The Queen is Dead: Nove Retratos da Rainha Isabel II

Realiza-se hoje, em Inglaterra, o funeral da Rainha Isabel II. Ao longo de 70 anos de reinado e 96 de vida, são algumas as obras-de-arte criadas para a retratar, seja de modo mais formal, mas também em modo de crítica à própria e/ou ao sistema monárquico de que fazia parte.

Ao proximArte não cabe avaliar o reinado de Isabel II, mas este dia surge como uma boa desculpa para mostrar uma selecção de nove retratos da monarca inglesa. Podiam ser sete para representar as sete décadas de reinado, mas vamos até aos nove para simbolizar a vida da Rainha e não apenas o seu papel no país.

1. Dorothy Wilding, The Queen, negativo de filme de meia placa, 1952. National Portrait Gallery.

Fonte: CNN.

Dorothy Wilding (1893-1976), a primeira mulher a ser apontada como fotógrafa real oficial, tirou esta série de fotografias a 26 de Fevereiro de 1952 para marcar a ascensão de Isabel II ao trono, 20 dias após a morte do seu pai, o Rei Jorge VI (1895-1952). A artista dedicava-se sobretudo a fotografar a sociedade, o que mostra ao decidir focar-se na beleza e jovialidade da quase Rainha.

Apesar de recentemente ter perdido o pai, vemos uma jovem retratada de forma serena e que por vezes mostra um ligeiro sorriso. Os seus olhos mostram uma esperança no futuro em algumas das imagens, enquanto noutras conseguimos perceber a mágoa que perdura. Embora quase não seja visível a sua roupa, percebemos que optou por uma modelo de cor preta, provavelmente como forma de simbolizar o luto.

2. Jamie Reid, God Save the Queen, capa de vinil, 1977. Art Fund Popular Portraits Collection.

Fonte: NationalPortraitGallery.

Esta é, sem dúvida, a imagem mais icónica do mundo Punk, tornando-se ainda mais provocativa por ser desenhada em 1977, o ano do Jubileu de Prata da Rainha Isabel II.

Jamie Reid (n. 1947) pega numa fotografia tirada pelo fotógrafo real Peter Grugeon (1918-1980) e no lugar dos olhos e boca da monarca coloca o nome da banda Sex Pistols e o título do single God Save the Queen. Usa letras retiradas de um jornal e coladas lado a lado uma a uma, assemelhando-se a uma nota de resgate.

Ao contrário do que muitos pensam, esta não é uma crítica à Rainha em particular, mas sim à Monarquia em geral. O movimento Punk tinha como um dos seus ideais o derrubar da Monarquia, demonstrando isso nesta obra a partir da imagem da sua maior representante.
Os Sex Pistols, banda formada em 1975, lançam God Save the Queen como forma de protesto à falta de oportunidades para os mais novos e ao regime fascista. Esta música catapulta o Punk para o lado mais mainstream, chegando ao número dois dos tops oficiais do Reino Unido, o que faz com que a imagem tenha sido vista por muitos já na altura e recebida com grande choque. É exactamente esse choque que faz com que tenha sido banida pela BBC e por lojas como a Woolworth e a W. H. Smith que se recusaram a vender o single.

3. Andy Warhol, Queen Elizabeth II of the United Kingdom, serigrafia em papel, 1985, série limitada de 40 impressões.

Fonte: Sotheby’s.

Tal como as serigrafias coloridas que fez de ícones do cinema (e não só) como Marilyn Monroe (1926-1962) e Elizabeth Taylor (1932-2011), Andy Warhol (1928-1987) realizou um portfólio com dezasseis retratos das quatro Rainhas que governavam em 1985: a Rainha Isabel II do Reino Unido, a Rainha Beatriz dos Países Baixos, a Rainha Margarida II da Dinamarca e a Rainha Ntombi Twala da Suazilândia, resultando em quatro retratos de cada monarca.

Este da Rainha Isabel II é feito a partir de uma fotografia que o já mencionado Peter Grugeon tirou a 2 de Abril de 1975, no Windsor Castle, para celebrar o Jubileu de Prata da monarca, em 1977. Algumas das impressões foram borrifadas com pó de diamante.

Tal como é comum nestes trabalhos do artista americano, a mesma imagem é utilizada nas quatro serigrafias, sendo que apenas a paleta cromática se altera. A figura da Rainha é fragmentada por várias formas e blocos de cor sobrepostos. As superfícies multicoloridas e a sugestão que Warhol dá de uso de maquilhagem enaltecem o glamour e a feminilidade da representada, criando uma imagem artificial, mas ao mesmo tempo sedutora e memorável. Ainda assim, a face da Rainha surge-nos como uma máscara impenetrável.

A Royal Collection Trust adquiriu, em Setembro de 2012, um dos 40 exemplares desta edição limitada como forma de assinalar o Jubileu de Diamante da Rainha.

4. Justin Mortimer, The Queen, óleo sobre tela, 1997. Royal Society of Arts.

Fonte: ArtNetNews.

Justin Mortimer (n. 1970) tinha 27 anos quando a Royal Society for the Encouragement of the Arts lhe pediu para pintar um retrato da monarca, de modo a assinalar os 50 anos de associação com a Rainha. Mas eles sabiam que a obra iria gerar controvérsia.

O fundo amarelo vibrante é uma referência à Yellow Drawing Room no Buckingham Palace, a sala na qual a Rainha posou para o retrato. A cabeça separada do corpo não é, ao contrário do que muitos pensaram e afirmaram, uma menção à Família Real e/ou à sua história de castigo por decapitação, mas sim uma forma de mostrar como o pintor considerou a Rainha desligada do mundo de então: “Senti como se ela fosse de outra era. Não tenho nada em comum com ela a não ser o facto de ser Inglês.” Uma leitura que faz parte de como era vista a Monarquia Inglesa naquele ano, sendo que muitos questionavam para que servia; não esquecendo que é também uma altura de fortes críticas à Coroa Britânica pela forma como lidaram com a morte da Princesa Diana, precisamente nesse ano de 1997.
A cabeça da Rainha é representada de forma clássica, ao contrário do seu corpo que apresenta formas abstractas dissolvidas num padrão xadrez e que marcam exactamente essa diferença entre o ritmo acelerado da vida moderna e o modo de vida tradicional da Família Real.

Muitos críticos de Arte consideraram a obra pateta e o artista chegou mesmo a receber telefonemas de várias partes do mundo a criticar a sua audácia de representar a Rainha deste modo.

5. Lucian Freud, Queen Elizabeth II, óleo sobre tela, 2001. Royal Collection Trust.

Fonte: EPPH.

David Dawson, Lucian Freud e Rainha Isabel II, 2001. Fonte: NationalPortraitGallery.

Este é um dos trabalhos mais pequenos de Lucian Freud (1922-2011), mas nem por isso perde a sua habitual carga poderosa, sendo que o pintor preenche toda a composição com a face da Rainha e nem mesmo o Diadema de Diamantes (que o artista pediu especificamente para ser usado) aparece na sua totalidade. Este não fazia parte da ideia original do retrato e por isso o pintor teve que reduzir ainda mais a cara da Rainha.

Este retrato, que o próprio pintor doou à Royal Collection Trust, divide opiniões: muitos consideram que, embora seja expressivo, o envelhecimento da Rainha ficou muito notório, ganhando uma importância superior ao que seria suposto; outros vêem nesta obra um substituto do rosto do próprio Freud, sendo que se aproxima bastante dos auto-retratos que viria a pintar ao final da sua vida/carreira. O seu lado controverso era previsível, pois mostra a antítese de uma Rainha até então romantizada. Aqui surge pensativa, talvez um pouco aérea e as marcas no seu rosto mostram o que já viu e viveu. Ainda assim, houve quem considerasse este o melhor retrato real dos últimos 150 anos.

O retrato em questão acontece por grande insistência de Robert Fellowes, secretário privado da Rainha até 1999 e amigo pessoal do pintor, que vê o seu pedido aceite por Lucian Freud aquando a chegada da sua reforma. As sessões acontecem entre Maio de 2000 e Dezembro de 2001, tinha ele 77 anos e a Rainha 74. Ao contrário da prática habitual de Freud, foi ele quem se deslocou em todas as sessões para o Palácio de Saint James, ao invés de convocar a modelo para o seu estúdio em Holland Park.

6. Hew Locke, Koh-i-noor, assemblagem de objectos vários, 2005. Brooklyn Museum.

Fonte: TheArtNewspaper.

Hew Locke (n. 1959) nasceu no Guiana, um país que pertenceu ao Império Britânico entre o início do século XIX e o 1966, quando conseguiu a sua independência.
Com esta introdução não é difícil perceber qual será a intenção da obra.

A partir da utilização de vários objectos de plástico de baixo valor como flores, insectos, cabeças de bonecas, espadas de brincar, entre outros, Locke faz uma representação monumental da Rainha cujo título, Koh-i-noor, evoca o diamante que é utilizado na coroa da Rainha-Mãe desde 1937. Diamante esse que esteve na posse de vários governantes Sikh, Mughal e Persa, até ser “cedido” à Rainha Vitória como marco da anexação da Índia ao Império Britânico. Locke explora, assim, as histórias coloniais na sociedade contemporânea, reforçando as vias de ganância, vaidade e artificialidade que caracterizam a Coroa Inglesa.

7. George Condo, Dreams and Nightmares of the Queen, óleo sobre tela, 2005.

Fonte: ArtNetNews.

Denominado como “The Cabbage Patch Queen”, devido à parecença com os famosos brinquedos dos anos 1980, este é, com certeza, um dos retratos mais odiados da Rainha Isabel II.

Esta obra de George Condo (n. 1957) pertence a uma grelha de nove, sendo que esta foi a primeira a aparecer ao público inglês a partir de uma exposição na Tate Modern, cuja sala escolhida não tinha capacidade para mostrar a grelha completa.
O pintor, que tinha a ideia inicial de pintar a Rainha nua, inspirou-se em várias fotografias que viu e em histórias que leu sobre a protagonista. Esta aparece com um pescoço muito longo, os lábios metidos para dentro, ombros altos e a coroa na cabeça. Os tons das jóias misturam-se com o cabelo grisalho da monarca. Estas distorções e visões quase ao modo Surrealista são muito comuns na obra de Condo, sendo que há várias décadas cria retratos deste modo.

A ideia do pintor é que os seus trabalhos transmitam humor e não que sejam vistas como degradantes. Quer que o público fique com um sorriso na cara, tal como ele fica quando vê obras de que gosta.

8. Chris Levine, Lightness of Being, impressão lenticular em caixa de luz, 2007. National Portrait Gallery.

Esquerda: Fonte: NationalPortraitGallery.
Direita: Nina Duncan, Chris Levine e Rainha Isabel II, 2007. Fonte: Country&TownHouse.

Dinheiro da Ilha de Jersey. Fonte: ChrisLevine.

Esta série de fotografias de Chris Levine (n. 1960) foi comissionada pela Jersey Heritage Trust como forma de marcar os 800 anos de aliança entre a Coroa Inglesa e a Ilha de Jersey.
O fotógrafo, pioneiro no campo da Arte com luz, pediu que a Rainha se fizesse acompanhar de vários casacos e capas e por isso temos uma série fotográfica na qual podemos ver diversos modelos. Nesta imagem em particular, a monarca apresenta roupa de cerimónia que conjuga com um colar de pérolas e o Diadema de Diamantes.

O retrato oficial, que serviu para a capa da Time e ainda para ilustrar o dinheiro da Ilha de Jersey, mostra a Rainha de olhos abertos, mas como Levine utilizou uma câmara lenticular digital que dispara 200 vezes enquanto se move num carril de 360º à volta de quem posa, na altura de recompor a câmara, no fim de um dos circuitos, pediu à monarca para descansar e o resultado foi este.

Eu queria que a Rainha sentisse paz e por isso pedi-lhe para descansar; este é um momento de quietude que apenas aconteceu.

– Adam Levine.

Com os olhos fechado, a luz branca parece que emana da própria Rainha e não que está direccionada para ela através de lâmpadas.
É perfeitamente visível a gravidade a tomar conta dos, nesta altura, 78 anos de Isabel II. É, ainda assim, um dos retratos mais apreciados, mesmo por quem não tem interesse na Monarquia.

9. Nicky Philipps, HM Queen Elizabeth II with Willow, Vulcan, Candy and Holly, óleo sobre tela, 2013. Buckingham Palace.

Fonte: NickyPhilipps.

Esta obra de Nicky Philipps (n. 1964) foi comissionada pelo Royal Mail Group e apresenta a monarca de corpo inteiro. A ideia original, no entanto, era de representá-la apenas até aos ombros, como forma de utilizar a imagem para a série de selos que celebrava os 60 anos da sua coroação.

A Rainha enverga o colar e o manto da Ordem da Jarreteira, fundada em 1348 pelo Rei Eduardo III (1312-1377). A sua mão direita pousa numa mesa de mármore que lhe dá pela cintura, enquanto a mão esquerda está meio escondida no manto que veste. Aos seus pés, e tal como o título indica, vemos dois dos seus corgis e dois dorgis, os seus grandes e fiéis companheiros desde há várias décadas.
Philipps mostra, nesta obra, o gosto de dar brilho a certos elementos, como vemos no vestido branco da Rainha, a sua pele e cabelo, mas também nas jóias e nas partes brancas do pêlo dos vários cães.

Sejam comissionados por instituições próximas da Família Real Inglesa ou por vontade própria dos artistas, várias são, então, as obras que representam a agora falecida Rainha Isabel II, permitindo-a marcar um pouco do mundo artístico, fossem os motivos da sua representação do seu agrado ou não.

Para além dos diversos motivos para o retrato, são ainda várias as técnicas utilizadas para tal, sendo que não nos ficamos apenas pela Pintura, havendo espaço para a Fotografia de retrato dita mais normal, mas também experimental, e ainda para a Assemblagem, permitindo ainda traçar o envelhecimento da monarca ao longo dos anos.

Referências:
National Portrait Gallery – Lucian Freud; Chris Levine; Jamie Reid.
Art Net News – 30 of Our Favorite Portraits of Queen Elizabeth II to Celebrate Her 63-Year Reign;
Tate Modern – Andy Warhol;
Royal Collection Trust – Andy Warhol;
Chris Levine;
CNN Style – Picturing the Queen: How artists portrayed Queen Elizabeth II through her reign;
Nicky Philipps;
The Art Newspaper – The best artist portraits of Queen Elizabeth II, from Cecil Beaton’s fairytale glitter to Jamie Reid’s punk provocation;
Brooklyn Museum – Koh-i-noor;
The Guardian – George Condo retrospective opens at the Hayward Gallery;
The New Yorker – The Queen, Continued;
Country & Town House – 5 Artists Who Have Painted Queen Elizabeth II.

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