Todo o Abel Salazar | Casa Comum (à Reitoria) da Universidade do Porto

No passado dia 15 de Novembro, inaugurou, na Casa Comum (à Reitoria) da Universidade do Porto, a exposição Todo o Abel Salazar. Esta mostra, com curadoria de Alexandre Lourenço, pretende prestar uma nova homenagem a esta figura incontornável da História do Porto e de Portugal e para isso conta com cerca de 100 objectos distintos e expostos por três salas.
A exposição divulga ainda o livro Testamento de um Morto Vivo Sepulto na Casa dos Mortos, em Barcelos, o qual foi escrito por Abel Salazar há quase 100 anos e que é agora publicado pela primeira vez.

Abel Salazar nasceu a 19 de Julho de 1889, em Guimarães. Em 1915, concluiu o curso de Medicina na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) com 20 valores, e em 1920 era já professor catedrático, tendo também fundado o Instituto de Histologia e Embriologia da mesma faculdade.
Republicano, anticlericalista e maçon com um verdadeiro sentido humanista e um sentido de justiça social, sabemos muito sobre o seu percurso enquanto médico, docente e investigador, algo que já não acontece com a sua vida pessoal.

“Todo o Abel Salazar” mostra o professor, cientista, artista, cidadão e pensador na força das suas convicções e na sua fragilidade humana, e evidencia a actualidade e relevância da sua obra para a compreensão e resolução de problemas actuais. Uma homenagem a uma das fortes referências da Academia Portuense.*

Reprodução de desenhos científicos de Abel Salazar. Fibras conjuntivas finas envolvendo as células adiposas, fibrorrexis. Espaço interfascicular preenchido com bolas de fibrorrexis. Septo conjuntivo do ovário de coelho. Figuras 15, 16, 17 e 18 do artigo científico Le Tissu conjonctif d’arés les données du Tanin-Fer II par Abel Salazar, “Acta Anatomica”, Separatum col. II, Fasc. I (1946).

Essa fragilidade humana está relacionada com o lado mais pessoal a que temos acesso nesta exposição, a qual se foca abertamente na depressão que Abel Salazar combateu entre 1926 e 1931.
Esta depressão é o resultado de uma sucessão de perdas de elementos da família, de problemas na Academia e da agitação que sentiu com a transição entre a República e a Ditadura. Fez com que o médico não se sentisse capaz de desenhar, ler, trabalhar e mesmo de sair de casa. Ficara preso entre a Arte e a Ciência. Desta forma, afastou-se da sua actividade de docente e investigador e, no decorrer de cinco anos, esteve internado em hospícios no Porto e em Barcelos, uma altura que, contrariamente ao que se poderia esperar, se revelou bastante produtiva, tendo Abel Salazar escrito cerca de dez livros com temas compreendidos entre a Filosofia e a Arte.

Foi precisamente na Casa de Saúde de S. João de Deus, em Barcelos, que escreveu o já mencionado livro Testamento de um Morto Vivo Sepulto na Casa dos Mortos, em Barcelos, o qual foi agora publicado pela primeira vez pela U. Porto Press.
Um dos elementos que compõe a exposição é um vídeo que aborda muito a questão da doença mental numa tentativa de combater a discriminação e o estigma social que ainda se associa a esse tipo de doenças. Foi também essa vontade que deu forma à decisão de lançar o livro.

Como já terão percebido, Abel Salazar foi um homem de muito interesses dos quais podemos destacar a Biologia, a Filosofia Científica, a Psicologia, a Neuropsiquiatria, o Direito, a História, a Estética, a Política e a Religião; já nos temas das suas publicações a Ciências e a Arte são rainhas.
A exposição mostra isso mesmo. Como disse Fátima Vieira, Vice-Reitora da Universidade do Porto com o pelouro da Cultura, é a primeira vez que, num só espaço, fora da Casa-Museu Abel Salazar, se conjugam as múltiplas valências de uma personagem tão multifacetada como foi Abel Salazar.*

São livros, objectos da vida quotidiana, objectos científicos, mobiliário, reflexões políticas, filosóficas, existenciais e peças artísticas, vestígios de um trilho para chegar um pouco mais perto do homem que celebrizou a frase “um médico que só sabe Medicina, nem de Medicina sabe”.*

Como não poderia deixar de ser, Abel Salazar foi também um homem das Artes. Nunca teve educação artística formal, por isso aprendeu através de experiências e com a observação dos grandes mestres, tendo uma influência de nomes fortes da Escola do Porto como Henrique Pousão (1859-1884), Artur Loureiro (1853-1932) e Silva Porto (1850-1893).
A sua Arte constitui-se dos habituais retratos e cenas de género, com grande destaque dado à mulher, sempre presente desde a classe trabalhadora à burguesia, em pintura de exterior e exterior. No entanto, a sua obra é também marcada pela forma pioneira como foi utilizada como ferramenta para a observação e comunicação da Ciência, sendo que desenhava o que via ao microscópio como maneira de mostrar os seus resultados – “símbolo da junção perfeita entre o lado científico e artístico.”
A sua obra artística é um reflexo de Abel Salazar enquanto médico e investigador, mas também enquanto pessoa.

Começou por produzir óleos luminosos, representando paisagens e cenas populares nortenhas, em campos e feiras. Com o tempo, as suas obras tornaram-se mais sombrias e consentâneas com o seu estado de espírito melancólico e atormentado. A mulher do povo, retratada no seu labor diário, é a grande protagonista da sua obra plástica.
Foi um desenhador compulsivo de figuras femininas, mas recorreu também ao desenho para realizar investigação e comunicar ciência: é hoje considerado, pelos seus óleos figurativos, um pioneiro do neorrealismo pictórico; nos seus tempos de estudante, o gosto pela caricatura tornou-se popular; experimentou a aguarela e notabilizou-se na criação de gravuras; fez litografia, criou cobres martelados; moldou o barro e compôs gessos patinados, reproduzindo em bustos-retratos personalidades da Cultura e da Ciência.
Nos anos 30 e 40 alcançou, finalmente, o reconhecimento público como artista plástico.**

Esquerda: Abel Salazar, Retrato de Silva Porto, óleo sobre madeira, não datado. Casa-Museu Abel Salazar.
Centro: Abel Salazar, Retrato do Mestre Artur Loureiro, óleo sobre madeira, não datado. Casa-Museu Abel Salazar.
Direita: Abel Salazar, Retrato de Henrique Pousão, óleo sobre madeira, não datado. Casa-Museu Abel Salazar.

Esquerda: Abel Salazar, Dra. Adelaide Estrada, óleo sobre madeira, não datado. Casa-Museu Abel Salazar.
Direita: Abel Salazar, Ramon y Cajal, bronze, não datado. Casa-Museu Abel Salazar.

A sua voz activa como republicano iria trazer-lhe dissabores, quando, em 1935, a Ditadura emite uma portaria que o afasta do seu papel de catedrático, do laboratório e ainda da Biblioteca da FMUP, sendo também proíbido de se ausentar do país. O motivo apresentado foi “a influência deletéria da sua acção pedagógica sobre a mocidade universitária.”
É no início da década de 1940 que tem permissão para voltar à Universidade do Porto como director do Centro de Estudos Microscópicos na Faculdade de Farmácia, conseguindo ainda trabalhar no Instituto Português de Oncologia.

Abel Salazar morre a 29 de Dezembro de 1946, em Lisboa, vítima de cancro do pulmão. Cerca de 50 mil pessoas marcaram presença no cortejo fúnebre que teve início na Casa dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto.

Abel Salazar, Autoretrato, óleo sobre madeira, 1926. Casa-Museu Abel Salazar.

Nas três salas desta exposição conseguimos perceber um pouco quem era Abel Salazar em todas as suas vertentes. São, no entanto, as suas pinturas que tomam conta do espaço e que nos assaltam de todas as direcções; mesmo quando se tratam de retratos de outros, há um quê de pessoal, pois vemos como ele admirava e respeitava estas pessoas. É-nos ainda possível perceber a melancolia que pautava a sua vida e que tornava as suas telas escuras, mas, ainda assim, repletas de uma beleza específica do seu criador.

Percorrer esta exposição é semelhante a visitar a sua casa ou uma salão de exposições dedicado à sua obra, pois vemos cerca de 100 objectos compreendidos entre itens pessoais, profissionais, livros, pintura, escultura, desenhos, mobiliário e ainda algumas reflexões. As pinturas que habitam as paredes acompanham-nos enquanto percebemos o percurso da sua vida, a sua doença e o seu trabalho como médico, professor e investigador.

Um homem que em tanto contribuiu para o país e para o mundo – como cientista, devemos a Abel Salazar a descoberta do método tanoférrico, em 1920; do Para-Golgi, em 1923; e de achados científicos sobre o sangue, em 1944 -, mas que se viu afastado do lugar que lhe pertencia e era merecido por ter opiniões políticas contrárias ao que seria desejável na época. Quem sabe que outras descobertas estariam no seu percurso.

Abel Salazar, obra inacabada, óleo sobre madeira, não datado. Casa-Museu Abel Salazar.
Cavalete de madeira que pertenceu a Abel Salazar.

Todo o Abel Salazar pode ser visitada até 17 de Fevereiro de 2023, entre Segunda e Sexta-Feira, das 10h às 13h e das 14h30 às 17h30; e ao Sábado, das 15h às 18h; encerrado aos domingos e feriados.
A entrada é livre.
Para mais informações: Todo o Abel Salazar.

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Referências:
Vista à exposição Todo o Abel Salazar**;
Casa Comum;
Notícias UP – Universidade do Porto, Casa Comum – Casa Comum Apresenta “Todo O Abel Salazar”*.

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