montanhas em tons de sangue com bandas a verde-pálido, expostas em Red Hills, Series II; e uma montanha em camadas de laranja e tons de marfim contra um céu cerúleo, em Hill, New Mexico.

O’Keeffe fez vários desenhos por Taos, principalmente das montanhas cobertas por pinheiros, algo que depois passou para duas pinturas: Taos Mountain, New Mexico e Hills Before Taos, sendo que a primeira é repleta de planos de ardósia, sálvia e cor-de-rosa, com uma vista da mesquita em plano de fundo e a segunda está coberta por um verde muito suave.
A Sul de Taos deparou-se com os limites de Abiquiu que a fascinaram devido às formas das montanhas, algo que reflecte em The Mountains, New Mexico, um tela ocupada pelos montes de barro ardente pontilhados com pequenos bosques em verde sálvia.
Foi nas suas viagens a Abiquiu, captivada pelas montanhas de topos pontiagudos, que fez algumas das suas melhores obras. Na primeira visita, fez um desenho que representa estes pontos altos em tons de castanho e bronze e a tela Red Hills Beyond Abiquiu que concretizou após a descoberta das periferias das zonas de pedra vermelha, algo que esta obra reflecte muito bem.

Georgia O’Keeffe, Three Small Rocks Big, óleo sobre tela, 1937. Philadelphia Museum of Art. Fonte: PhiladelphiaMuseumofArt.

Georgia O’Keeffe, Taos Mountain, New Mexico, óleo sobre tela, 1930. Hood Museum of Art. Fonte: HoodMuseumofArt.

Georgia O’Keeffe, The Mountains, New Mexico, óleo sobre tela, 1931. Whitney Museum of American Art. Fonte: WhitneyMuseumofAmericanArt.

Como já mencionado, a artista dedicava alguma parte do seu tempo a viajar de modo a encontrar novas paisagens, dirigindo-se muitas vezes a Alcalde, onde descobriu colinas suaves e cinzentas pontuadas por mato, sendo que em New Mexico Landscape and Sandhills isola a colina na tela com uma prata de céu azul no topo. Pinta também Grey Hills Painted Red, New Mexico onde os montes em tons cobre estão tapados pelas sombras das nuvens, uma obra que pode contrastar com Sandhills with Blue River que é uma composição elegante em tons de rosa tingido, colinas áridas lideradas por uma pequena mancha de azul que reflecte a linha fina do céu; esta uma obra mais fria e a anterior uma obra mais quente.

Em 1930, numa visita à autora e artista Marie Tudor Garland (1870-1945), no Rancho H&M, reparou nas diferentes paisagens que a rodeavam, as colinas enrugadas em tons vermelhos e cinzentos estão colocadas contra o fundo de azul e as montanhas cobertas com neve, retratando esta paisagem em três versões, uma delas Black Mesa Landscape, New Mexico.

Cerro Pedernal foi também um dos seus locais de eleição para representar, sendo que o fez avidamente entre 1936 e 1958, com as montanhas Jemez, que lhe lembravam Palo Duro Canyon, no Texas. Este motivo deixou-a motivada pelas cores que lhe oferecia. Fez algumas tentativas a aguarela e alguns desenhos e depois dedicou-se a três telas da paisagem cor de carne e ameixa, sendo que em Purple Hills Ghost Ranch também utilizou tons marinhos.

Também o Rancho Ghost lhe interessava, sendo que, em Outubro de 1838, após um acampamento em Yosemite com um grupo de amigos, completou duas telas representativas da formação das rochas em tons de tangerina que existiam atrás desse rancho, sendo uma delas The Cliff Chimneys.
A partir do Rancho, dedica-se a retratar o que a rodeava, algo que resulta em quatro esboços e três telas das torres de rocha tons de chama e cobertas de enxofre atrás da agora sua casa, como acontece em Red and Yellow Cliffs Ranch.
Completa pinturas que enfatizam a iluminação em tons de jade, turquesa e pêssego da sua mesa (plataforma em cima de uma região montanhosa) e onde se vê o caminho para Pedernal. Uma dessas telas é My Frontyard, Summer onde vemos a sua mesa situada directamente em frente ao seu pátio, tal como fez com a parte traseira do Rancho Ghost.

Georgia O’Keeffe, Grey Hills Painted Red, New Mexico, óleo sobre tela, 1930. Museu of Fine Arts St. Petersburg. Fonte: MFAStPete.

Georgia O’Keeffe, Black Mesa Landscape, New Mexico, óleo sobre tela, 1930. Georgia O’Keeffe Museum. Fonte: OKeeffeMuseum.

Esquerda: Georgia O’Keeffe, Purple Hills Ghost Ranch – 2 / Purple Hills No II, óleo sobre tela, 1934. Georgia O’Keeffe Museum. Fonte: OKeeffeMuseum.
Direita: Georgia O’Keeffe, My Frontyard, Summer, óleo sobre tela, 1941. Georgia O’Keeffe Museum. Fonte: OKeeffeMuseum.

Em 1940, começou a acampar mais vezes de modo a captar as paisagens à noite. Em Agosto, juntamente com a amiga Maria Chabot (1913-2001), ficou perto das torres de marfim de Abiquiu, que dominou de White Place. Assim, podia pintar mal acordasse sem perder tempo com a deslocação para o local pretendido e esta proximidade levou-a a pintar as rochas com bordas pálidas a emoldurar um triângulo azul, como acontece em The White Place in Sun.
Além de White Place denominou uma outra série de Black Place da qual constam quinze pinturas que saíram igualmente destas excursões, embora a maior parte destas telas tenha sido pintada de memória já no seu estúdio. São paisagens misteriosas onde o foco principal se dá no centro emoldurado por montes escuros não muito convidativos, reflectindo o humor sóbrio que a caracterizava nestes anos em que Stieglitz morria lentamente.

Em 1945, e apesar de em 1944 ter atingido a pura abstracção com o Black Place, continua a dedicar-se à sua paisagem favorita de Abiquiu, fazendo um pequeno estudo de penhascos amarelos atrás da sua casa e três desenhos e duas telas das montanhas duo-coloridas dali de perto, como mostra Abiquiu Sand Hills and Mesa.

Em 1951, a sua produção abrandou, fazendo apenas cinco telas onde representa choupos e as visões familiares dos penhascos pintados com cores pálidas como em Dry Waterfall. O trabalho em estúdio era cada vez menos e O’Keeffe precisava de novas ideias, decidindo viajar ainda mais de modo a obter matéria. Em Junho, volta para o Rancho Ghost e representa novamente as formações rochosas em duas telas, uma delas Lavender Hill with Green.

Na obra The Winter Road utilizou a máquina fotográfica para determinar a composição de uma pintura, virando a câmara segundo um ângulo fora do comum para conseguir capturar todos os elementos que pretendia. A partir da fotografia pintou a tela, onde transformou a estrada numa espécie de arabesco caligráfico de ocre queimado contra um fundo de neve.

Em 1964, viajou menos que no ano anterior e só completou três quadros, retornando aos verdes e azuis de cauda de pavão que caracterizaram as suas obras iniciais, como em On the River. Fez também cerca de nove desenhos topográficos da zona de Abiquiu, um deles Mesa and River.

Nesse ano reflecte em Road to the Ranch e Road Past the View as influências japonesas que recolheu da sua visita ao Japão, embora aplicando-as de uma forma renovada. Nestas duas obras vemos a estrada como uma espécie de fita enrolada pelas mesas e pelas montanhas, a primeira em cor de cobre, violeta e azul e a segunda uma paisagem branca onde só os topos da lixívia têm cor.

Esquerda: Georgia O’Keeffe, The White Place in Sun, óleo sobre tela, 1943. Art Institute Chicago. Fonte: ArtInstituteChicago.
Direita: Georgia O’Keeffe, Cliffs Beyond Abiquiu, Dry Waterfall, óleo sobre tela, 1943. The Cleveland Museum of Art. Fonte: ClevelandMuseumofArt.

Georgia O’Keeffe, Road Past the View, óleo sobre tela, 1964. Thoma Foundation. Fonte: ThomaFoundation.

As Naturezas-Mortas do Novo México

Desde que esteve pela primeira vez no Novo México que a sua paixão pelos objectos físicos da natureza se concentrava em elementos que eram parte integrante dos desertos. Por esse motivo, reuniu uma enorme colecção de crânios, ossos, pedras de todos os tamanhos, cores e feitios que apanhava no próprio deserto, guardava no Rancho Ghost e que depois retratava em várias obras. Algumas destas peças eram também oferecidas por amigos.

Começou a pintar ossos de animais em 1931, de modo Realista com precisão, tal como fazia com as suas pinturas de flores. Por vezes, acompanhava estes elementos com flores, contrapondo a morte com a vida, como acontece em Cow’s Skull with Calico Roses.
Tem também uma fase em que usa estes mesmos ossos como moldura para o céu ou para as montanhas, adquirindo um tom Surrealista, mas não o sendo, pois não remete para o subconsciente nem para a irracionalidade deliberada – O’Keeffe nunca demonstrou o desejo de se render ao surreal. São imagens muito mais simples e próximas do mundo na natureza.
Quando voltou às suas representações de crânios e ossos, em 1935, pintou uma natureza-morta de um maxilar numa costela em tons muito brancos como se tivessem sido passados por lixívia: Ram’s Head, White Hollyhock – Hills, considerada a sua obra mais marcante desse ano, com um céu cheio de nuvens cinzentas acima das montanhas vermelhas com mato verde pontual, um crânio de carneiro com uns cornos estranhamente junto a uma flor de malva. Mais do qualquer outra obra desse ano, esta assinalava o seu regresso à vontade de levar a sua arte a um patamar sem precedentes.

Alguns destes estudos de objectos inanimados mostram uma grande intensidade pessoal, sendo possível sentir-se uma identificação especial com o que a artista sentiu.

Em The Broken Shell-Pink, de 1937, representa uma pequena concha em forma de orelha deitada ao lado de uma concha de maiores dimensões com uma borda lascada. Uma está erecta mas partida, a outra está indolente mas intacta. A pintura relembra as suas obras anteriores de folhas e naturezas mortas que ressoam com uma analogia velada.
No mesmo ano, completou também duas naturezas-mortas que combinou com chifres de animais, penas e um pequeno estudo de uma amarílide vermelho.

Ainda neste ano, num tom de curiosidade, começou a documentar os tons que utilizava nestas obras, de modo a saber aqueles que tinha e aqueles que criava para os poder voltar a produzir. Documentava em camadas de tinta separadas por um cartão, dando-lhes um nome. Referia também que marca e tipo de tinta tinha usado. No caso de From the Faraway Nearby um dos tons do céu é assim registado: “May 23, 1937, Cobalt Blue 8/Poppy/with linseed oil/Venice turpentine”. Nessa obra representa a cabeça de um veado com três pares de chifres pesadamente direccionados e pontiagudos, suspensos sobre as montanhas corais e cremes à distância. O nome da obra começou por ser Dear’s Horns Near Cameron, mas o actual é aquele que reflecte a essência que queria passar: trazer o que está longe para o perto.

John Loengard, A collection of antlers, skulls and bones on a window sill at Ghost Ranch, artist Georgia O’Keeffe’s home, 1966. Fonte: LIFE.

Esquerda: Georgia O’Keeffe, Cow’s Skull with Calico Roses, óleo sobre tela, 1932. The Art Institute of Chicago. Fonte: ArtInstituteofChicago.
Direita: Alfred Stieglitz, Georgia O’Keeffe: A Portrait – with Cow Skull, 1931. Colecção de Alfred Stieglitz, Washington (DC). Fonte: CharlesMcQuillen.

Georgia O’Keeffe, From the Faraway, Nearby, óleo sobre tela, 1937. The MET. Fonte: MET.

Em 1941, pintou, em Red Hills and Bones, o rubor e o bordeaux dos montes atrás da sua casa com um fémur e uma vértebra como plano principal, combinando um dos seus motivos favoritos com a sua paixão pelos ossos de animais.

Em algumas telas de 1944 centra o motivo na obra, como acontece ao utilizar o osso pélvico, e utiliza a mesma técnica que com as suas flores, dedicando-se a pormenores do osso e não ao seu todo. Aumentou o tamanho das telas, mas colocou o osso de modo a ser visível o buraco para se perceber o fundo, havendo um pouco menos de ênfase na delineação do osso no que no bocado de céu que deixa ver. Mesmo assim, o osso ocupa toda a tela, ao contrário do que acontece com a representação dos crânios. Tal origina uma série de onde saem, entre outras, Pelvis III e Pelvis II, esta com um osso um pouco mais estruturado. Em cada tela o osso assume um ângulo diferente tal como a paisagem que lhe serve de fundo. A estes ossos não acrescenta acessórios e o fundo não é nada mais que o céu. Estas obras são todas expostas no mesmo ano da sua produção.

O osso pélvico, porém, sofre uma alteração na sua representação, sendo que em 1945 o objecto é simplificado e só aparece, tal como em Pelvis IV, a zona do buraco, com muito pouco do osso, e assim o céu assume a posição principal. Há uma sensibilidade e subtileza que a tornam uma escultura abstracta. Estas telas começam por ter simplesmente o azul do céu e o branco do osso, mas por vezes adquirem também tons de vermelho, branco e amarelo no céu. Nesta série existem algumas das melhores criações de O’Keeffe.

Também a espinha vertebral mereceu a sua atenção, representando-a com grande delicadeza numa série de três desenhos e pintura a óleo. Em Flying Backbone, onde deixa antever as montanhas distantes, o fim do osso lembrava-lhe asas e por isso o nome.

Mesmo com a utilização dos ossos não deixa de representar um dos seus temas predilectos, representando Pedernal através, e novamente, do osso pélvico, em Pedernal – From the Ranch I.

Georgia O’Keeffe, Red Hills and Bones, óleo sobre tela, 1941. Philadelphia Museum of Art. Fonte: PhiladelphiaMuseumofArt.

Georgia O’Keeffe, Pelvis II, óleo sobre tela, 1944. The MET. Fonte: MET.

Georgia O’Keeffe, Flying Backbone, óleo sobre tela, 1944. Crystal Bridges Museum of American Art. Fonte: CrystalBridges.

A Arquitectura

Tal como referido no sub-tema das paisagens, O’Keeffe dedicava-se a representar Taos várias vezes, mas isso não acontece só ao nível da natureza.
Em Taos, a artista gostava também de pintar a Igreja Ranchos, fazendo-o, pela primeira vez já em 1929, como se fosse uma escultura volumosa no meio do nada, enfatizando as linhas irregulares e o volume maciço da mesma, combinando essas formas com o céu azul, como habitualmente. Em Ranchos Church, New Mexico, encolhe o espaço em torno das paredes da Igreja para acentuar a sua inflamada e convexa massa, dando-lhe a modernidade merecida. Parece ter saído da própria terra.
Em 1930, o segundo ano em que visita o Novo México, a paisagem arquitectónica voltou a captivá-la e por isso fez mais duas telas da parede traseira e da parede da frente com as torres e as cruzes brancas da Igreja Ranchos. 

É a partir de 1958 que a arquitectura se torna mais presente nas suas obras, pois é quando resolve finalmente pintar o escadote que tinha no seu telhado que a chamava para uma tela há muito tempo, mas para a qual não tinha uma ideia bem definida. Em Ladder to the Moon coloca o escadote no topo da montanha, que vê a partir do telhado, como ponto de estratégia para alcançar a lua.

Georgia O’Keeffe, Ranchos Church, New Mexico, óleo sobre tela, 1930-1931. Amon Carter Museum of American Art. Fonte: AmonCarterMuseumofAmericanArt.

Esquerda: Georgia O’Keeffe, Ladder to the Moon, óleo sobre tela, 1958. Whitney Museum of American Art. Fonte: WhitneyMuseumofAmericanArt.
Direita: Todd Webb, Ladder at O’Keeffe’s, 1957. Smithsonian American Art Museum. Fonte: SmithsonianAmericanArtMuseum.

A Abstracção

O’Keeffe gostava de representar aquilo que via realmente como forma de chamar a atenção sobre determinados locais e aspectos, mas certas vezes a sua pintura passava da realidade à Abstracção.
Quando, em 1943, volta ao Black Place as paisagens que reproduz aproximam-se da pura abstracção. Mas é em 1944 e com o mesmo motivo que alcança o Abstraccionismo puro. Completou meia dúzia de quadros que representavam a rocha em zig-zag que estava no centro das montanhas do Black Place, sendo que em algumas dessas obras esse elemento está altamente pronunciado, tal acontece com Black Place II e Black Place IV, entre outras, sendo que o que difere essencialmente entre elas é a cor. A racha está quase sempre ao centro. O’Keeffe utiliza o local para obras onde o importante era a cor e a superfície, sendo, por isso, organicamente abstracta, como trabalhos seus contemporâneos de Arshile Gorky (1904-1948) e Willem de Kooning (1904-1997).

Entre 1943 e 1963 o seu trabalho mostra uma tendência cada vez maior no sentido da Abstracção, sendo, mesmo assim, possível relacionar a realidade com as suas abstracções. O’Keeffe entrega-nos trabalhos austeramente simplificados e que reflectem essencialmente cinco elementos: parede, porta, pedras do caminho, o chão e o céu, mostrados a várias luzes, formas e ângulos. Utiliza cores simples ligadas à terra, como mostra em In the Patio VIII e em Green Patio Door, 1955.

A partir de 1963, e mais do que nunca, começou a recusar a ideia de que um artista tinha de escolher um caminho entre a Abstracção e o Realismo, sendo que O’Keeffe escolhia os dois.

Esquerda: Georgia O’Keeffe, Black Place II, óleo sobre tela, 1944. The MET. Fonte: MET.
Direita: EMKotyk, The Black Place, 2019. Fonte: AztecCNM.

Esquerda: Georgia O’Keeffe, In the Patio VIII, óleo sobre tela, 1950. Georgia O’Keeffe Museum. Fonte: OKeeffeMuseum.
Direita: Georgia O’Keeffe, Green Patio Door, 1955, óleo sobre tela, 1955. Buffalo AKG Art Museum. Fonte: BuffaloAKGArtMuseum.

Georgia O’Keeffe dedicou grande parte da sua obra, e da sua vida, ao Novo México, encarando-o como um local que nunca falhava em relação a temas novos. As cores e as superfícies sempre foram aquilo que mais a cativou e essa era uma das suas formas de escolher o próximo motivo a representar, sendo que muitas vezes se fez valer das técnicas de Fotografia de modo a conseguir captar tudo aquilo que queria numa só imagem.

Apesar de muitas vezes se dedicar aos ossos e à arquitectura nunca deixou a paisagem mexicana de parte, inserindo-a sempre de uma forma de outra, tanto como peça principal como peça secundária.
Podemos, talvez, afirmar, que esta parte da sua obra a deixou marcada como pioneira no que toca a este local ou até mesmo por se dedicar tanto a ele, mas investindo em motivos diferentes.

Referências:
Benke, Britta. Georgia O’Keeffe, 1887-1986: Flores no Deserto. Taschen, 2012.
Drohojowska-Philp, Hunter. Full Bloom: art and life of Georgia O’Keeffe. Londres: W.W.Norton, 2004.
Goodrich, Lloyd, e Doris Bry. Georgia O’Keeffe. Nova Iorque: Praeger, 1970.
Lynes, Barbara Buhler. Georgia O’Keeffe: the catalogue raisonné. Londres: New Haven, 1999.
—. O’Keeffes’s O’Keeffes, The Artist Collection. Londres: Thames & Hudson, 2011.
Messinger, Lisa M. Georgia O’Keeffe: naturalezas intimas. Traduzido por Maria Luísa Balseiro. Madrid: Fundación Juan March, 2002.
Georgia O’Keeffe – http://www.georgiaokeeffe.net/
O’Keeffe Museum – http://www.okeeffemuseum.org/about-georgia-okeeffe.htmlPBS – http://www.pbs.org/wnet/americanmasters/episodes/georgia-okeeffe/about-the-painter/55/

Imagem de topo: Georgia O’Keeffe, Lavender Hill With Green, óleo sobre tela, 1952. Georgia O’Keeffe Museum. Fonte: OKeeffeMuseum.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s