Keith Haring e a Consciencialização para o HIV/SIDA

Hoje, dia 1 de Dezembro, assinala-se o Dia Mundial de Combate à SIDA.

O surto de HIV/SIDA começou nos anos 1980, alcançando o estatuto de pandemia global na década de 1990, após o número de infectados atingir os dois milhões e meio por todo o mundo.
Em 1989, um americano era diagnosticado com SIDA a cada minuto. Quatro pessoas morriam da doença a cada hora. Em 1991, já 100 mil americanos tinham sucumbido.

Falo-vos mais directamente sobre dados dos Estados Unidos da América, porque o presente artigo foca-se precisamente num artista americano que não baixou os braços durante esta altura e que usou a sua arte para educar as pessoas sobre o tema, numa tentativa de fazer com que o HIV, a SIDA e as pessoas por eles afectadas directamente não sofressem de um estigma tão gritante: Keith Haring.

Keith Haring, Safe Sex!, poster, 1987. Fonte: HeroMagazine.

Keith Haring nasceu a 4 de Maio de 1958, em Pittsburg. Desenhou desde novo, aprendendo as técnicas básicas de cartoon com o seu pai, sendo também influenciado pela estética da Walt Disney, de Dr. Seuss e dos Looney Tunes.
Mudou-se para Nova Iorque, em 1978, para estudar na School of Visual Arts onde experimentou várias expressões artísticas como a Performance, o Vídeo, a Instalação e a Collage, nunca deixando o desenho para trás. É a ele, ao desenho, que vai adicionar o seu interesse por escultura e por movimento para criar as suas peças desenhadas, mas que parecem sempre estar a mexer-se e a querer saltar do suporte onde foram desenhadas.

A sua estética era e é imediatamente reconhecível, tornando-se a sua imagem de marca.

O público toma conhecimento dos desenhos de Haring no metro de Nova Iorque, onde ele usava giz branco para dar vida a espaços de anúncios vazios. A partir daí, a sua carreira é lançada e a década de 1980 é repleta de trabalho, exposições a solo e exposições colectivas de grande gabarito como a Whitney Bienal ou a documenta 7.

Trabalha desde escalas pequenas, como telas, a escalas monumentais, tendo criado vários murais pelo mundo fora. No momento de criar, seja em que suporte for, não se baseava em ideias ou esboços preparatórios, mas sim no que sentia no momento em que tinha as tintas e os pincéis nas mãos. Pintava o que lhe dizia o seu subconsciente e o que sentia e pensava naquele momento, seguindo o seu estado de espírito. No que toca a obras murais, gostava da ideia de ter que se adaptar às irregularidades das paredes que escolhia e fazer o seu corpo acompanhar essa dança de cimento. Era bastante pró-activo, criando vários desenhos por dia quando assim conseguia.

O objectivo principal de Keith Haring era o de chegar a todo o público, quebrando as barreiras que existiam entre a arte pública/urbana, que era grátis e acessível a todos, e o mundo privilegiado das galerias e coleccionadores abastados. Deste modo, embarcava nestas obras de rua e em trabalhos comerciais que lhe permitissem chegar o mais longe possível.
O seu trabalho urbano era considerado vandalismo e por isso foi detido algumas vezes. Haring aproveitava a atenção que estas detenções suscitavam no público, pois significava que mais pessoas viam o seu trabalho no geral e de sensibilização em particular.
Não lhe interessava aqueles que se baseiam em idas a museus e a galerias para ter contacto com a Arte. Isto faz com que, em 1986, abra uma loja no SoHo, a Pop Up, onde vendia objectos, como t-shirts e brinquedos, com desenhos seus, permitindo que todos pudessem adquirir a sua obra. Mais pessoas com acesso à sua obra aqui vendida a um preço reduzido, sendo que o item mais barato custava 2 dólares.

Os trabalhos que eu criei vão ficar aqui para sempre. Há milhares de pessoas reais, não só museus e curadores que foram afectados ou inspirados e ensinados pelo trabalho que eu fiz. Por isso, o trabalho vai viver muito para além de mim.

– Keith Haring em entrevista ao seu biógrafo, 1989.

Keith Haring em Amesterdão, em 1986. Fonte: Wikipedia.

Haring era assumidamente homossexual e ao mudar-se para Nova Iorque encontrou um lugar onde podia finalmente sentir-se livre e descobrir quem era realmente. Mas esta vontade de viver ficou rapidamente associada a medo, morte e estigma, quando a SIDA e o HIV começaram a entrar na vida de muitas pessoas por todo o mundo e ao seu redor.
O facto de ver várias pessoas do seu círculo próximo de amigos a testar positivo para o vírus e eventualmente a sucumbir do mesmo, motivou Haring a manter-se criativo numa tentativa de aproveitar o máximo de tempo que tinha (pois todos pensavam que seguramente a sua vez chegaria), mas também para criar consciencialização sobre o tema.

Infelizmente, como muitos naquela época, o artista contraiu o vírus HIV, em 1988. Descobriu, assim, aos 29 anos que estava infectado e embora isso tenha sido um duro golpe para ele, Haring não baixou os braços e continuou a criar, mais agressivamente do que nunca.

Assim que o Keith obteve o diagnóstico, ele basicamente aumentou tudo, ele só trabalhava e trabalhava e trabalhava e trabalhava e trabalhava, ele criou tanta arte. Viajava que nem um doido.

– Julia Gruen, amiga de Keith Haring.

Keith Haring, Talk to Us!, poster, Nova Iorque, 1889. Fonte: HaringFoundationBlog.

Keith Haring, Ignorance = Fear / Silence = Death, poster, 1989. Whitney Museum. Fonte: WhitneyMuseum.

Em 1989, fundou uma fundação, a Keith Haring Foundation, que ainda hoje providencia fundos e imagens para organizações relacionadas com a SIDA e para programas infantis. Era um artista activista. Foram muitas as vezes que contribuiu com milhares de dólares para ajudar organizações de consciencialização para a SIDA a conseguir suportar os custos de novas acções.

Haring queria, acima de tudo, acabar com a estigmatização e medo que rodeavam o tema HIV e SIDA. Encoraja à pesquisa de tudo o que envolvia a SIDA de modo a que se descobrissem todas as causas, como evitar a sua propagação e também como curar ou atenuá-la. Pede que as pessoas não fechem os olhos à situação.
Numa altura em que poucos falavam sobre o assunto, principalmente pessoas conhecidas de todos, o artista deu o primeiro passo ao falar sobre tudo numa entrevista à revista Rolling Stone. Embora muitos tenham louvado a sua coragem de falar aberta e publicamente sobre a sua doença, houve também quem tenham decidido começar a evitá-lo, principalmente amigos e conhecidos do mundo das celebridades.

Os miúdos vão fazer sexo, por isso ajudem-nos a fazer sexo seguro. As pessoas ainda não praticam sexo seguro. Conheço imenso miúdos que acham que se estiverem a comer raparigas que isso não se aplica a eles. Eles odeiam usar preservativos. Mas a transmissão heterossexual é uma das causas principais para os novos casos.

– Keith Haring em entrevista à revista Rolling Stone, 1989.

A ignorância que existia na altura relativamente ao vírus tirou a Keith Haring o lado colaborativo do seu trabalho, sendo que também alguns dos seus amigos e colegas se afastaram e deixou de ser confiável para as acções que desenvolvia em ambiente escolar, bem como para trabalhar em obras em conjunto com as crianças.

Keith Haring, Safe Sex, acrílico sobre tela, 1988. Fonte: KeithHaringFoundation.

Keith Haring, AIDS:Trading Fears for Facts, A Guide for Teens, litografia, 1988. Fonte: Artsy.

Embora os seus desenhos possam ser vistos como algo infantil, os temas que trabalhava estão muito longe disso. Haring desenha a vida, a morte, a guerra, a liberdade sexual, o amor e o sexo, e no meio disso tudo representa o HIV e a SIDA. Nesta altura, o seu trabalho começou a incluir actos sexuais e elementos fálicos, os quais ele utilizava como forma de consciencialização e para criar campanhas de sexo seguro. Apesar de usar as habituais cores garridas e desenhos animados, há obras desta altura nas quais conseguimos perceber um lado mais dramático associado a um sentido de escuridão.

Representava o HIV não como uma identidade biológica, mas sim como um inimigo dos humanos, tomando a figura de um diabo. Ao desenhar o vírus como algo preto que se assemelha a algo diabólico, dá conotações negativas à doença, mostrando os perigos que constitui para os seres humanos – uma ameaça para humanidade desenhada de uma forma que facilita as pessoas a ver o vírus dessa forma.
Usou a iconografia sexual explícita de modo a inspirar as pessoas a terem conversas mais abertas sobre o tema e a prevenção que todos podiam fazer.

Na obra Silence = Death, por exemplo, vemos várias figuras que cobrem os olhos e ouvidos mostrando que não querem aprender – que, de resto, aparecem em várias obras que o artista criou sobre este tema. O triângulo rosa foi usado pelos Nazi como forma de simbolizar os homossexuais e assim Haring traça uma semelhança sobre como eram vistos e tratados nessa época com como foram tratados na América da década de 1980. A América deixa para trás uma grande parte da sua sociedade devido ao estigma e às tendências homofóbicas.

Keith Haring, Untitled, tinta Sumi em papel, 1988. Fonte: KeithHaringFoundation.

Keith Haring, Silence = Death, acrílico sobre tela, 1989. Fonte: HaringFoundationBlog.

A série Apocalypse, a qual trabalhou em colaboração com o escritor William S. Borroughs (1914-1997), está relacionada com uma altura em que Keith Haring acreditou que o governo criou a SIDA como forma de testar uma guerra de germes e que a teria introduzido na comunidade gay e doentes tratados com terapia intravenosa, porque eram as pessoas ideais para erradicar.

Keith Haring, série Apocalypse, 4 fragmentos, 1988. Fonte: KeithHaringFoundation.

Todos Juntos Podemos Parar el SIDA é mural que Haring criou, em 1988, junto ao Museu de Arte Contemporânea de Barcelona, por sugestão da sua amiga Montse Guillén, numa altura em que o artista regressava de uma viagem a Madrid. Tem a imagem registada de Haring com as figuras dançantes, cobras, seringas e três personagens de “não veja o mal, não ouça o mal, não fale o mal”, inspiradas nos três macacos sábios. Aqui, no entanto, o mal para estas pessoas é o HIV e a SIDA, sobre o qual, como já referido, se recusam a saber mais, não querendo ter acesso a qualquer tipo de informação sobre o tema.
Este mural foi vandalizado pouco depois por graffitters, sendo também afectado pela degradação ambiental. Assim, anos depois, houve um acordo entre a Câmara de Barcelona, o museu e os herdeiros do artista para transferir a obra para outro local, algo que aconteceu em 2012. Foram já três a recriações do mural, cuja versão que agora é visível, ainda num local perto do museu, remonta a 2014 fruto de uma iniciativa para celebrar o 25º aniversário da sua criação.

Keith Haring, Todos Juntos Podemos Parar el SIDA, graffiti, 1989 (2014), Barcelona. Fonte: MACBA.

Esquerda: Keith Haring a criar o mural Todos Podemos Parar el SIDA, Barcelona, 1889.
Direita: Keith Haring com a amiga Montse Guillén, Barcelona, 1889.
Fonte: MACBA.

Keith Haring morreu a 16 de Fevereiro de 1990 devido a complicações relacionadas com a doença. A energia de Haring continuou até ao fim, mesmo quando já estava visivelmente mais debilitado, tendo escolhido continuar a divertir-se e aproveitar todos os minutos que lhe restavam.

A obra pública de Keith Haring foi sempre uma grande aliada de causas sociais, sendo que o artista produziu mais de 50 obras entre 1982 e 1989 por todo o mundo e muitas das quais foram criadas para hospitais, infantários, orfanatos e caridades.
O seu trabalho foi sempre mais para e sobre os outros do que sobre ele próprio, não tendo problemas em pôr-se na boca do lobo para falar sobre os temas que realmente importam e mostrar que, neste caso, há formas de evitar contrair o vírus, não sendo necessário criar estigma em torno de quem está infectado.

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