Dia de Finados, de Aurélia de Souza

O Dia de Finados, ou dos Fiéis Defuntos, assinalado a 2 de Novembro, é um dos dias mais celebrados em Portugal, embora o façamos no dia anterior por ser feriado nacional devido ao Dia de Todos os Santos. Esta data, que celebra os que já partiram e ascenderam ao reino dos céus, é marcada pela ida ao cemitério para cuidar do lugar de repouso dos que já não estão connosco fisicamente. Romarias até às aldeias-Natal que juntam familiares num dia de recordação e saudade.

De forma simples e resumida, o Dia de Todos os Santos é consagrado a todos os Santos, Mártires e Confessores perseguidos e martirizados pela sua fé. O dia 1 de Novembro foi escolhido e instaurado no século VIII pelo Papa Gregório III, dedicando uma capela no Vaticano a estas almas. Uma data para celebrar todos os Santos que existiram, sendo que muitos são ainda desconhecidos mesmo dentro da própria Igreja e que aqui encontram um dia para si.
Já o Dia dos Finados é dedicado às pessoas comuns, os fiéis, uma data que se celebra desde o século XI. Os rituais de deixar flores relacionam-se com a crença de que estes pequenos gestos e celebrações ajudam à transição de quem partiu, não muito diferente da crença por detrás do Dia de los Muertos, no México. A este dia está ainda associado o ritual do Pão por Deus que leva as crianças a andar porta a porta a pedir este pão, sendo normalmente presenteados com bolos especiais da celebração ou fruta da época – uma oferta aos corpos que vagueiam ainda pelo mundo e que representam as almas que já partiram e que, deste modo, conseguem fugir ao Purgatório.

Vamos aliar os dois dias ao falar de uma obra que remete para o dia 2 de Novembro, mas no dia em que se assinala o feriado, pois é nele que todos fazemos aqui que vemos na obra Dia de Finados, de Aurélia de Souza.

Aurélia de Souza, Dia de Finados, óleo sobre tela, não datado, 32×40 cm. Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto.

Aurélia de Souza (1866-1922), aquando aluna de Marques de Oliveira (1853-1927) na Academia Portuense de Belas-Artes, praticou a pintura de História, o que envolve temas ligados à religião. Embora tenha pintado pouco esta temática, escolheu quase sempre ligá-la a esse lado religioso, tal como podemos ver no seu auto-retrato como Santo António, em A Visitação e em Jezabel Devorada pelos Cães por Ordem de Jehu, por exemplo. Na obra a que se dedica este artigo não vemos nenhuma figura ou história religiosa, mas sim a celebração de uma data desse universo, a qual depreendemos pelo título.
Após a sua partida para casa da sua irmã em Paris, em 1898, continuou a demonstrar interesse por essa prática, sendo que é de lá que nos envia a obra aqui em análise. A pintora volta para o Porto em 1901.
Nestas obras, Aurélia mostra tanto a sua formação académica como a influência do Simbolismo do fim do século XIX, período em que há um ressurgimento do lado espiritual. Trata as obras com a sua originalidade característica, nomeadamente a partir da desfocagem de algumas personagens, dando aos seus trabalhos uma aura fantasmagórica.

Dia de Finados insere-se nessa linguagem Simbolista e desfocada. Uma obra que nos mostra um espaço amplo de cemitério que nos permite focar em vários pontos e em múltiplas figuras. Existe uma divisão em três planos, os quais são marcados e divididos não só por aquilo que nos mostram, mas também pelas linhas horizontais no solo.
No primeiro plano vemos uma mulher esguia de aparência jovem representada de perfil e voltada para o nosso lado direito, de cabeça inclinada para frente que, com um ramo pendurado na mão direita, presta respeito a quem perdeu. Uma personagem que deixa transparecer tristeza, adequando-se ao momento vivido. A face desta mulher, embora não rica em detalhes, revela-nos alguns elementos como a orelha, a cova do olho, a forma do nariz e ainda a linha que demarca o queixo até ao pescoço, tendo em conta a posição da sua cabeça. Não bastasse o estar em primeiro plano, percebemos assim também como é ela a personagem principal da obra.
O segundo plano é habitado por um grupo de pessoas vestidas de preto e que dão uma carga sombria à obra. Os seus rostos surgem como meras pinceladas iluminadas pela luz do sol, às quais a artista não atribuiu detalhes de olhos, nariz e boca. Destas duas crianças e quatro adultos, a mulher mais à direita, e que está voltada numa direcção diferente das restantes figuras, vê a sua face com um desfoque ainda mais acentuado, pois está um pouco mais atrás. Este grupo ocupa o centro da composição.
O terceiro plano é apenas preenchido por arvoredo, de onde se destacam uma árvore de copa grande e dois ciprestes, e por grupos e construções escultóricas fúnebres, cujas linhas pouco definidas ajudam a que estes elementos fiquem cada vez mais esbatidos tendo em conta o nível de afastamento. Ao fundo, confundem-se, de certa forma, com o céu que preenche uma faixa superior do quadro a toda a sua largura.

Aurélia de Souza, Dia de Finados (detalhe do primeiro plano), óleo sobre tela, não datado, 32×40 cm. Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto.

Aurélia de Souza, Dia de Finados (detalhe do segundo plano), óleo sobre tela, não datado, 32×40 cm. Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto.

Aurélia de Souza, Dia de Finados (detalhe do terceiro plano), óleo sobre tela, não datado, 32×40 cm. Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto.

A paleta cromática é praticamente toda ela construída a partir de tons verdes, beges e castanhos, com alguns apontamentos distintos noutras cores como a blusa vermelho escuro da mulher; as já mencionadas vestes pretas do grupo; o branco dos números que sinalizam as campas no primeiro plano e de uma estátua em terceiro plano; as flores que vemos não só na mão da mulher como também na campa marcada com o número doze e ainda nas mãos de dois elementos dos grupo, uma delas uma criança que enverga trajes em tons mais claros.
Estes detalhes, mas principalmente as flores, trazem alguma vivacidade a uma obra que se ocupa de desolação. São também pequenos pontos que atraem o nosso olhar.
A luz desta obra destaca-se da quase penumbra que caracteriza as suas pinturas de interior.

O contraste entre o direccionamento da mulher do primeiro plano e do grupo atrás de si, bem como a sua colocação em planos diferentes e a indumentária distinta é um apontamento que Aurélia faz às diferenças sociais. Também as estátuas fúnebres no terceiro plano e a simplicidade das campas em terra que ocupam a frente da obra mostram essa diferença entre classes.

Vemos uma estética imposta pela sua sensibilidade naturalista, apresentando-nos uma obra mais preenchida do lado esquerdo e no centro, enquanto o lado direito tem mais espaço para respirar, resultando num perfeito equilíbrio de todos os elementos.

Aurélia de Souza, Dia de Finados (detalhe das flores), óleo sobre tela, não datado, 32×40 cm. Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto.

Aurélia de Souza, Dia de Finados (detalhe do céu e do espaço vazio), óleo sobre tela, não datado, 32×40 cm. Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto.

Aurélia de Souza, Dia de Finados (detalhe do céu e do espaço vazio), óleo sobre tela, não datado, 32×40 cm. Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto.

Seja celebrado no dia 1 de Novembro, no dia 2 ou ao longo do ano, no cemitério ou apenas através da memória e de acções no dia-a-dia, o que é transversal a estas datas é a carga sentimental que está presente quando celebramos alguém que já faleceu. Mais tarde, a tristeza apazigua, mas haverá sempre um espaço vazio reservado para essas pessoas e que nos fará sempre lembrar dos bons momentos que tivemos até à sua partida.

Aurélia de Souza retrata toda essa emoção e simbologia nesta obra. Fá-lo de um modo simples, cujos poucos detalhes das personagens nos permitem relacionar com o momento e fazer-nos transportar para este cenário, não se esquecendo, porém, de deixar uma achega ao modo como as várias classes sociais encaram este dia.

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Referências:
Almeida, Bernardo Pinto de, Arte Portuguesa no Século XX – Uma História Crítica, Coral Books, 2016;
Duarte, Adelaide, Aurélia de Sousa – Pintores Portugueses, QuidNovi, 2010;
França, José-Augusto, História da Arte em Portugal – O Pombalismo e o Romantismo, Editorial Presença, 2004;
Salteiro, Ilídio Óscar Pereira de Sousa, Do Retábulo, Ainda aos Novos Modos de o Fazer Pensar, 2005; disponível em CMÉvora;
A.Muse.Arte – Dia de Todos os Santos e de Finados;
Do Tempo da Outra Senhora – Dia de Finados;
MatrizNet – Dia de Finados, Aurélia de Souza.

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