História da Arte em Big Mouth

Algumas das séries da Netflix apresentam ligações ao mundo da História da Arte, seja por cenas que, de alguma forma, se baseiam em obras ou simplesmente por preencherem os interiores dos locais habitados pelas personagens com, lá está, obras de arte. Big Mouth é um desses exemplos. Esta série fala-nos de um grupo de jovens que atravessa a puberdade com a companhia dos seus monstros das hormonas que lhes explicam tudo o que isto trás de mal, mas também tudo o que pode vir de bom destes novos desenvolvimentos.

São muita as pinturas e uma ou outra escultura que podemos encontrar ao longo dos vários episódios das já cinco temporadas de Big Mouth. Se algumas das peças nos saltam imediatamente aos olhos e várias vezes, há outras que exigem um olhar mais atento e rápido. A partir do momento em que nos apercebemos que existem estes pequenos easter eggs artísticos, há toda uma vontade de analisar os espaços à espera de ver onde surgem mais. Digo eu, como Historiadora da Arte.
As obras que aparecem são principalmente de artistas modernos, não por uma questão de gosto, mas sim por ser mais fácil a adaptação destas obras ao universo animado da série pela simplicidade do desenho, ao contrário do que exigiriam, por exemplo, obras do Renascimento ou do Barroco. Ainda assim, há algumas excepções sempre em momentos em que faz sentido que assim seja.

Convido-vos a seguir esta viagem comigo, avisando que o artigo pode conter spoilers. Avancem com precaução, caso ainda não tenham visto a série completa.

Esquerda: Big Mouth, temporada 3, episódio 3. Netflix.
Direita: Henri Matisse, A Dança, óleo sobre tela, 1909-1910. Hermitage Museum. Fonte: HermitageMuseum.

Henri Matisse

Esquerda: Big Mouth, temporada 1, episódio 1. Netflix.
Centro: Big Mouth, temporada 3, episódio 4. Netflix.
Direita: Henri Matisse, Nu Azul II, guache sobre papel, 1952. Museum of Modern Art. Fonte: MoMA.

Esquerda: Big Mouth, temporada 1, episódio 8. Netflix.
Direita: Henri Matisse, Icarus, ilustração de “Jazz”, 1947. Metropolitan Museum of Art. Fonte: TheMET.

Esquerda: Big Mouth, Netflix.
Direita: Henri Matisse, Le Gerbe, revestimento cerâmico embutido em gesso, 1953. LACMA. Fonte: LACMA.

Esquerda: Big Mouth, temporada 1, episódio 8. Netflix.
Centro e Direita: Big Mouth, temporada 1, episódio 5. Netflix.

Henri Matisse, Composição (Os Veludos), guache sobre papel colado sobre papel branco, 1947. Kunstmuseum Basel. Fonte: Invaluable.

Esquerda: Big Mouth, temporada 4, episódio 10. Netflix.
Direita: Henri Matisse, O Caracol, guache sobre papel colado em tela, 1953. Tate Modern. Fonte: TateModern.

Comecemos por um dos artistas mais representados e que é também um dos que aparece mais vezes, preenchendo várias das divisões da casa da família Birch. São mais de uma dezena de peças de Henri Matisse (1869-1954) que se dividem entre os corpos nus como A Dança e Nu Azul II, esta segunda que aparece noutra cor; a vegetação com La Gerbe, que podemos ver virado do avesso pendurado sobre a cama do casal; e as obras geométricas do artista francês como é o caso de O Caracol.
Matisse é muito conhecido pelo seu uso de cor e pelo seu desenho, tido como um dos artistas que ajudou a definir os desenvolvimentos revolucionários da Arte no abrir do século XX. Pertence ao grupo dos Fauvistas e alguns dos seus melhores trabalhos focam-se em formas achatadas e padrões decorativos. Nessa categoria encaixam-se quase todas as obras mostradas na série, à excepção de O Caracol que corresponde a uma altura mais tardia da vida do artista que lidava aqui com uma doença que o impedia de pintar, optando por se dedicar ao universo das colagens.

Keith Haring

Esquerda: Big Mouth, temporada 1, episódio 5. Netflix.
Centro e direita: Big Mouth, temporada 3, episódio 1. Netflix.

Esquerda: Keith Haring, Ícones 2, serigrafia com relevo, 1990. Fonte: Haring.
Centro: Keith Haring, Sem Título, tinta sobre papel, 1988. Fonte: Haring.
Direita: Keith Haring, Sem Título (barco vermelho), impressão, 1987. Fonte: Pinterest.

Embora a família Birch tenha agora a sua casa preenchida por obras de Matisse, há um momento de flashback que nos mostra que nem sempre foi assim. Em tempos, houve espaço para Keith Haring (1958-1990), tal como há agora na casa de outra personagem – Matthew.
Keith Haring aprendeu a desenhar muito novo começando pelas técnicas de cartoon, um método que leva para o resto da vida e que vemos implementado no seu trabalho. Interessava-lhe a arte que se desenvolvia fora do espaço do museu e das galerias e é exactamente isso que encontra em Nova Iorque. O seu trabalho gráfico dá primazia à linha, dedicado a criar um arte verdadeiramente pública, tendo trabalhado muito nos painéis existentes ao longo das estações de metro. Em Abril de 1986, abriu uma loja no Soho onde vendia t-shirts, ímans, posters e brinquedos com desenhos seus permitindo, assim, que todos pudessem ter uma peça sua. Desenvolveu ainda um trabalho importante relativamente a causas sociais, como a sensibilização para o VIH/SIDA, do qual o próprio viria a falecer. Uma Pop Art extremamente voltada para o desenho e que tanto se mostra a preto-e-branco como a cores garridas. As suas personagens que se apresentam como pequenos acrobatas são também um dos elementos comuns na sua obra.

Pablo Picasso

Esquerda: Big Mouth, temporada 1, episódio 8. Netflix.
Direita: Pablo Picasso, As Meninas de Avignon, óleo sobre tela, 1907. Museum of Modern Art. Fonte: MoMA.

Ainda em casa da família Birch, numa ida de Nick ao sótão, deparamo-nos com o fantasma Pablo Picasso (1881-1973) a pintar As Meninas de Avignon, uma obra que marca uma quebra da composição e da perspectiva tradicionais na Arte, mostrando cinco mulheres nuas de planos achatados e com faces inspiradas em máscaras africanas e na escultura Ibérica. A menção a Avignon no título não tem que ver com a cidade francesa, mas sim com uma rua em Barcelona conhecida pelos seus bordéis. Uma obra de 1907 que causa algum desconforto ao olhar, o qual, ainda assim, não conseguimos desviar, sendo que os corpos nos prendem por simultaneamente parecerem muito afastados e muito próximos de nós. Picasso bane as convenções pictóricas e questiona as noções de beleza idealizadas e para este trabalho produziu uma quantidade fora do comum de desenhos preparatórios. Estas Meninas mostram a luta pela qual o pintor passou para reinventar a pintura ocidental com o seu cunho estilístico.
Apesar de Picasso ter sido, durante a sua vida, considerado representante de vários estilos como o Cubismo, o Classicismo e o Surrealismo, o artista resistiu activamente a que lhe colocassem uma etiqueta de categoria ao mesmo tempo que desafiou as noções do desenvolvimento linear, bebendo fontes e inspirações ecléticas de vários sítios, ao mesmo tempo que se entusiasmava com as inovações dos artistas seus contemporâneos, como Georges Braque (1882-1963).

Georgia O’Keeffe

Esquerda: Big Mouth, temporada 2, episódio 3. Netflix.
Direita: Georgia O’Keeffe, Figueira-do-Diabo/Flor Branca Nº. 1, óleo sobre tela, 1932. Crystal Bridges Museum of American Art. Fonte: Tate.

Em cima, à esquerda: Big Mouth, temporada 2, episódio 2. Netflix. // Em cima, ao centro e à direita: Big Mouth, temporada 2, episódio 3. Netflix.
Em baixo, à esquerda e ao centro: Big Mouth, temporada 1, episódio 4. Netflix. // Em baixo, à direita: Big Mouth, temporada 2, episódio 6. Netflix.

Esquerda: Georgia O’Keeffe, Música Rosa e Azul Nº. 2, óleo sobre tela, 1918. Whitney Museum of American Art. Fonte: Whitney.
Direita: Georgia O’Keeffe, Linhas Cinzentas com Preto, Azul e Amarelo, óleo sobre tela, 1923. Houston Museum of Fine Arts. Fonte: MFA.

Esquerda: Big Mouth, temporada 4, episódio 1. Netflix.
Direita: Georgia O’Keeffe, Flor Azul, pastel sobre papel em cartão, 1918. O’Keeffe Museum. Fonte: Whitney.

Já por aqui falámos da enorme representação que Georgia O’Keeffe (1887-1986) criou do Novo México. Outro dos grandes temas presentes na sua obra são as flores, pintadas sempre de modo bastante aproximado de quem as vê, como se nos estivéssemos a aproximar para as cheirar. São exactamente as suas flores que aparecem, nas mais diversas cores e formas, a pontuar a casa da família de Jessi, que mais tarde habita apenas com a mãe, tornando-se o poiso de duas fortes feministas da série. Aparecem por todo o lado desde a entrada, os corredores, a sala, a cozinha e até o quarto da mãe, sendo esta muito fácil de identificar como Figueira-do-Diabo/Flor Branca Nº. 1, de 1932, a qual foi vendida como a obra mais cara produzida por uma mulher.
Este foi um motivo que captivou a artista desde muito cedo na sua carreira por se sentir atraída pelas cores e formas intricadas que as flores apresentam. O seu modo close-up de as representar permite ao espectador a possibilidade de ver pequenos pormenores que não estariam visíveis num modo mais afastado. O’Keeffe pretendia que as pessoas tivessem tempo para observar “as suas flores”, como dizia, já que ninguém tirava um momento do seu dia para observar as flores reais pelas quais passamos constantemente.

Frida Kahlo

Big Mouth, temporada 2, episódio 1. Netflix.

Frida Kahlo, Eu e os Meus Papagaios, óleo sobre tela, 1941. Colecção Privada. Fonte: WikiArt.

Numa casa de feministas não podia, obviamente, faltar uma obra da artista mexicana Frida Kahlo (1907-1954). Eu e os Meus Papagaios, um auto-retrato de 1941, é uma das excepções aos trabalhos de linhas e detalhes mais simplificados que aparecem na série. Nele vemos uma Frida Kahlo que se apresenta calma e com uma aparência simples, duas características que contrastam com o detalhe das penas dos papagaios e o seu olhar atento e de protecção perante a que lhes dá colo. É um dos vários auto-retratos que a artista pintou com os seus animais, coincidindo com a altura em que volta a casar com Diego Rivera (1886-1957), embora mantivesse um caso com o fotógrafo Nickolas Murray (1892-1965). Podemos ver uma história semelhante na série, sendo que os pais de Jessi estão a tentar dar uma segunda oportunidade ao casamento, ao mesmo tempo que a mãe já se vê como uma mulher livre e capaz de seguir a sua vida com outra pessoa.

We Can Do It!

Esquerda: Big Mouth, temporada 3, episódio 4. Netflix.
Direita: J. Howard Miller, We Can Do It!, poster, 1942. Fonte: NationalMuseumofAmericanHistory.

Mais uma vez, temos o exemplo de uma peça que reflecte o espírito feminista de Jessi. Este poster, da autoria do designer gráfico norte-americano J. Howard Miller (1898-1985), foi criado por volta de 1942 para a Westinghouse Electric & Manufacturing Company de forma a inspirar as trabalhadoras que ficaram a assegurar o funcionamento do espaço, enquanto os homens combatiam na guerra, a trabalhar mais afincadamente. Esteve pouco tempo exposto da fábrica (apenas durante Fevereiro de 1943), mas acabou por se tornar um dos ícones mais conhecidos da Segunda Guerra Mundial. Após a guerra, muitos aproveitaram a atitude empoderadora da mulher desenhada para refazer o seu significado, sendo que, a partir dos anos 1980, esta imagem, uma das mais requisitadas na National Archives and Records Administration, foi difundida de modo a promover o feminismo e outros temas políticos que surgiram na época.

Ovos Fabergé

Big Mouth, temporada 1, episódio 4. Netflix.

Casa Fabergé, Ovo da Coroação, 1897. Fabergé Museum. Fonte: Fabergé Museum.

Os Ovos Fabergé foram já largamente analisados aqui no proximArte. Essas peças incríveis que marcaram o panorama artístico que circundava os últimos czares da Rússia, estando agora dispersos por várias colecções e alguns ainda desaparecidos após a Revolução. Os ovos que aqui vemos são todos relativamente diferentes dos originais, embora seja possível reconhecer a inspiração de alguns. É de notar a atenção da equipa de design da série em trazer para os ambientes peças de arte que mostram não só vários artistas como também diferentes civilizações e países.

Antiguidade Clássica

Esquerda: Big Mouth, temporada 2, episódio 7. Netflix.
Direita: Big Mouth, temporada 5, episódio 3. Netflix.

Esquerda: cópia de Myron, Discóbolo, mármore. British Museum. Fonte: BritishMuseum.
Direita: Ânfora de pescoço alto com figuras negras, cerâmica, 520-500 d.C. Musei Vaticani. Fonte: MuseiVaticani.

De modo muito pontual, Big Mouth fez também referências ao universo da Antiguidade Clássica, tanto a partir da Escultura como da Cerâmica.
Começando pelas esculturas, elas estão inseridas numa sala pertencente a Guy Bilzerian, que toda ela nos remete para esta época, sendo que vemos pelo espaço várias colunas encimadas pelos seus capitéis dóricos. Nessa sala vemos ainda a personagem referida a interpretar Discóbolo, um jovem atleta grego que se posiciona para lançar o disco. A obra original é grega, data de 460-450 a.C. e, embora esteja perdida, é conhecida através de várias cópias que os romanos fizeram, sabendo-se também que era um bronze, ao contrário das cópias. Myron, o escultor original, era conhecido pela sua atenção ao detalhe anatómico, bem como por criar poses ousadas com ritmo.
Num momento distinto da série, vemos aparecer uma ânfora, ou seja um vaso grego com duas pegas que era utilizado para transportar vinho, azeite ou outros líquidos. Na peça que aparece em Big Mouth foi aplicada a técnica das figuras pintadas a preto (estilo prevalente entre os séculos VII a V a.C.), com os seus elementos principais a aparecerem em silhueta sobre a cor natural do barro, com apontamentos acentuados a esmalte vermelho e branco. As peças deste género em modo mais simples tinham um fim utilitário, enquanto que as mais elaboradas tinham propósitos cerimoniais, como para entrega aos vencedores de competições.

Piet Mondrian

Big Mouth, temporada 1, episódio 10. Netflix.

Esquerda: Piet Mondrian, Composição C, óleo sobre tela, 1935. Colecção Privada. Fonte: PietMondrian.
Direita: Piet Mondrian, Trafalgar Square, óleo sobre tela, 1939-1943. Museum of Modern Art. Fonte: MoMA.

O percurso de Piet Mondrian (1872-1944) é muito variado, mas em Big Mouth vemos apenas referências aos seus quadros de linhas pretas e superfícies lisas de cores primárias, os quais aparecem a partir de 1921. Mondrian foi um pintor holandês pioneiro da Arte Abstracta, começando por se dedicar à pintura de paisagem que evoluiu para trabalhos rigorosos de geometria abstracta. Com os tempos que passou em Paris, foi influenciado pelo Cubismo, levando as suas bases até ao ponto da Abstracção. Chama Neo-Plasticismo ao seu trabalho, o qual consiste nas três cores primárias e grelhas de linhas pretas sobre fundo branco. Pinta sobretudo telas quadradas ou então orientadas verticalmente, embora na série as vejamos todas em modo horizontal, sendo esta uma forma de criar alguma diferença entre o real e o animado, não sendo muito difícil de reproduzir estas obras no universo de Big Mouth. Ao contrário de outras obras que vemos pelas cinco temporadas, a estas são acrescentados detalhes que se relacionam com as personagens às quais pertencem, neste caso um dos monstros das hormonas, aquando uma visita ao local onde eles se reúnem (e que podemos ver com mais detalhe na série Human Resources).

Estátua da Liberdade

Esquerda: Big Mouth, temporada 1, episódio 2. Netflix.
Direita: Estátua da Liberdade, Nova Iorque. Fonte: NationalParkService.

Construída para representar o centenário da sua independência bem como a amizade entre os Estados Unidos da América e a França, a Estátua da Liberdade parte de uma ideia do activista Edouard de Laboulaye (1811-1883), em 1865, e começa a ser desenhada pelo escultor Auguste Bartholdi (1834-1904) em 1870, iniciando a sua construção seis anos depois. Foram várias as fases de construção e à medida que os elementos ficavam prontos eram expostos em eventos: o braço que segura a tocha ficou completo em 1876 e figurou na Exposição do Centenário em Filadélfia; a cabeça e os ombros estavam prontos em 1878 permitindo a sua exibição na Exposição Universal de Paris; a estátua como um todo foi completada e montada em Paris entre 1881 e 1884, ano em que começou também a construção do pedestal nos Estados Unidos da América. A estátua foi revelada a 28 de Outubro de 1886, símbolo de esperança para quem via o país como uma escapatória.

Leonardo da Vinci

Big Mouth, temporada 3, episódio 7. Netflix.

Esquerda: Leonardo da Vinci, Desenho fisiológico do do cérebro e crânio humanos, c. 1510. Kunstsammlungen zu Weimar. Fonte: Wikimedia.
Direita: Leonardo da Vinci, Os músculos do ombro, braço e pescoço, c. 1510-1511. Fonte: RoyalCollectionTrust.

Para além de artista e de inventor, Leonardo da Vinci (1452-1519) foi também um aficcionado pelo corpo humano, nomeadamente por perceber como tudo funciona dentro de nós. Através da dissecação de mais de 30 corpos em hospitais e escolas médicas, criou vários desenhos onde podemos ver não só corpos, mas também ossos, músculos e até o cérebro, resultando num tratado sobre o assunto, no qual aliou os desenhos a notas que tirava durante o processo.
Numa cena levada ao passado num gabinete médico, conseguimos exactamente ver alguns cartazes inspirados nesses desenhos de Da Vinci, os quais podiam ter revolucionado o mundo médico, mas que se mantiveram guardados nos pertences pessoais do artista, sendo descobertos apenas séculos depois.

Frederic Edwin Church

Esquerda: Big Mouth, temporada 3, episódio 7. Netflix.
Direita: Frederic Edwin Church, Niagara, óleo sobre tela, 1857. National Gallery of Art, Nova Iorque. Fonte: NationalGalleryofArt.

Numa das muitas voltas a tempos idos, conseguimos vislumbrar a obra Niagara de Frederic Edwin Church (1826-1900), um pintor paisagista norte-americano conhecido por pintar paisagens colossais, muitas delas referentes a locais exóticos. Esta pintura reflecte uma época em que vários artistas tentaram captar a beleza e o poder das cascatas de Niagara, consideradas a maior maravilha natural do país. O que Chruch faz aqui destaca-se marcadamente daquilo que os seus contemporâneos fizeram, a começar pelo tamanho da tela, a qual apresenta uma largura que mede o dobro da altura, permitindo assim captar mais da paisagem, criando uma cena panorâmica. A partir de desenhos que fez ao visitar o local várias vezes em 1856, o pintor conseguiu captar o espectáculo recorrendo a detalhes precisos e ao Naturalismo. Quem vê a tela sente-se mesmo como parte do local, pois a zona das cascata está tão aproximada que apenas vemos água e nada do chão que circunda a zona. Esta aproximação permite-nos ainda ver o ponto de início da queda de água. Uma pintura que foi imediatamente aceite pela crítica e pelo público, o que ajudou a estabelecer Frederic Edwin Church como o mais bem sucedido pintor americano da sua época. Aquando a estreia expositiva da obra, o público tinha a opção de a ver também através de binóculos de modo a melhorar a experiência visual.

Pré-História

Big Mouth, temporada 1, episódio 10. Netflix.

Mãos e cavalo das paredes da Caverna de Lascaux, sudoeste de França. Fonte: ArtHearty e Physorg.

Algo que podemos louvar em relação a Big Mouth é o facto de transportarem a Arte para todo o lado, mesmo quando fazem flashbacks a anos, séculos e civilizações anteriores. A Pré-História, conhecida como tempo do homem das cavernas, é um desses exemplos. Vemos cavalos, alguns dos muitos animais pintados por estes Homens, e também mãos numa muito provável referência à Gruta de Lascaux, descoberta em 1940 e localizada no sudoeste de França, remontando há 17 mil anos. A pintura das mãos acredita-se que foi criada a partir da colocação do membro nas paredes e sobre elas soprava-se um pigmento líquido através de um osso oco. As pinturas relativas aos animais, que no caso da série mostram apenas os cavalos, são vistas maioritariamente como altares. Os pigmentos utilizados eram o óxido de ferro, para o vermelho; o calium, para o branco; o natrojarosito, para o amarelo; o óxido de manganês, para o preto.

Antigo Egipto

Esquerda: Big Mouth, temporada 3, episódio 5. Netflix.
Direita: Ra a viajar na sua arca pelo submundo, do Livro dos Portões no túmulo de Rameses I, c. 1290 a. C. Fonte: Wikimedia.

Também numa referência à Civilização Egípcia temos essa ligação à Arte então criada. Numa cena com os pais de Andrew vemos as paredes de uma habitação pontuada por imagens que conhecemos como pertencentes a esta cultura. Uma delas remete-se ao Deus do Sol Ra, o qual é representado sempre com o sol acima da cabeça e, como é o caso do que vemos na série, pontualmente a deslocar-se na sua barca solar. Ra era o pai de todas as criações, patrono do sol, do céu, do poder e da luz. Podia ele próprio ser o sol e o dia, sendo responsável por levar o sol de volta para o submundo na sua barca.

O Futuro

Big Mouth, temporada 4, episódio 6. Netflix.

Vincent van Gogh, A Noite Estrelada, óleo sobre tela, 1889. Museum of Modern Art. Fonte: MoMA.

Esquerda: Gustav Klimt, O Beijo, óleo e folha de ouro sobre metal, 1908-1909. Belvedere Museum, Viena. Fonte: Belvedere.
Direita: Piet Mondrian, Composição II em Vermelho, Azul e Amarelo, óleo sobre tela, 1930. Kunsthaus Zürich. Fonte: KunsthausZürich

Esquerda: Leonardo da Vinci, Mona Lisa, óleo sobre madeira, 1503-1519. Musée du Louvre. Fonte: Louvre.
Direita: Franz Kline, Pintura Vermelha, óleo sobre tela, 1961. Whitney Museum of American Art. Fonte: Whitney.

Agora numa direcção completamente diferente e outra das excepções que nos mostra obras com mais detalhes tem lugar num episódio que fala de um futuro hipotético de fim do mundo. Numa nave que circula pelo espaço vemos Nick e Jessi numa divisão preenchida por obras muito conhecidas, seguindo uma ideia de quais aquelas que teriam de ser salvas da Terra. Há, claro, a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci; A Noite Estrelada, de Van Gogh (1853-1890); O Beijo, de Gustav Klimt (1862-1918); Pintura Vermelha, de Franz Kline (1910-1962); Composição II em Vermelho, Azul e Amarelo, de Piet Mondrian; não deixando de lado algumas peças de arte africana.
Esta escolha mostra realmente algumas das obras mais famosas da História da Arte e por isso faz sentido os criadores da série pensarem que são essas as que merecem habitar esta nave. Há, no entanto, uma escolha variada relativamente às nacionalidades dos artistas e é engraçado ver como acabaram por se reportar a artistas e estilos que disseram que seriam difíceis de incluir exactamente pelo detalhe do desenho e da pincelada. O facto de incluírem ainda peça africanas mostra um conhecimento pela História da Arte que vai para além do básico e também uma preocupação em dar lugar a vários povos e práticas artísticas, tal como foi possível verificar ao longo deste artigo.

Não deixa de ter o seu quê de engraçado que a primeira referência a Arte aconteça logo no primeiro episódio da série, numa menção a Jackson Pollock, artista do qual ainda não vimos obras a pontar os espaços de Big Mouth.
Hoje, dia 28 de Outubro, estreia a sexta temporada e resta esperar que os novos episódios tragam mais algumas obras que até então não apareceram e talvez, então, haja lugar para uma das drip paintings de Pollock.

Já tinham reparado nestas referências? Encontraram mais algumas que aqui não foram mencionadas?
O artigo será actualizado, caso a nova temporada assim o justifique.

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Referências:
ArtHearty – The Significance of Lascaux Cave Paintings Back in Those Days;
Artsy – How Matisse and O’Keeffe Ended Up in Netflix’s Big Mouth;
The British Museum – statue Diskobolos;
Dana Foundation – The Hidden Neuroscience of Leonardo da Vinci;
Keith Haring – Bio;
Musei Vaticani – Catálogo Online;
Museu Colecção Berardo – Piet Mondrian;
Museum of Fine Arts St. Petersburg – Black Figure Neck Amphora;
Museum of Modern Art – Pablo Picasso Les Demoiselles d’Avignon;
National Gallery of Art – Niagara;
National Museum of American History – “We Can Do It!”;
National Park Service – Creating the Statue of Liberty;
Rosicrucian Egyptian Museum – Deities in Ancient Egypt – Ra;
Royal Collection Trust – Leonardo da Vinci: The Mechanics of Man;
Tate – Georgia O’Keeffe;
Tate – Henri Matisse;
Tate – Piet Mondrian;
Whitney Museum of American Art – Georgia O’Keeffe: Abstraction;
Widewalls – The Most Sensual Georgia O’Keeffe Flowers in Paintings;
WikiArt – Me and My Parrots, Frida Kahlo;
Wikipedia – Lascaux.

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